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Crítica: Big Jato (2016)

Big Jato é o melhor filme nacional lançando em 2016.

Ficha técnica:
Direção: Cláudio Assis
Roteiro: Hilton Lacerda
Elenco:  Matheus Nachtergaele, Rafael Nicácio, Jards Macalé, Marcelia Cartaxo
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 16 de junho de 2016

Sinopse: Francisco é um jovem que sonha em ser poeta, mas passa os dias trabalhando com o rígido pai em um caminhão pipa que limpa fossas. Já o tio tem uma veia mais artística e incentiva o jovem a lutar pelos próprios sonhos.

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Matheus Nachtergaele tem no currículo filmes como Cidade de Deus e O Auto da Compadecida, além de várias novelas e séries. Sem dúvida que é uma referência quando pensamos em grandes atores do nosso cinema e TV. E, arrisco-me a dizer, em Big Jato ele apresenta um dos melhores trabalhos – talvez o melhor – da carreira. Aqui ele faz dois personagens, bem distintos um do outro. A semelhança fica no cuidado interpretativo que Nachtergaele imprime àquelas figuras. Mesmo não sendo o protagonista, Matheus rouba a cena e parte do brilhantismo de Big Jato deve-se a ele.

Normalmente não começo um texto falando de um ator em específico, porém o caso aqui é tão especial que vale a insistência e prioridade. Não é exagero: se o filme tivesse mais abertura, inclusive internacional, a indicação ao Oscar seria certa. Tudo do ator é explorado em Big Jato: vigor, desleixo, seriedade, comicidade, paixão, virulência. Além de uma mudança física considerável entre um personagem e outro, quase parecem atores diferentes. Uma aula de atuação para os amantes da área.

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E todo esse destaque se dá em meio a um filme sensacional. Roteiro, direção, fotografia, design de produção, montagem, enfim, tudo dialogando de modo inequivocamente preciso e peculiar. Este ano tivemos Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo e Ponto Zero como grandes obras do nosso cinema. Antes O Menino e o Mundo e Que Horas Ela Volta? levaram premiações importantes. Big Jato entra nesse top 5 de filmes brasileiros recentes que fogem dos padrões e nos brindam com engenho e arte do mais alto nível.

A história se passa em uma região interiorana e segue basicamente três personagens. Seu Francisco (ou “seu merda”) é um motorista de caminhão que limpa fossas  – daí o singelo apelido. Ele impõe uma criação rígida aos filhos, tem uma série de preconceitos e se utiliza do álcool como válvula de escape para a vida dura. Nelson é um radialista e tem valores opostos ao do irmão Francisco. Afeito à poesia e à filosofia do não-trabalho, um “voyeur do suor alheio”, como ele mesmo se define. É muito mais descolado e malandro que a versão mais “careta” da família, além de ser o responsável pela descoberta da banda que inspirou The Beatles, os geniais Os Betos. Ambos os personagens são vividos por Nachtergaele (já disse que ele está ótimo?)

O protagonista de fato é Francisco Filho (o “merdinha”) transita entre os dois universos das figuras do pai e do tio. Trabalha com afinco e destreza na profissão de limpador de fossa e se mostra interessado e perguntador da vida para o pai (notadamente música e mulheres). Contudo, há uma chama libertária que pulsa no jovem. Ardor este que é incentivado pelo tio, a contragosto do genitor. Há também a figura do “Príncipe”, um poeta apaixonado pela Princesa Isabel e que serve como um diário-mentor com doses de uma senilidade e alegoria.

Os diálogos de Big Jato são qualquer coisa de sensacionais. Frases de impacto permeiam toda a obra. Desde: “as curvas é que dão sentido à estrada”, passando pela placa do caminhão: “Quem não reage, rasteja” e chegando em: “a máquina de escrever é poesia e o computador é prosa”. Os variados ambientes permitem novas construções das personas e do público. Jantares em família, inferninhos, montanhas, além é claro do caminhão Big Jato e da rádio do tio Nelson.

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O diretor Cláudio Assis tem um trabalho de câmera incomum. A movimentação permite ir revelando as coisas aos poucos é quase um 3D, muito mais impactante do que 90% dos filmes que usam de fato o recurso… a mise-en-scène aqui permite uma textura e profundidade sutis e raras. É um trabalho exemplar de Assis na condução do nosso olhar. Ele também nos joga em cena nos ambientes a partir de um olhar de cima, distorcendo um pouco a imagem, permitindo um outro prisma para o público.

Pequenos elementos como um celular que dada a ausência de sinal só tira foto, uma cidade conhecida pelos fósseis e um hino à la hakuna matata ou grandes questionamentos permeando a dualidade: amor x sexo, ingenuidade x amadurecimento, liberdade x prisão mostram que Assis sabe contar uma história alegórica tanto no nível macro quanto no mais singelo e cotidiano.

Mesmo sem um peso grande na atuação do jovem Rafael Nicácio e uma certa estereotiparão de alguns personagens, Big Jato, baseado no romance de Xico Sá, é uma obra digna de muitos aplausos e que funciona como humor constante (desafio ficar mais de 5 minutos sem esboçar um sorriso), um drama familiar e universal, além de reflexões sutis (ou nem tanto) sobre a vida como um todo. Confira esta pérola do nosso cinema.

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