Crítica: Almas Perversas (1945)
Almas Perversas (Scarlet Street)
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang, Dudley Nichols
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 1945.
Elenco: Edward G. Robinson, Joan Bennett e Dan Duryea.
Sinopse: Um casal de golpistas tenta manipular um homem idoso, que também se revela um mentiroso.
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Almas Perversas (Scarlet Street) é uma obra–prima sobre teias de mentiras crescentes que explodem numa violência extrema. Os rastros dessa violência ficam para a eternidade. Deve ser um dos filmes mais sombrios já feitos.
Fritz Lang – um dos cineastas que mais compreendeu a maldade humana – e Dudley Nichols investem numa trama aonde os dois protagonistas feitos por Edward G. Robinson (genial) e Joan Bennett além de todos os personagens que habitam a centralidade são grandes mentirosos, onde todos habitam um mundo falso, cínico, de diálogos cínicos, uma trama cínica aonde essas situações de mentira se cruzam, se misturam, vão até o limite e onde esse personagem ingênuo do Edward G. Robinson (genial) começa com um tonto e fragilizado, vai se revelando um anti herói também sem escrúpulos e se transforma num assassino feminicída perseguido pela culpa interna, mesmo tendo escapado.
A própria história assustadora da vida pessoal de Lang dá outros contornos a esse filme. Seria o longa uma confissão de culpa?
O feminicídio é construído no filme muito antes dele ocorrer, não só pelo desenvolvimento das coisas, mas por coisas como a notícia que Robinson lê no jornal para a esposa ou a cena dele apontando a faca para ela enquanto cozinha e usa avental numa situação de “inferioridade” dentro da lógica de uma sociedade patriarcal e machista.
Os tapas que Joan Bennett recebe de Dan Duryea e a sua relação tóxica com ele recebem um tratamento grave, que expõe um filme industrial com uma densidade já muito a frente pra sua época.
Tudo é falso e os personagens amam imagens falsas. As artes plásticas e beleza física podem conter a maldade escondida. Podem ser meramente falsos. As transições reforçam isso como quando um plano de rua se transforma no quadro de uma rua pelo corte seguinte ou em outros usos dos quadros de pinturas nas mudanças de cena.
O choro de Joan Bennett na verdade é riso no seu último momento e vemos a ojeriza/deboche dela nas suas interações com Robinson, enquanto ela esconde isso dele. A noção da mentira, de personagens completamente contaminados e dominados por ela permeia o filme inteiro.
Lang, que passou pelo Expressionismo Alemão, ao trabalhar na indústria estadunidense adota uma gramática cinematográfica muito mais formalmente sóbria, discreta e tradicional na superfície, mas sem abandonar um domínio e uma criatividade cinematográfica que são supremas.

A mise en scène do filme é um espetáculo próprio. A profundidade de campo gigante dos cenários internos, com fundos em foco, com a câmera observando os cômodos a distância em espaços amplos, a utilização de diversas portas enfileiradas juntas, os personagens emoldurados entre elas, os diferentes vidros nas cenas e divisão dos diferentes cômodos no mesmo local num plano geral olhada de fora, em especial claro a casa de Robinson e o apartamento de Bennett, o que transforma esses territórios tão mundanos e banais em labirintos. Mas tudo isso é feito sem nenhuma grandiloquência estética ou sem uma geometrização mais marcada, Lang faz isso discretamente e ativamente.
A movimentação de câmera constante mas suave nas aproximações e distanciando dos personagens, o retrato do primeiro marido da esposa de Robinson se colocando entre os dois enquanto eles estão na sala, atrás deles os separando, ele encolhido ele no jornal num plano geral, o comprador andando pelo apartamento com Bennett e Duryea enquanto eles são vistos pelo reflexo no espelho, a colocação simétrica dentro da composição dos homens que vão até o apartamento da Joan Bennett à procura dos quadros em planos gerais, os planos abertos finais de cenas externas contemplando a culpa de Robinson diante da multidão, a colocação simétrica de objetos caseiros e vários quadros de pintura dentro dos planos e o momento que Joan Bennett vai posar para a pintura Edward G. Robinson.
Ela lá no fundo séria no lado horizontal da sala em segundo e ela a pintando em segundo plano. Forma e conteúdo trabalham com exatidão o filme inteiro seja nos planos detalhes de coisas importantes como Robinson cruzando os dedos ou uma faca.
Essa elegância formal e discrição vão se transformando após o crime ser cometido. Nesse momento a montagem dos depoimentos no julgamento de Dan Duryea vão se tornando cada vez mais estilizadas, em cortes dinâmicos e os depoimentos vão ficando cada vez mais em primeiro plano com aquele círculo branco ao redor da escuridão.
Passamos a ver coisas como elas estão na mente aterrorizada e perturbada de Robinson, enlouquecido e sendo perseguido pelas vozes sussurradas em off das pessoas que ele destruiu e o reflexo da luz do anúncio do hotel tomando conta do quadro. O auge disso é na cena da execução com aquelas seis portas de prisão metálicas uma atrás da outra sendo filmadas de longe e os personagens minúsculos centralizados lá no fundo na última porta. Um dos melhores planos do cinema.
Nota: 5 /5