Crítica: Cópia Fiel

Crítica: Cópia Fiel

por Bárbara Pontelli

Cópia Fiel (Copie Conforme)

Lançamento: 2010

Direção: Abbas Kiarostami

Roteiro: Abbas Kiarostami

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Cópia Fiel é o resultado de uma produção franco-italiana-iraniana assinada pelo diretor Abbas Kiarostami – sendo seu primeiro filme rodado fora do Irã.

Drama romântico, o filme trabalha com a ideia central da tese defendida pelo personagem James Miller (William Shimell) – autor de uma obra que explora a ideia de que uma cópia/ réplica possui sim seu valor; principalmente no campo da arte. O protagonista é um pesquisador charmoso que acaba de lançar tal livro e a narrativa acontece em Toscana, Itália, onde James irá conhecer Elle (Juliette Binoche). Elle é uma mulher divorciada, com um filho de oito anos e sua expressão é marcada por tristeza e cansaço. Entretanto, Juliette encanta-se pelo autor e fica intrigada por suas ideias nada convencionais. Quando vai à palestra de James na Itália vê a oportunidade de conhecê-lo e então consegue convidá-lo para conhecer seu antiquário. James prontamente atende o convite e é aqui que começa a trama: resolvem dar um passeio de carro e partem por uma belíssima estrada a caminho de um vilarejo rumo ao interior da Toscana.

De um lado temos a incrível e forte presença de Elle uma mulher que, embora amargurada pelo término de um casamento que durara quinze anos, carrega uma certa carga enérgica nas palavras e consegue conquistar o espectador em diversos sentidos. Do outro lado temos o solitário James, um intelectual inglês fora dos padrões, que busca convencer o mundo (e a si mesmo) de suas ideias nada convencionais. Segundo o personagem, o valor que damos às coisas é que as fazem ser o que são, ou seja, uma obra de arte conhecida como tal, certamente será valorizada. Entretanto, uma réplica não teria tal valor devido ao seu status de reconhecimento já ter sido preestabelecido; é uma cópia e, portanto, não possui valor – por mais perfeita e isenta de defeitos que ela seja.

Nesse sentido, a conversa caminha para uma outra discussão: sobre o conceito da originalidade:

(James) “Veja esses ciprestes…são bonitos, são singulares, você nunca vê dois ciprestes iguais. (…) originalidade, beleza, idade, funcionalidade. São as definições de uma obra de arte. Porém eles não estão numa galeria, estão num campo então ninguém presta atenção.”

Impecável…adorei como o personagem explorou tal conceito! O que seria original nos dias atuais? Qual o valor de algo original?

(James) “(…) isso não importa – ele diz. O retrato mostra a beleza de uma jovem mulher, ela que é a original. Até a Mona Lisa é uma reprodução da Gioconda…e aquele sorriso? você acha que é original ou que o Leonardo pediu para que ela o fizesse?”

Há toda uma questão filosófica e existencialista no enredo – o tempo todo. Atrelado à todas essas reflexões oferecidas ao espectador, também sentimos uma forte tensão onipresente: o clima romântico e provocante entre os dois protagonistas. Provocam-se através das palavras e dos calóricos debates filosóficos e fica óbvio que Elle sente algo pelo escritor. Já a suposta reciprocidade não fica tão latente: um homem tão subjetivo quanto ele, não permite que o espectador decida se a atração é, de fato, correspondida.

Da metade para o final do filme, os protagonistas são confundidos com um casal ao entrar em uma cafeteria. Sem desmentir a situação, passam a dissimular a condição de “um casal em crise”. A sacado do diretor foi sensacional: é nessa brincadeira que Elle baixa a guarda e acaba expondo todas suas mágoas em relação a vida, na tentativa de James entendê-la, bem como, tornar ainda mais claro os sentimentos que nutre por ele. É através dessa brincadeira de dissimulação que Elle prova as filosofias de vida dela e ele as dele. Ela quer provar que possui razão por encarar a vida com certo “amargor” e ele procura mostrar o contrário; tentando provar que tudo é uma questão de ponto de vista e que ela não precisa encarar a vida assim. Se olharmos de um jeito parece uma coisa e de, outro jeito, uma segunda percepção que se torna real porque, na verdade, tudo possui, de fato, os seus dois lados. Se você apresenta um desses lados para uma terceira pessoa ela irá concordar com você porque, afinal, você está expondo um dos lados real da coisa. Mas e se ela for apresentada para o outro lado?

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Medo, receio ou simplesmente um amor não correspondido, James não atende aos anseios de Elle. O desfecho se dá nesse clima: ambos aprenderam muita coisa e paralelamente, por algum motivo nebuloso, não terminam juntos. Ele diz que não vai ficar pois tem que estar na estação às 21h. Os sinos tocam. É o tempo. Aquele era o tempo exato o qual ele deixou escapar. Mas o sino continua ecoando…nossas decisões ecoam na eternidade.

Confesso que simpatizei bastante pela personagem de Elle e torci desde o início para eles terminarem juntos, em alguns momentos achei que de fato isso aconteceria. O drama particular de Elle foi atrelado ao drama particular de James. O escritor tenta convencer o mundo, através do seu livro, na tentativa de convencer a si mesmo dos propósitos da existência humana, partindo de ideias que fogem do convencional – ao debater sobre a questão da identidade/ originalidade e como nossos preconceitos somados à uma visão iludida; idealizada nos tornam vulneráveis. Nada como o belíssimo cenário europeu do interior da Itália para servir como palco desses dramas românticos burgueses…recheado de arte, passeios em museus e vistas encantadoras!

(James) “Você pega um objeto trivial e joga num museu. Todo mundo passa a apreciá-lo… o objeto não importa e sim sua percepção sobre ele.”

Afinal, o que é fiel? O que é, de fato, original? O quão difícil seria encontrar algo supostamente original hoje em dia? O filme é um convite à reflexão e aos questionamentos de conceitos importantes.

Resumindo, a grande sacada do filme é lançar a ideia de que, o que realmente importa, é a concepção daquilo que se vê e não do objeto em si que está sendo visto. O significado, o valor/ beleza e a grandeza do objeto é relativo… seja uma obra de arte…seja qualquer outra coisa! (e, para provar isso, o personagem parte da ideia, portanto, de que uma cópia teria sim eu valor).

(James) “Minha intenção era mostrar que uma cópia tem importância, que ela remete ao original e assim atesta seu valor. E acho que essa abordagem não é válida apenas na arte”.

A fotografia é bonita e inteligente. O diretor se utiliza a todo momento do jogo de reflexos: em espelhos, nos vidros…tudo adquire significados diante a discussão central trabalhada ao longo do filme e, a fotografia, também foi trabalhada para atender esse debate.

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O roteiro é impecável e a atuação de Juliette Binoche é perfeita….já disse em outros textos o quanto gosto dela! Um filme que compartilha da mesma subjetividade dos protagonistas….muito bom. Pode causar bastante estranheza no início mas simplesmente fantástico para aqueles dispostos a mergulhar nas reflexões das teorias propostas!

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