Crítica: Tigre de Papel
Tigre de Papel
Direção: James Gray
Roteiro: James Gray
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2026
Elenco: Adam Driver, Scarlett Johansson, Miles Teller, Gavin Goudey, Roman Engel, Cindy Katz.
Sinopse: Dois irmãos perseguem o sonho americano, mas são envolvidos em uma perigosa conspiração da máfia russa que aterroriza sua família, testando seu vínculo à medida que a traição se torna possível.
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Talvez não exista melhor (e mais batida) tentativa de definir o trabalho de James Gray do que aquela que diz que ele faz dirigir um filme parecer fácil. Muito tem a ver com a maneira clássica e elegante com que ele filma suas tragédias gregas modernas, obras que aprofundam a moralidade e a complexidade dos indivíduos diante de situações ou ambientes que irão colocá-las à prova.
No seu mais novo longa, Tigre de Papel, o sonho americano é o grande objeto da tragédia familiar que testemunhamos. Diante de um tema tantas vezes abordado no cinema estadunidense, Gray adota uma perspectiva agridoce sobre os erros e as tentativas no caminho para alcançar a riqueza na terra do Tio Sam.
No filme, acompanhamos a dupla de irmãos Irwin (Miles Teller) e Gary (Adam Driver), que decidem entrar de cabeça em um negócio perigoso: uma consultoria que, em uma região dominada pela máfia russa, irá “despoluir um rio”. Conforme o plano avança, ambos se veem cada vez mais afundados em uma rede complexa de violência, ameaças e corrupção.
A violência está no cerne da desestabilização da estrutura familiar. O crime não é apenas uma parte da narrativa; é o fio condutor da desconstrução do sonho americano e o que corrompe a base da vida doméstica, estreitando os caminhos entre a vida e a morte. A morte, por sinal, faz parte da história como se personagem fosse: inevitável, tem encontro marcado com mais de um deles.
A fotografia, por sua vez, é uma aliada dessa desconstrução ao retratar a escuridão que aos poucos invade a vida da família. Conforme a tensão escala, Gray trabalha um jogo de contrastes: entre luz e sombra, entre afeto e violência. O ponto alto disso está na cena em que os russos invadem a casa enquanto todos dormem e Irwin se posiciona na escada com uma arma cuja sombra, projetada nas paredes de madeira, revela algo: a violência entrou, definitivamente, naquele lar.
Nesse sentido, é impossível não lembrar um dos filmes mais interessantes da filmografia de David Cronenberg: Marcas da Violência (2005). A desestabilização do núcleo familiar nos dois filmes acontece por razões distintas, mas tem como consequência a mesma triste conclusão: nada mais será como antes. Ainda que o antes não seja, necessariamente, o mais belo e moral.

James Gray faz questão de criar personagens cuja hipocrisia de vez em quando se revela. Linda (Scarlett Johansson), por exemplo, aconselha o marido a entrar nos negócios com o irmão sob uma única condição: receber o dinheiro em espécie para, assim, sonegar impostos. Gary, por outro lado, é um ex-policial corrupto que só aparenta ser bem-sucedido, mas está, na verdade, do outro lado da moeda do mesmo crime.
O único personagem que parece ser vítima de tudo isso é Irwin. Ele é, em última instância, o Tigre de Papel a que se refere o título. Um sujeito relativamente ingênuo, que acredita no irmão e quer dar uma vida melhor para a família, mas que, diante dos acontecimentos, se mostra frágil o suficiente para que até a própria esposa não queira desestabilizá-lo com seu (grave) diagnóstico.
Há, ainda, uma cena que vai ficar comigo por um bom tempo, e que seria um enorme spoiler se esmiuçada aqui. Basta dizer que é a mais impactante do filme, tanto pela maneira como Gray a filma quanto por funcionar, ao mesmo tempo, como clímax e anticlímax: tudo parece convergir para aquele momento, e, quando ele chega, é brutal e quase banal, à beira de uma estrada qualquer.
O desfecho guarda alguma esperança, ainda que hesitante. A última cena parece querer que imaginemos uma nova geração de irmãos alcançando a promessa do sonho americano, indo para a escola, rumo a um futuro que nem o pai nem o tio tiveram. Mas, depois do que vimos, será que ainda é possível acreditar?
Nota: 3,5 /5