Crítica: Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra
Direção: Gore Verbinski
Roteiro: Matthew Robinson
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2025
Elenco: Sam Rockwell, Juno Temple, Haley Lu Richardson, Michael Peña, Zazie Beetz.
Sinopse: Um “Homem do Futuro” chega a uma lanchonete em Los Angeles, onde precisa recrutar a combinação perfeita de clientes para se juntarem a ele em uma missão para salvar o mundo da ameaça terminal de uma inteligência artificial rebelde.
.

O destino tecnológico da humanidade parece cada vez mais obscuro e catastrófico. E provavelmente será se continuarmos nessa toada infeliz de autodestruição. A inteligência artificial sempre permeou o imaginário cinematográfico, especialmente a catástrofe. Blade Runner (1982), Exterminador do Futuro (1984), entre outros, surfaram sobre o avanço e domínio da tecnologia sobre a humanidade. Seres oniscientes e quase onipotentes.
Uma superinteligência artificial está para ser criada, e com isso, um viajante do futuro invade uma lanchonete e tenta recrutar um grupo aleatório de pessoas para impedir que essa tecnologia seja inventada e concretizada. Uma parte do humor está no fato do criador da tal IA ser uma criança de 9 anos de idade. Nada de humanoides ou androides (mas clones, que falaremos adiante) no novo filme do diretor Gore Verbinski. Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra estreou na última semana nos cinemas brasileiros.
Bagunça generalizada faz parte dessa aventura, ficção científica e terror, uma mistura de gêneros para contar uma história de salvação da humanidade — só que dela mesma. Os excessos são parte essencial da narrativa de Verbinski, ainda que na escala se trate de um pequeno grupo tentando fazer algo para mudar o futuro. Entretanto, o recorte de histórias de cada personagem dividido em capítulos, essencialmente para facilitar o entendimento, representa um tipo de absurdo tipicamente norte-americano.

Existe estranheza nos adolescentes. Nas primeiras cenas, assistimos um bando de pessoas no restaurante hipnotizadas em seus celulares, cada um na própria tela. Ao introduzir os integrantes do grupo, os professores Mark (Michael Peña) e Janet (Zazie Beetz) tratam com alguma normalidade os adolescentes desatentos da aula e curvados em seus celulares. O único que nota a estranheza, o novato Mark, aperta na tela do celular de uma garota qualquer, sem ser convidado, e o pandemônio está feito. Do absoluto nada, todos os adolescentes começam a perseguir os professores como se fossem zumbis.
No capítulo seguinte, a nova personagem, Susan (Juno Temple), uma mãe enlutada por ter perdido seu filho num tiroteio em massa na escola, começa com o choque. Ainda na delegacia, um grupo de mães apresenta a Susan uma solução um tanto conveniente. Naquela distopia, tantos adolescentes foram mortos em ataques nas escolas, que existe uma empresa criadora de clones. Natural como o nascer do sol, diversas famílias perderam o filho original e perderam mais quatro clones, por exemplo. Todos baleados na escola em que estudavam. Existe um cinismo estranhamente fascinante.
O nível de caos, absurdo e cinismo com que os personagens lidam com aquele cotidiano alienado, e a crítica nada sutil do roteiro de Matthew Robinson, fazem de Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra uma das melhores experiências cinematográficas do ano — a tentativa hollywoodiana do ‘filme evento’ em que todas as emoções devem ser experienciadas na sala de cinema. Existe um tipo de engenhosidade bem-vinda que não muda o sci-fi, mas têm criatividade suficiente para lidar com o caos e a ânsia destrutiva da humanidade que se rendeu às maravilhas da tecnologia.
Os humanos, fascinados com a suposta alegria que IA promete gerar — sobra espaço de crítica até para a desgraça estética da IA generativa — não perceberam serem consumidos pelas grandes corporações com a ajuda dos governos. O clone do filho morto no tiroteio, por exemplo, além de ser subsidiado pelo governo, ganha desconto se tiver estudado em escola pública. Este exemplo, um entre vários, reforça a ideia de uma vida tão insuportável que o único espaço possível de sobrevivência foi a virtualidade.
O homem do futuro, interpretado pelo sempre ótimo Sam Rockwell, se torna mero condutor de uma jornada que, no fim, leva a lugar nenhum, embora cumpra a função de apresentar os horrores do apocalipse que está por vir. Não haver um herói salvador deixa a situação menos desgastante das fórmulas de viagem no tempo — embora se renda a clichês —, ao mesmo tempo que atira para todo lado, criando um final bagunçado de salvação, confronto e ilusão. São armadilhas com previsibilidades genéricas irresistíveis de não cair.

Gore Verbinski trabalha a megalomania caótica com energia e imaginação, graças a sua experiência na franquia Piratas do Caribe (2003) — responsável pelos três primeiros filmes — sem perder de vista o espetáculo cinematográfico. De todo modo, há cortes confusos, planos detalhes aleatórios, talvez no intuito de criar caos onde não havia e, obviamente, empreender o ritmo frenético do Tiktok para não perder a atenção da plateia. Não atrapalha a experiência geral, mas do meio para o fim produz cansaço.
A salada de gêneros, estilos e estética, ora tosca, ora competente, alcança êxito em partes, especialmente na aposta de dessensibilização de uma sociedade que não liga para crianças e adolescentes. A morte rotineira desses sujeitos, evidencia a falência moral de uma sociedade que sem saber o que fazer, se alienou aos avanços da tecnologia num mundo paralelo e supostamente melhor. Utilizar a crise ética e estética da realidade para intensificar a reflexão sobre o futuro parece óbvio, mas nesta altura do campeonato, se não for assim — com a prevalência do espetáculo —, dificilmente algo acontecerá (e provavelmente nada vai acontecer).
Nota: 4 /5