Crítica: Sully – O Herói do Rio Hudson

Crítica: Sully – O Herói do Rio Hudson

Sully , de correto drama biográfico edificante, acaba se tornando um atestado do espírito humano devido ao tempo em que vivemos

Ficha técnica:

Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Todd Komarnicki
Elenco: Tom Hanks, Aaron Eckhart, Laura Linney, Anna Gunn
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2016 (1 de novembro de 2016 no Brasil)

Sinopse: Em 15 de janeiro de 2009, o mundo testemunhou o “Milagre no Hudson”, quando o Capitão “Sully” planou com seu avião danificado até cair nas águas geladas do Rio Hudson, salvando as vidas dos 155 passageiros a bordo. Contudo, apesar de Sully ser saudado pelo público e pela mídia por seu feito sem precedentes na história da aviação, inicia-se uma investigação que ameaça sua reputação e sua carreira.

sully

Nos minutos iniciais de Sullly – O Herói do Rio Hudson, acompanhamos os pilotos e os passageiros de um avião se preparando para um pouso forçado, numa sequência repleta de tensão e um senso de iminência que termina com o pior: a queda do avião no meio da cidade e seu impacto com os prédios, este acompanhado do ponto de vista dos pedestres. Quando o capitão Chesley “Sully” Sullenberger, vivido por Tom Hanks acorda, desorientado e aflito, percebemos que o eficiente prólogo não passara de um sonho. Apesar dessa efetiva sequência inicial, o diretor Clint Eastwood demonstra já de início, com a surpresa do sonho (que não é nada onírico em sua abordagem, por sinal) e a reação que o mesmo provoca no capitão vivido por Hanks que está menos interessado na “tragédia” e mais interessado nos efeitos que a mesma provoca no personagem-título.

Estes sonhos tornam-se também “alucinações”, daydreamings, e são uma constante no filme. Os mesmos são derivados de um acidente real, que o piloto impediu de se tornar uma catástrofe maior. Trata-se do “Milagre do Hudson”, quando Sully  decide aterrizar seu avião danificado nas águas geladas do rio que corta o estado de Nova Iorque, o Rio Hudson, – um feito considerado impossível, salvando as vidas dos 155 passageiros a bordo. Sully é auxiliado por seu co-piloto, Jeff Skiles (Aaron Eckhart). Contudo, apesar de Sully ser saudado pelo público e pela mídia por seu feito sem precedentes na história da aviação, inicia-se uma investigação que ameaça sua reputação e sua carreira.

Sullly – O Herói do Rio Hudson opera como um filme feito para a tevê: seja na curta duração (1h36min), na forma como trata as relações de personagens e até nas cenas de audiência (as mais fracas do filme, que tentam injetar tensão desnecessária num longa que já é repleto dela), a impressão que fica é que, não fosse pelos excelentes efeitos especiais das sequências de sonho e do acidente em si, que conferem o pedigree do “alto orçamento”, e a presença do sempre competente Tom Hanks, veríamos este filme num canal lifetime ou algo do tipo. Desta forma, Sully pode ser um filme que opera no automático como o “filme biográfico edificante da temporada do Oscar”, mas pelo menos o faz com eficiência.

Eficiência vista já na recriação do acidente em questão, onde Eastwood acerta em retratá-lo sempre de um ponto de vista diferente, nos já citados flashes de memória ou nos próprios sonhos que Sully tem, instigando nossa curiosidade (não a mórbida, devo ressaltar, e sim em entender como os eventos se desenrolaram). Quando assistimos à sequência completa – excelente com o som e impacto de um cinema IMAX – sentimos o desespero dos presentes no voo graças ao realismo da mesma (e caso os efeitos especiais por computação gráfica não fossem tão eficientes a sequência toda seria comprometida, parecendo um mero simulador).

Tom Hanks em Sully – O Herói do Rio Hudson

Ainda assim, como já mencionado, Eastwood e o roteirista Todd Komarnicki (que se baseia para o roteiro no livro do próprio capitão Sully da vida real) estão mais interessados no homem por trás do “ícone”. Ou seria “ícone americano“? O diretor nunca escondeu seu apreço pelos “everyday real life heroes”, pelo homem comum americano que faz a diferença, e esperamos que a qualquer momento o diretor se entregue ao panfletarismo americano. Felizmente, Eastwood se controla, e foca mais nas relações de Sully com todos à sua volta, em especial seu co-piloto vivido por Eckhart. E já que falamos de “homens comuns”, qual o melhor ator para interpretar Sully do que  Tom Hanks, o “everyday hero” definitivo?

Não fosse Hanks no papel principal, o filme perderia muito de sua força, já que o ator, com seu tipão amigável e ordinário, confere o aspecto de cidadão comum. Ainda assim, Hanks compõe um personagem que é disciplinado e metódico em relação ao seu trabalho. Assim, ver o mesmo se orgulhar ao lembrar de sua extensa carreira e não querer que a mesma seja definida por um único evento é convincente. Aaron Eckhart é competente como o co-piloto, e a relação do mesmo com Sully é verossímil pela franqueza e camaradagem com que ela é retratada. É cômico e leve, por exemplo, o momento em que ambos parecem ansiosos ao saberem que participarão do famoso talk show do David Letterman.

É uma pena que, mesmo que se proponha a explorar essas relações, Eastwood falhe parcialmente ao inserir uma dinâmica familiar manipuladora e dispensável, assim como as cenas de audiência em que as ações do protagonista são colocadas à prova.

Ainda assim, Sully nos faz olhar para seu protagonista enquanto representante do espírito humano. Americano ou não, a verdade é que o capitão Sully é um herói, e, em decorrência do tempo em que vivemos, não é difícil imaginar o quão diferente seriam tragédias como a que houve com a do time do Chapecoense neste fim de ano (e que acarretou o adiamento da estreia deste Sullly – O Herói do Rio Hudson devido ao tema do filme) caso homens como Sully estivessem presentes no voo.

Terminando de forma abrupta, com uma piadinha meio anticlimática, num fade out que mais parece vindo de uma sitcom – ou mesmo um filme feito para a tevê, como já citado, Sullly – O Herói do Rio Hudson brilha graças à sequência do acidente e às interpretações contidas – mas eficientes – de Tom Hanks e Aaron Eckhart, mesmo que no fim acabe se tornando apenas mais um correto filme biográfico edificante.

E talvez, nestes tempos, uma biografia que edifica o espírito humano seja o que precisamos mesmo. Em determinado momento do filme, Eastwood cede um tempo, antes do acidente, a grupos de passageiros – dando rostos àquelas pessoas. Seja com Sully ou com os passageiros do voo, o diretor privilegia sempre o espírito do indivíduo.

São pessoas, e não números, afinal.

 

 

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