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Crítica: Faroeste Caboclo

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por Daniel Cury

Ele não “comia todas as menininhas da cidade”, não “encontrou um boiadeiro”, não recebeu uma “proposta indecorosa” e não “viu o repórter da televisão”. Mas no cinema, o gênero faroeste nunca foi tão caboclo.

FaroesteCaboclo_foto07Adaptação da música homônima de Renato Russo, “Faroeste Caboclo” narra a saga de João (Fabrício Boliveira), rapaz negro e pobre que sai da cidadezinha de Santo Cristo, no sertão, vai a Brasília e lá se envolve com o tráfico de drogas e com Maria Lúcia (Isis Valverde), menina rica por quem se apaixona. Curiosamente, tudo se passa em meio à Brasília dos anos 1980, período final da ditadura militar, mesmo espaço e tempo da biografia de Renato Russo “Somos Tão Jovens”.

topfaroesteHá uma geração de fãs da música que sonha em ver frases como “você perdeu a sua vida, meu irmão” na tela do cinema. O que esta geração encontrará, entretanto, é um bom e velho western temperado com frases memoráveis e realismo consciente. O realismo que o filme carrega está exatamente no fato de ele não se render a elementos e versos da canção original apenas para gritar ao público que se trata da letra de Renato Russo – algo que ocorre na cinebiografia do autor. O lado poético de “Faroeste Caboclo” está na narração do protagonista, que divaga sobre o destino, dando características épicas à narrativa. O resto é cinema.

O destino, aliás, é tema central da trama. Afinal, o momento político em que o país vivia, quando a obra original foi criada, impedia que muitos tivessem suas vontades alcançadas, fazendo com que a vida se encarregasse de escolher: ao protagonista, restava apenas reagir. Os políticos e militares estão sempre presentes no filme como personagens que bloqueiam as vontades de João, impedindo a sua felicidade: o militar que mata seu pai; o senador Ney (Marcos Paulo, em ótima despedida), que impede João de ser livre com Maria Lúcia; o policial Marco Aurélio (Antonio Calloni) que o persegue; e o próprio antagonista Jeremias (Felipe Abib), que não é militar, mas é filho de um, o que não muda muito quando se está em um país hierárquico.

faroestecaboclo_cena1Jeremias vive o único personagem que apresenta incongruências do roteiro, já que suas ações no final do filme não combinam com a posição de obcecado por Maria Lúcia, que ele alega ser o motivo verdadeiro de sua desavença com João. Mas isso não é grande problema se levarmos em conta que o filme consegue ser plausível até mesmo para explicar o parentesco entre um jovem do sertão e um traficante peruano. O filme ainda merece créditos pelas boas atuações: Fabrício Boliveira mostra entrega total a um personagem que odeia com a mesma intensidade com que ama, e Isis Valverde demonstra maturidade ao encarar uma jovem decidida e rebelde.

faroestecaboclo_cena2Com algumas frases de efeito que podem se unir ao rol de citações memoráveis de Dadinho e Capitão Nascimento, o filme merece créditos também por suas referências ao western que o diretor René Sampaio realiza. Cortes rápidos, closes nos rostos e até mesmo botinas andando por uma casa de piso de madeira são apenas alguns exemplos. O confronto final, justamente por não ter “sorveteiro” e “gente da TV que filmava tudo ali”, é puro faroeste.

Se faroeste é uma invenção americana, neste caso ele se adapta para a realidade árida do planalto central do Brasil. Neste jogo de adaptações de conceitos e versos, é preciso valorizar a criatividade. É uma pena que outras invenções americanas, por falta de inventividade, nem sempre se transformam em algo tão brasileiro, tão real, tão caboclo.

Nota: 4 claquetes

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