"Praia da Futuro": I) O herói II) O homem & III) Os Verbos

“Praia do Futuro”: I) O herói II) O homem & III) Os Verbos

“Sala de Arte – Cinema do Museu.

Diariamente às 20:35h (exceto quinta e segunda).”

 

 

Volta e meia me questiono sobre quais são os critérios utilizados pelas distribuidoras no esquema de distribuição dos filmes – principalmente os nacionais – nas salas de cinema Brasil a fora.

As aspas que iniciam esse ‘gripho’ escancaram a triste metalinguagem da falta de trato da ‘indústria’ para com o nosso cinema.

Das plurais, porém cada dia mais escassas salas de cinema, (contando as lotações dos shoppings) apenas uma sessão para quem quer assistir um filme off-comédia brasileiro.

 

O filme terminou às 22:20h.

Aí ficam as perguntas:

– E quem não tem carro?

– E quem não mora no Centro da cidade?

Simplesmente não assistem. Eis a resposta?

Enquanto levarem em conta as próprias contas (entenda-se os recordes de bilheterias das comedias globais, dos besteiróis americanos que insistimos em fazer constrangedoras releituras e dos efeitos especiais de última geração) veremos grandes filmes do nosso modesto e desvalorizado cinema nacional, restritos à sessões únicas e fadados a um pequeno público.

 

Praia-do-futuro

 

“Mas aí é que está o cerne da ação. O nó do ponto. Quanto menos as pessoas tiverem acesso a um produto de qualidade, que faz pensar, questionar e expandir, mais bilheterias essas pessoas darão (…) É o mesmo quartel da política. Menos educação. Mais votos burros.”

 

Obstáculos à parte…

Assisti ‘Praia do Futuro’ (e não seria diferente!).

A sala não estava lotada (umas 15 pessoas no máximo), não fui avisado na bilheteria, não comi pipoca (havia esquecido que cinema de arte é anti o produto) e ninguém saiu chocado no meio da sessão (não sei por que, mas acho que é justamente por eu estar em um cinema de arte…).

Em meio à polêmica dos avisos antes do início das sessões, as saídas em reação às cenas de sexos – entre dois homens – fui lá invadir essa praia futurística que meu subconsciente imaginou ser fictícia.

No início do filme soube que a ‘Praia do Futuro’ tinha cidade (Fortaleza), país (Brasil) e de fato, existia. Mas, de fato ao mesmo tempo nos parecia um paraíso tão distante…

Esse era o abismo geográfico que torturava Donato (Wagner Moura). As areias – e as águas – estavam ali, mas a praia não era aquela.

O filme do cineasta cearense Karim Ainouz, é um retrato – que poderia ter ido beeem mais fundo – da busca por nós mesmo e pelo que verdadeiramente somos (o ato de assumir essa verdade).

Rotular o filme de gay é mais uma prova de quanto às pessoas tem predileção por definir as coisas em termos, e de quanto uma ação comum do extinto humano é mais importante – e acaba ganhando mais destaque, positivos e/ou negativos – do que o trabalho artístico como um todo.

“Demorei a perceber que o menino com fobia de água e fã do Aquaman na verdade era seu irmão. Vendedor ambulante, criança de rua, filho de alguém da praia… E pensaria várias outras coisas, menos no parentesco, que só fica claro depois que a mente já dropou mil ondas”.

 

Karim se mostra mais uma vez um mestre em criar personagens que buscam encontrar a si mesmos e para tal feito precisam adentrar o fluxo migratório. E, como nos seus trabalhos anteriores (Madame Satã, O Céu de Suely, Viajo porque preciso, Volto porque te amo, e Alice – série da HBO) ele acerta mais uma vez em sair do eixo Rio – São Paulo e explorar novos takes e paisagens, mas peca justamente por deixá-los passarem quase despercebidos, em um superficial segundo plano.

 

praia do futuro

 

I – II – III

 

As três partes que dividem o filme enumeram a fragmentação do herói.

Especialmente, o terceiro e derradeiro capítulo (O fantasma que falava alemão), mostra que os fantasmas existem e que o passado nunca morre, nunca fica no adeus da nossa partida, mas é bagagem inerente dela.

Na verdade é um encontro de fantasmas. Ayrton (Jesuíta Barbosa) que para o Aquaman não falava alemão – mais falava – e Donato que para o garoto – agora homem feito – só falava a língua estrangeira do homem que abraçara na primeira parte da narrativa.

Percorremos a curva de amadurecimento das personagens e o efeitos – pós e contras – de suas ações.

 

“Horrível… Um ator daquele (Wagner Moura), não precisava se prestar aquilo”.

 

Esse foi um dos comentários (preconceituosos) que ouvi – com total aversão e desprezo – de espectadores após assistirem o filme.

Justamente por eles – Wagner e o ator alemão Clemens Schick (Konrad) – serem ATORES (em caixa alta), eles se despiram de qualquer vaidade, se libertaram de qualquer pudor artístico envernizado na camuflagem do preconceito e deram vida aos seus respectivos personagens. No qual a homossexualidade é um mero detalhe do roteiro, ainda que com o simples intuito de romper barreiras.

Aos que deram as costas e saíram antes do filme terminar, se tivessem a coragem, e ficado até o final da sessão, sentiriam nas palavras finais de Donato a ‘essência’ do filme.

 

“Sai extremamente feliz por ter conseguido assistir o filme até o enfim (apesar do marasmo causado pelo tamanho excessivo de algumas cenas), e em paz comigo em ter a plena certeza de que não sou o Aquaman”.

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