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Crítica: As Aventuras de Pi

asaventurasdepi-posterEm determinado momento, a água é tão cristalina que pensamos que só existe o céu. Só entendemos que é água porque um homem passa nadando. Uma ilha no meio do mar possui vegetais suculentos e milhares de suricates tranquilos. Em outro momento, uma gigantesca baleia pula para o ar, atrapalhando a vida do jovem que tenta sobreviver em um bote à deriva, acompanhado de um tigre-de-bengala.

vida de pi 2Quando surgiram as primeiras imagens de “As Aventuras de Pi”, tive a impressão de que tratar-se-ia de uma poesia visual sem muitas falas ou narrativa verborrágica. Enganei-me. De fato, o novo filme de Ang Lee é, acima de tudo, plasticamente belo de se admirar. A trama, no entanto, é mais tradicional, embora não deixe de ser poética. A plasticidade visual do filme, mesmo assim, é seu ponto forte.

asaventurasdepi02“As Aventuras de Pi” conta a história de Piscine Patel (Suraj Sharma/Irrfan Khan), um jovem indiano com uma vida bastante curiosa que se encontra à deriva no mar após ver seu navio naufragar. Como ele estava transportando animais do zoológico de seu pai, ele se vê obrigado a dividir o bote com um tigre de bengala, chamado Richard Parker – aos que não viram o filme, acreditem: o nome do tigre é plausível.

Mas a trama do filme é mais que isso. Fundamentalmente, trata-se da vida de um homem e sua busca por um verdadeiro sentido na vida, assim como sua maturidade emocional, e os obstáculos para o amadurecimento serão gigantescos – não por enfrentar o oceano pacífico em um bote, mas por perder a família inteira e enfrentar a solidão. Desde sua infância, Piscine Patel, o Pi, busca o verdadeiro sentido da vida em diversas religiões: hinduísmo, catolicismo e islamismo. Ele conta sua história a um escritor, e um dos objetivos é fazer com que o escritor comece a acreditar em Deus. Neste quesito, o longa é interessantíssimo.

Portanto, podemos separar “As Aventuras de Pi” em três segmentos: a técnica, a narrativa e a discussão filosófica.

asaventurasdepi01Em termos de técnica, trata-se de um filme impecável. A fotografia é extremamente minuciosa nos diferentes ambientes, os planos aquáticos são absolutamente perfeitos, e os efeitos especiais que criam o tigre simplesmente assustam pelo realismo: o tigre se expressa com os olhos e o rosto de forma comovente e realista, e é impossível detectar o que é um tigre de verdade e o que é feito com computação gráfica. O mesmo pode ser dito quando se trata da água do mar, dos peixes e dos outros animais.

Quanto à narrativa, não há grandes questões a serem tratadas. Infelizmente, o final do filme traz muita explicação para algo que poderia ser mais sutil e menos jogado para o espectador. O roteirista poderia ter sido mais seguro de si e economizado na narração em off de Pi, mas caiu na armadilha em que muitos roteiristas caem quando adaptam livros para o cinema: render-se às muitas explicações pertinentes na literatura.

vida de pi 4No quesito da discussão filosófica acerca da crença em Deus e da necessidade do ser humano em buscar explicações etéreas para o sentido da vida, Ang Lee e David Magee (roteirista) são felizes em deixar pequenos pontos de discussão no ar: embora não diga explicitamente, Pi não precisou de uma religião específica para “encontrar Deus”, o que traz uma mensagem contra as instituições religiosas. Quando uma rápida “segunda versão” da história de Pi é contada no final, a trama não afirma qual o sentido de se acreditar ou não em forças superiores, deixando para o espectador interpretar à sua maneira.

O eclético diretor Ang Lee mostra que sabe fazer filmes completamente diferentes. Entre uma ou outra produção medíocre como “Hulk” e “Aconteceu em Woodstock”, Ang Lee faz coisas boas como “As Aventuras de Pi”, que supera os medíocres, embora não alcance a excelência de “O Segredo de Brokeback Mountain” e “O Tigre e o Dragão”.

Nota: 04 Claquetes

4-claquetes

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