Crítica: Ponto Zero (2016) - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema

Crítica: Ponto Zero (2016)

Ponto Zero fala através de imagens… e como fala…

Ficha técnica:
Direção e roteiro: José Pedro Goulart
Elenco: Sandro Aliprandini, Patricia Selonk e Eucir de Souza
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 26 de maio de 2016.

Sinopse: a família de Ênio tem relações complicadas e parece a um ponto de ruir. A mente do garoto fica no meio deste furacão e sente de uma forma peculiar o mundo ao redor.

Ponto Zero

Definitivamente Ponto Zero é um ponto fora da curva no cinema nacional. Dois aspectos fundamentais reforçam essa ideia: uma fotografia espetacular e uma “não” narrativa simbólica. Vale o alerta: não é um longa palatável e o ritmo pode desagradar muitos. Quem chegar por acaso pode ficar frustado. Por outro lado, quem estiver disposto a jogar esse embate metafórico pode ser positivamente surpreendido.

Tudo aqui funciona de uma maneira pouco convencional. O protagonista profere, durante todo o filme, pouco mais que meia dúzia de frases curtas. Mal vemos o olhar dele em parte da trama. Os demais personagens mais compõem um cenário do que possuem arcos complexos. Vemos poucas interações entre eles quando Ênio não está presente. Os efeitos parecem gritar e não fazem esforço para se esconder – e incrivelmente o resultado é bem satisfatório.

Ponto Zero

A cena inicial é uma grande alegoria para a história como um todo: distância e sufocamento como focos principais. Além de outros elementos ali presentes, tal como a água, um não interesse por outrem e a explanação de sentimentos vindos do âmago do ser.

Os devaneios do introspectivo garoto tornam a narrativa quase psicodélica e nonsense. O real e imaginário se fundem na mente do protagonista e por consequência na tela. Ponto Zero é intimista e requer um engajamento do público para que seja apreciado na plenitude.

O bom resultado desses elementos só é possível graças a uma fotografia ímpar e efeitos muito além do que é costumeiro em terras tupiniquins. A fotografia brinca com luz e sombra, tons amarelados sombrios. A chuva é uma incômoda parceira em cena no terceiro arco e a presença dela dá um tom noir para Ponto Zero.

Ponto_zero

E é exatamente neste instante que o título se justifica. A necessidade de amadurecimento é visualmente destacada pela água e sangue, em um símbolo para o (re)nascimento. Além de ser o ponto zero do personagem é também uma marca da virada na narrativa.

Sobre as interpretações podemos dizer que elas são peculiares. Sandro Aliprandini (Ênio) tem um trabalho expressivo muito difícil para a idade. Sem querer tirar o mérito dele, houve sem dúvidas um belo trabalho de direção. O jovem ator precisa transmitir (e ele transmite) sentimentos com poucas palavras. Rapidamente entendemos o que se passa na mente e os anseios, por exemplo sexuais, do garoto. Outro grande destaque vai para Patricia Selonk. Ela dá uma condução muito mais verborrágica e teatral à mãe, servido como ótimo contraste ao filho. Também nela vemos uma perturbação mental, mas essa mais física. Com uma carência excessiva e a substituição da figura conjugal pela do filho.

A personagem da irmã não tem grande papel, mas vem como um contraponto ao Ênio. Ela vive no mundo dela e não se preocupa com os demais membros da família. Crítica válida, mas acaba sobrando no filme, se a tirarmos da história não perdemos muita coisa. Eucir de Souza, que faz o pai, tem a atuação mais comum, não no sentido de simples ou ruim, mas na linha de que ele tem movimentos e falas convencionais (ao contrário dos dois anteriores). O grande mérito dele, além de servir de equilíbrio, é nos passar uma intencional aversão que o personagem acaba gerando.

ponto zero

 

Há um número considerável de cenas na cama, seja no pré, pós ou durante o sono. Entendo que como o filme lida com algo mais abstrato temos aqui mais um símbolo. Todavia esse excesso cansou um pouco. Todavia, a repetição do recurso pode ser considerado um deslize perdoável na direção de estreia (em longas) de José Pedro Goulart. O personagem do pai afirma que só existe “a vida, a morte e a sorte”, sem dúvidas que não foi uma obra da sorte o que Goulart produziu aqui. Anseio pelos próximos trabalhos dele.

Ponto Zero brilha visualmente, explica pouco e traz um desafio ao público. O ritmo vagaroso deixa a obra fluir e a congela nos momentos certos. A fotografia hipnotiza e constrói, vindo quase como um elemento narrativo (muito mais que os diálogos).

Tal como a já citada metáfora da cena inicial, Ponto Zero é a chance para reaproximar o público mais exigente das produções nacionais. Público que estava sufocado por filmes genéricos de baixo valor artístico. Infelizmente a sessão que eu estava não tinha mais ninguém na sala e na anterior não havia presença alguma. Sei que o preço do cinema está caro, mas quem aprecia cinema de arte vale prestigiar este longa nacional.

Gostou? Dê um like e passe adiante!

Leia também:

Apoie o Cinem(ação): contribua com a cultura cinematografica!

  • Críticas cinematográficas
  • Mais de 6 horas de conteúdo inédito por semana
  • Podcasts semanais
  • Grupo no Facebook exclusivo para apoiadores
  • Acompanhamento das nossas conquistas com seu apoio

Abra a porta do armário! Deixe seu comentário:

Material close icon