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Crítica: The Hunting Ground

The Hunting Ground foi indicado ao Oscar de melhor canção original pela música da Lady Gaga “Til It Happens To You”.

Direção e roteiro: Kirby Dick
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2015 (no Brasil disponível pela Netflix)

Sinopse: documentário que denuncia abusos sexuais sofridos por estudantes em Universidades americanas.

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Já adianto que não é um documentário fácil de digerir. Apesar da narrativa fluida a temática de  The Hunting Ground é pesada. O filme começa em um tom extremamente positivo. Mostrando o momento de comemoração de pessoas que foram aceitas nas Universidades e a alegria do primeiro dia de aula com belos discursos de boas vindas.

Porém com 5 minutos de filme a toada muda e já mostra relatos de vítimas que sofreram abuso sexual antes mesmo das aulas começarem. Em um dos relatos a aluna se perguntava por que ela não conseguia gritar na hora do abuso e ela mesmo responde: “Quando se está apavorado e não sabe o que está se passando com você, você simplesmente espera que não morra… e era isso que eu estava esperando”

MAIS DE 16% DAS ESTUDANTES SOFRERAM ABUSO SEXUAL NAS UNIVERSIDADES AMERICANAS

Com diversos depoimentos de vítimas, na grande maioria mulheres, o longa mostra o quão difícil é lidar com essa questão sob vários prismas: o ato em si, o dia seguinte, contar para os pais e até conviver com o estuprador (que muitas vezes era alguém do convívio da pessoa).

Duas vítimas decidiram se juntar e estudar questões jurídicas que envolvessem os casos de estupros nos campi. O fio condutor da história é contado pela evolução do amparo fornecido por estas estudantes e a amplitude que elas conseguem atingir.

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Uma das coisas mais aterradoras é que as Instituições encobrem os fatos para evitar problemas judiciais e financeiros. Há, segundo relatos no longa, orientações explícitas para a polícia dos campi abafarem os casos.

EM 2012 45% DAS UNIVERSIDADES NÃO RELATARAM NENHUM CASO DE ABUSO SEXUAL NOS RESPECTIVOS CAMPI

Ainda falando sobre a postura das administrações superiores das Universidades, é evidenciado que houve poucas expulsões de alunos, quase nulas. Não é política da Universidade punir discentes por essa questão, apesar de ter muitos casos de expulsões por outros motivos disciplinares muito mais brandos se comparados aos abusos sexuais.

APENAS DE 2% A 8% DAS DENÚNCIAS SÃO FALSAS

É claro que podem haver pessoas que por vingança, ou seja lá qual o motivo, apontam o dedo para outra com o intuito de prejudicar. A devida investigação se faz necessária. Mas os números levantados demonstram que essa falsa denúncia é algo bem raro. E as autoridades deveriam dar mais atenção aos casos.

88% DAS VÍTIMAS NÃO QUISERAM DAR QUEIXA

As pessoas que deveriam orientar ou abrigar quem sofreu os abusos, muitas vezes acabam agindo de forma equivocada. Há uma culpabilização da vítima: perguntaram se elas não estavam bêbadas ou com roupa curta, se elas disseram não e por quantas vezes ou ainda se se esforçaram para fechar as pernas (!!!!). Esse constrangimento pode ser um dos fatores que inibam a voz de quem foi molestado.

CERCA DE 8% DOS HOMENS SÃO RESPONSÁVEIS POR 90% DOS ESTUPROS.

Esse dado demonstra que a tendência é que quem comete essa atrocidade o faz mais de uma vez. E que culpar toda a população masculina não é o melhor caminho. Aliás, o documentário deixa claro que existe abusos sexuais contra homens, mas que são números tão irrisórios registrados (pois os homens prestam bem menos queixa que as mulheres) que fica difícil de saber a real extensão do problema.

AS FRATERNIDADES SÃO RESPONSÁVEIS POR 60% DAS DOAÇÕES PARA AS UNIVERSIDADES

Parte do interesse das Universidades em encobrir o acontecido se dá para não vincular a imagem da Instituição a um local de violência sexual. Além desse fator, parte dos estupros ocorrem nas fraternidades. E elas praticamente sustentam as Universidades com doações e disponibilizando parte das moradias estudantis. E tem um peso grande no Congresso americano: nenhuma faculdade ou Universidade sozinha é mais representada que as fraternidades.

E se o caso envolver um aluno-atleta a denúncia fica ainda mais complicada (lá há uma proteção muito grande para os esportistas – algo que tem benefícios, mas que por vezes traz esse tipo de consequência).

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Há uma certa lembrança do que vemos em Spotlight- Segredos Revelados. Tanto este documentário quanto o vencedor do Oscar tratam de abusos sexuais encobertos por grandes instituições (lá a igreja e aqui a Universidade) e trazem uma investigação contemporânea- mostrando que o problema está muito mais perto do que imaginamos.

Devido à importância do tema e forma como foi contado, surpreendo-me que The Hunting Ground não foi indicado na categoria de melhor documentário (poderia ficar com a vaga do Winter on Fire, por exemplo).

A música da Lady Gaga vinha como favorita, mas perdeu para o Sam Smith, com “Writing’s on the wall” do filme 007 – Contra Spectre. Todavia a mensagem do filme The Hunting Ground ficará marcada já no impactante título da canção de Gaga: “Til It Happens To You” (“Até isso acontecer com você”).

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