Crítica: Drive

Crítica: Drive

por Bárbara Pontelli

Drive

Lançamento: 2011

Direção: Nicolas Winding Refn

*adaptação da obra Drive de James Sallis. Roteiro de Hossein Amini.

Categorizar o filme Drive considero uma tarefa próxima do impossível. Embora comercializado sob a classificação ação, não traz aquela ação típica que se espera em um filme que tem como tema carros e velocidade. Em Drive, você não verá grandes explosões, belíssimas atrizes hollywoodianas e perseguições policiais na maior parte do longa. Há muito romance, mas não chega a ser efetivo: permanece no plano simbólico, quase platônico. A beleza desse filme – o qual certamente consta na minha lista de preferidos – está no silêncio e diálogos modestos do protagonista (interpretado por Ryan Gosling); na fotografia excepcional; na incrível trilha sonora (fui atrás da trilha sonora inteira após a primeira vez que assisti o filme…vale a pena futuramente dedicar uma matéria apenas para comentar sobre!), enfim, são tantos os aspectos e, por isso, vou me atentar em comentar apenas os pontos principais.

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Drive é aquele tipo de filme que você gosta/ acha incrível ou vai detestar logo nos primeiros dez minutos e vai desistir de continuar assistindo. Creio que isso aconteça por vários motivos. Principalmente, suponho que seja pelo fato das expectativas de grande parte do público não serem atendidas, tais como: longos diálogos, presença de dinamismo… Drive é, sobretudo, um filme lento, introspectivo. É preciso deixar-se envolver pelas sensações das cores e da trilha sonora. É imprescindível mergulhar nos longos silêncios do protagonista. É um filme das expressões: as palavras são ditas entrelinhas e através das expressões físicas dos personagens. Infelizmente, tais características são dificilmente aceitas por grande parte do público; ávido por ação, movimento e sem paciência para admirar os pormenores.

O filme vai explorar a história do protagonista vivido por Ryan Gosling. Sem nome – apenas conhecido como the driver – logo no início do filme fica visível a personalidade desse personagem principal: um homem solitário, introspectivo, sério, analítico… nas primeiras cenas nos é apresentado uma de suas ocupações: participa de assaltos na função de motorista. Fica evidente a habilidade que ele possui em tal função e sua inteligência minuciosa: ele sabe o segundo exato que deve acelerar ou o segundo exato que deve ser paciente e apenas se manter parado. O seu lema – “ (…) diga a hora e o lugar e eu lhe dou cinco minutos. Haja o que houver nesses cinco minutos estou à disposição, seja o que for. Mas após esses cinco minutos está por sua conta.” “Eu não participo dos roubos e nem porto armas. Eu apenas dirijo.” – evidencia de antemão com o tipo de personagem que estamos lidando. Durante o dia, the driver se divide entre as ocupações de dublê em filmagens de ação e como um mecânico em uma oficina próximo onde mora.

O drama no entanto, começa quando nosso protagonista conhece sua vizinha: Irene (Carey Mulligan). Encantado pela moça que mora no apartamento ao lado, acontece diversas situações que acarreta a aproximação entre os dois. Paralelamente ao drama romântico vivido por esses personagens, há o desenrolar de uma outra situação que virá ao encontro de ambos mais tarde. Shannon (Bryan Cranston) – chefe da oficina em que o protagonista trabalha – acaba se envolvendo com o gângster Bernie Rose (Albert Brooks). A ideia envolvia uma enorme quantia em dinheiro investido por Bernie… embora a proposta seja um pouco vaga, também envolve o uso de um carro e as habilidades do protagonista – the driver. Voltando ao romance do personagem principal, ao passo que a aproximação entre ele e Irene se dá, o protagonista se vê frequentando a casa dela e nutrindo um certo carinho pelo filho de Irene – Benício (Kaden Leos) – entretanto, tal aproximação, ocorre de forma velada: há muito clima entre os dois, mas sempre começa e acaba no olhar, em toque sutis e em palavras não ditas. Certo dia, Irene revela uma triste notícia: o advogado ligara dizendo que seu marido sairá da cadeia dentro de poucos dias. Em pouco tempo após o retorno de Standard (Oscar Isaac), o protagonista acaba se vendo em uma difícil situação: alegando que estava “sob proteção na prisão”, Standard diz que deve uma quantia em dinheiro para esses sujeitos. Agora está sendo cobrado dessa dívida e é pressionado a participar de um assalto em uma loja de penhores. Caso se recuse, Irene e seu filho correm risco – bem como – a própria vida de Standard. Assim, temendo pela vida de Irene, the driver acaba se envolvendo nesse assalto na função de motorista. No assalto em si, dá tudo errado. O protagonista se vê em uma emboscada, a qual já era prevista a execução de Standard…mas, graças a sua hábil destreza como piloto, consegue sair intacto e com uma enorme quantia de dinheiro do roubo. The driver está agora em uma situação desesperadora, sem saída: com uma enorme quantia de dinheiro proveniente de alguma organização mafiosa, ele sabe que uma hora ou outra irão encontrá-lo, bem como, fatalmente, irão atrás de Irene e de Benício. O protagonista irá fazer de tudo – daqui em diante até o final do filme – para tentar sobreviver mas, principalmente, garantir a vida de Irene e Benício. O desfecho do filme não aponta se o final foi feliz ou não: ficamos sem saber se o personagem principal de fato sobreviveu e como será o futuro de/ com Irene.

Ryan Gosling está incrível no papel do protagonista – the driver. De poucas palavras mas sempre observando com atenção tudo ao seu redor com uma racionalidade latente. O silêncio dele chega a ser perturbador mas é carregado de significados, bem como, suas expressões. Ele responde com o olhar tudo o que não traduz em palavras. O longa explora as expressões e os sentidos o que implica que Refn foi capaz de transportar toda a pobreza do diálogo e de um roteiro modesto para uma direção que compensa apenas com as imagens – algo que, penso, é uma arte difícil de se atingir em um filme; principalmente nos dias atuais onde as superproduções e riqueza de detalhes parecem ser cada vez mais indispensáveis. The driver é um sujeito misterioso mas não faz aquele tipo cheio de músculos…ameaçador com pinta de anti-herói galã e conquistador. Ele é um sujeito lacônico que carrega um ar sempre triste e deprimido embora saiba sempre o segundo exato de como e quando agir. Interessante notar a peculiaridade desse personagem: claramente influenciado pelas produções dos anos 80 (tal como os demais elementos do longa os quais comento mais adiante), o personagem toma forma puramente através das sensações que provoca. Os gestos, expressões…. o olhar e sua própria estética somado a seu jeito calado, apenas o torna mais intrigante. Embora seja um filme comercializado sob a categoria ação, bem como todo o merchan ter se concentrado nisso, as cenas não precisam de diálogo nenhum…e isso é conduzido com uma destreza ímpar, tornando ainda mais incrível o longa!

Certamente essa personalidade introspectiva do protagonista acaba tornando velado seu romance com Irene. Observamos um amor platônico, simbólico….não há sequer contato físico – fora a breve cena do elevador, que merece ser comentada em detalhes. Eles se comunicam com o olhar, com as expressões. Percebe-se que há qualquer coisa mágica entre eles e assim segue, dia após dia, sem entretanto nenhum dos dois dar o primeiro passo para efetivar um romance propriamente dito. Sem diálogos, sem grandes toques físicos….. particularmente, creio que poucos sejam capazes de conseguir transpor tal paixão para uma tela frente às respectivas circunstâncias. E, mesmo assim, a força do amor que ele sente por ela é tamanha, que o personagem fora capaz de tudo aquilo: perseguir, matar, roubar…não que já não estivesse presente em sua vida essa natureza violenta, mas percebo que ele não mediu esforços e consequências na medida em que percebe que Irene corre perigo e no esforço de mantê-la protegida. Falando dessa “natureza violenta” fica evidente que, embora sempre calado, cabisbaixo e carregando aquele olhar supostamente indefeso, o personagem sempre está preparado para responder violentamente a qualquer eventual adversidade. Nesse sentido, é impossível não notar referências a outros grandes clássicos do cinema, tais como: o universo da máfia de Scarface, o uso da violência súbita e desmedida – numa pegada bem Quentin Tarantino… o clima tenso; o submundo de um grande centro urbano e seus riscos sempre à espreita – sem falar do protagonista assumindo o papel de motorista – não tem como não relacionar com a atmosfera de Taxi Driver. Impossível não associar o episódio em que Gosling vai atrás de Cook (James Biberi) com um martelo com a cena do martelo de Oldboy. Simplesmente genial!

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Uma cena importante em que articula elementos tanto românticos quanto de violência/ ação é o famoso episódio do elevador. Particularmente acho de uma beleza única tal cena, uma das melhores e mais lindas de todo o cinema! A junção da fotografia, jogo de luzes, expressões, trilha sonora e – principalmente – a sincronia dos movimentos de Gosling, resultam em algo impressionante! Penso que são poucos os que atingem a habilidade de intercalar delicadeza e violência exagerada em uma única cena de modo a incorporar uma das mais sensíveis e belas de todos os tempos!

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Por ser um filme marcadamente sensorial e estético, o estilo e as imagens assumem papel fundamental. Carregado pela atmosfera dos anos 80, as características visuais e sonoras fazem alusão a essa cultura. A aparência, delineada através das cores frias (acompanhando a personalidade distante do protagonista e as relações do submundo desenvolvidas ao longo da trama) intercaladas por cores quentes em outros breves momentos, o figurino de Gosling – jaqueta, jeans…com um ar mais descompromissado, as luzes marcantes… o letreiro na cor roxa – lembra muito aqueles filmes do início dos anos 90. A trilha sonora também transborda todo esse clima. Assinada por Cliff Martinez, ajusta-se perfeitamente à atmosfera do filme: com características eletrizantes, um toque retrô e melancólica quando necessário. Destaque também para a Real Hero (College & Electric Youth), adoro essa música! Incrível como fica ecoando na cabeça mesmo após assistir o filme.

O enquadramento da câmera permite que o espectador se sinta dentro do carro com the driver; você sente a adrenalina. É um filme que, se você der uma chance e se entregar a ele, te prende do começo ao fim. Adoro o jeito com que a câmera capta os rostos, sempre focando na expressão…no olhar. Por vezes, retrata o protagonista pensativo e calado no canto da tela, afirmando seu semblante de “anti-herói solitário”. Sempre analisando, observando mas nunca indiferente aos acontecimentos ao seu redor – tal como pode-se erroneamente concluir já que o personagem é de poucas palavras.

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De fato é um filme atípico em muitos aspectos e sob um olhar medíocre pode causar estranheza. Em diversos momentos há apenas o silêncio. O espectador tem que ter um feeling pra sacar a beleza desse filme. É um filme de sensações, sobretudo. Adoro o fato de que os diálogos acontecem mais através dos olhares e expressões que das falas. É preciso ter uma determinada sensibilidade para entender/ gostar do protagonista. A atuação de Gosling na pele de the driver considero excelente. Drive prova que, para um filme ser bom, não é preciso enorme investimento. Para ser profundo, não precisa de enormes e ricos diálogos. Embora o enredo não deixe de ter diversos clichês – hora errada/ lugar errado/ mafioso/ a mocinha indefesa etc – não é isso que conta, ao passo que, Drive assume-se como um filme incrivelmente cativante; uma experiência audiovisual ímpar, cheia de significados!

*Prêmios

Antes de ser lançado comercialmente em setembro de 2011, o filme foi mostrado em vários festivais. No Festival de Cannes de 2011, Drive foi muito elogiado e aplaudido de pé, rendendo a Refn o prêmio de melhor diretor. Chegou a ganhar mais de 30 prêmios e ter mais de 50 indicações em diversos festivais de cinema ao redor do mundo.

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