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Crítica: Xingu

Pedro Álvares Cabral “descobriu”, em 1500, um Brasil cheio de índios nus e ingênuos. Passaram-se 440 anos e os brancos ainda não haviam empossado todo o território outrora da coroa portuguesa. Durante todo este tempo, os brancos “europeus” também ainda não tinham entendido que as terras já tinham “proprietários”. Foi necessário que três irmãos lutassem, cada um a seu modo e com suas qualidades, para que os poderosos não transformassem os solos férteis de cultura em mais pasto para gado.

“Xingu” mostra três irmãos aventureiros que se embrenham na mata como voluntários para descobrir novas terras, enfrentar índios e demarcar novos territórios na década de 1940, realizando a Marcha para o Oeste criada por Getúlio Vargas. Leonardo, Cláudio e Orlando Villas-Bôas descobrem terras, e ao mesmo tempo aprendem a (con)viver com os indígenas, tornando-se protetores de suas terras e intermediando negociações. O filme conta como foi criado o Parque Nacional do Xingu, a primeira e maior reserva indígena do mundo.

Com uma narrativa em tom épico, graças à presença do narrador, o filme de Cao Hamburger conta o percurso dos três irmãos com sutilezas. A proximidade da câmera nos personagens principais, desde o início, mostra proximidade com os protagonistas.

Um dos elementos mais importantes do filme é a mediação entre o selvagem e o civilizado, o índio e o branco, e exatamente por isso que Cláudio Villas-Bôas (João Miguel) é o foco principal: é ele quem centraliza e faz a mediação, quem vive o dilema mais pesado, e talvez não por acaso ele foi o irmão do meio. Orlando (Felipe Camargo), o mais velho, é o mais corajoso, porém mais realista, e talvez por isso tenha sido o último a se alistar na expedição. Leonardo (Caio Blat) é o mais irresponsável, jovem e impetuoso.

Em determinado momento da projeção, quando se encontram perdidos na mata após a queda do avião, Leonardo e Orlando começam um embate. Cláudio é mostrado como o centralizador quando a cena mostra os outros dois se encarando enquanto ele está no centro da tela. Logo em seguida, quando Leonardo e Orlando trocam socos, Cláudio é visto de baixo, como superior aos dois e, portanto, o grande centro do filme. Ao longo da projeção, vemos que é Orlando o cabeça da equipe: escreve, mapeia, organiza, e assim permite que o sonhos dos três irmãos seja realizado.

Mas “Xingu” não é apenas um drama entre irmãos. É a história da proteção dos índios. Discute o valor do progresso em detrimento de culturas e línguas. Mostra com competência a luta pelos direitos dos índios às suas terras. Em tempos de sustentabilidade, o filme reflete o pensamento atual de diversas camadas da sociedade.

Ao mesmo tempo em que Hamburger é sábio ao utilizar uma narração econômica, na qual poucas palavras são necessárias, ele usa-se de um estilo pouco orgânico à trama (e clichê) para contar a história: títulos de jornais circulando na tela. Certamente haveria outra maneira de contar os fatos históricos importantes sem a colagem de frases, e talvez tais informações pudessem ser ditas pelo próprio narrador.

Com cenários belíssimos, o filme mostra que filmar no local onde ocorreu a história real é a melhor opção para transmitir tanto a veracidade quanto a grandiosidade do lugar – e a cena vista “do avião”, mostrando a imensidão do verde e as diversas aldeias, é importante para causar impacto ao espectador. Também merecem destaque as cenas noturnas na mata, cuja fotografia remete às cores do reflexo de uma lua cheia, de maneira a dar carga dramática, mesmo que tenham sido cenas provavelmente gravadas de dia.

Mas se o grande mérito de “Xingu” está na relação dos personagens principais e na carga dramática do protagonista, é também no que diz respeito a eles que residem os principais problemas: além de mostrar um dos irmãos brevemente após certo momento e levá-lo ao esquecimento na narrativa (dá a impressão de que o ator se adoentou durante as gravações e mudaram o filme por isso), ele também falha ao não explicar a origem dos irmãos. Afinal, de onde eles vêm e de onde vem a gana por aventura e a sede por conhecer novas terras?

Apesar de tudo, “Xingu” é um filme sensível que enriquece o espectador e traz à baila questões importantes a respeito da cultura indígena e do progresso pelo progresso, além de servir como uma grande homenagem aos índios e às importantes figuras da história do nosso país.

Cao Hamburger e sua equipe realizaram um filme não somente lindo, mas importante para o Brasil. Nosso país precisa de mais “xingus”.

Nota: 4 estrelas

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