Eu Cinéfilo #26: Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo
Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo, José Loreto, Afonso Poyart

Eu Cinéfilo #26: Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo

O Brasil tem uma gama de filmes com diferentes linguagens que dá uma boa diversificada no catálogo. De uns tempos pra cá, o que vem chegando ao grande público são apenas as comédias pastelão. Não que seja ruim, porém com um cinema tão vasto quanto a nossa nação tem, ficar passando só um tipo de linguagem é desperdício de talento, então é com extremo alívio que vejo que “Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo” conseguiu chegar a várias salas ao redor do Brasil e levou uma boa quantidade de público.  Algo dessa magnitude e com um estilo tão peculiar seria um crime se ficasse escondido em algumas salinhas de capitais.

Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo” conta a história do lutador José Aldo que, com a popularização do UFC no Brasil nos últimos anos, ficou altamente conhecido pela população média em geral. Essa cinebiografia é interessante pelo modo como o roteiro e a direção são desenvolvidos, o roteiro pega uma parte da vida dele para contar. Então não temos introdução de personagens, aprofundamento em relacionamentos nem nada do tipo o que vemos aqui é apenas algo retratando a vida de uma pessoa na visão da mesma em relação ao meio em que vive.

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Então logo no primeiro ato já somos jogados na vida de periferia e pobreza do qual Aldo vive em meio a um caos de casas e bares um em cima do outro, e de como o personagem principal leva uma vida difícil e muito raivosa principalmente com seu pai bêbado, que bate na mãe. Poyart (diretor) acertadamente utiliza, nesses primeiros minutos, um tom sombrio e bastante impactado por tons de vermelho dos objetos que cercam Aldo para dar a sensação que tudo está sempre gritando ódio, exalando raiva e pra surpresa um dos poucos momentos em que as coisas se iluminam e mudam de tom são quando Aldo vai visitar alguém em uma espécie de colégio para representar que a esperança vem da disciplina e inteligência, um mantra muito usado por seu treinador de luta.  O fim do primeiro ato ainda apresenta um momento bastante dramático do personagem quando o mesmo vê um ente querido sendo humilhado pelo chefe e logo depois vemos os dois no mesmo ônibus em que chegaram ao lugar, só que agora em vez de conversando e um do lado do outro vemos os dois separados por um banco em um plano holandês para retratar o desconforto e distanciamento que parecia já inevitável.

O segundo ato é marcado pela viagem ao Rio de Janeiro, onde a película torna-se muito mais leve, os tons agora são claros e o roteiro junto com a direção a deixam mais engraçada, têm referências a “Karatê Kid”, uma paixão iminente em jogo com uma lutadora (Vivi) que frequenta a academia na qual ele dorme, e o relacionamento com o fanfarrão do seu melhor amigo, Marcos. Poyart mais uma vez mostra que o longa não está preocupado em ir fundo no relacionamento dos personagens e sim no que eles representam para Aldo, aqui no segundo ato fica claro o que cada coisa quer dizer: Marcos é seu lado mais fanfarrão que só aparece quando está no RJ, Vivi é o futuro, Luiza (uma ex-quase-namorada de Manaus) seu passado, sua mãe a coragem, seu pai o ódio e força… As passagens na sala de seu treinador Dedé são muito bonitas com várias fotos de lutadores consagrados e conquistas mostrando o que Aldo haveria de conseguir caso o seguisse e as medalhas que ele vê penduradas na frente de um espelho mostra a diferença de percepção do personagem que já se via tentando ganhar algo.

As lutas são muito bem dirigidas com uma montagem frenética pra deixar tudo mais dinâmico, rápido e menos chato (não que as do UFC sejam chatas, porém colocar em um longa quebraria bastante o ritmo), seu treinamento acaba caindo no velho clichê de várias cenas passando rápido, o que não chega a ser um problema, e o diretor ainda faz algo bem diferente colocando uma subjetiva da corda quando o mesmo está pulando-a, também se preocupa em não deixar o espectador sair da trama central que é a de Aldo lutando contra seu interior e em certo momento o faz voltar para cidade natal em uma luta muito bonita e extremamente metafórica.

Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo, José Loreto, Afonso Poyart

As atuações seguram a barra, porém o destaque extremamente positivo fica por conta do José Loreto (José Aldo) que se dedicou muito ao papel entregando exatamente o que o personagem precisava: você nota que o mesmo sabe lutar bem, acredita que pode vencer as lutas que vence, entrega muito bem os momentos de raiva com o olhar firme, e passa bastante também o jeito mais ingênuo de alguém que vem de uma cidade relativamente pobre para o Rio de Janeiro. O negativo fica por conta do Rafinha Bastos que apenas interpretou ele mesmo o que acaba que tira bastante da imersão quando aparece. Já o elenco de apoio apenas faz o necessário para manter o nível até o final.
Porém, se Poyart é um visionário desde seu “2 Coelhos”, o mesmo também mantém a falha: o excesso. Se lá o que ficava incômodo eram as mil e uma referências à cultura pop, que nada importavam para trama, aqui fica insuportável algumas câmeras subjetivas que não tem função nenhuma: a da madeira, do galão de água, chega a um ponto de ter uma subjetiva do vaso sanitário (!?) (muito, muito nojento). Além disso, o mesmo ainda cai no clichê de dirigir o diálogo “Eu quero você no topo” no topo de um prédio, e na luta do terceiro ato insiste em fazer vários Bullet time seguidos onde cansa os olhos e faz com que o espectador queira que a luta acabe logo (algo bem ruim para o clímax do filme).

Por fim, Mais Forte que o Mundo é uma cinebiografia fora dos padrões convencionais e mostra mais uma vez que o diretor Afonso Poyart tem um grande futuro pela frente e se peca pelo excesso merece aplausos pela coragem e ousadia.

 

Texto escrito por:

Willian Bongiolo

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