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O que o cinema deseja recuperar em 2026

A necessidade humana do silêncio nos fez voltar às salas de cinema

Eu tinha perdido o tesão de ir ao cinema. E não uso aqui essa palavra com duplo sentido à toa: eu realmente não via o porquê de ir a um ambiente onde encontraria mais de cinquenta pessoas sentadas em frente a uma tela e com outra na mão, enquanto uma obra era exibida.

Lembro-me até hoje de quando deixei de ir ao cinema por alguns meses. Fui ao live-action de O Rei Leão e, ao meu lado, havia uma criança que, por volta de seus dez ou onze anos, pedia desesperadamente para a mãe desligar o celular e ver o filme. Aquilo era apenas um reflexo do que estava por vir — depois dessa sessão, em todas as outras a que fui, as pessoas não desligavam os celulares. Eu não conseguia olhar para o lado sem ver uma tela acesa.

O incômodo foi enorme para a minha pessoa, e acredito que para muitas outras como eu, que foram ensinadas que desligar o celular para ver um filme é quase tão obrigatório quanto desligá-lo no momento em que um avião decola.

Depois de muito tempo, no final de 2025, fiz uma promessa a mim mesma: eu iria pelo menos três vezes ao mês a um cinema de rua em São Paulo. E assim sigo até o início de 2026, quando tive uma enorme surpresa, ou até uma resposta, aos anos de telas de celulares nas várias sessões.

Na caminhada pelos filmes indicados aos grandes prêmios de cinema, assisti a vários deles na sala escura: Valor Sentimental, Hamnet, O Agente Secreto, Marty Supreme. O único que não está em exibição é Frankenstein, do grande Del Toro, mas também o assisti no streaming, embora com um esforço enorme. E quando digo esforço, é porque, como disse anteriormente, eu me surpreendi como a presença humana transformou as salas de cinema, e até os filmes, em 2026.

Crítica: Valor Sentimental

Vi pessoas assistindo a uma obra, ficando por mais de dois minutos após as luzes se acenderem, e até aplaudirem quando os primeiros créditos apareciam. Algumas, chorando e tentando maturar o que foi visto nas últimas duas horas de suas vidas.

Duas horas em uma sala de cinema não é a mesma duas horas em redes sociais. Histórias crescem, emocionam, ensinam, ou fazem o coração palpitar um pouco mais forte quando uma trilha sonora cresce junto a uma ação de um personagem. Muitas vezes, até nos identificamos com os protagonistas e voltamos mais uma vez para a mesma sessão. Eu, por exemplo, voltei três vezes para Hamnet.

A primeira vez que assisti a Hamnet, fui mais crítica sobre como a narrativa poderia ser ajustada para termos a personagem principal, Agnes, em um luto mais constante pela perda. Na segunda vez, minha opinião mudou: achei que fazia sentido, já que nos comovemos ainda mais com a perda da criança ao vê-la com tantos detalhes em sua fase de crescimento. E na terceira, não tive mais críticas. E não foi sobre o enredo desta vez; foi porque vi mais de vinte pessoas permanecerem por mais de três minutos sentadas nas cadeiras do cinema, absorvendo o filme em total silêncio. Não havia conversa, não havia risada, não havia nada além do absoluto silêncio.

Em O Agente Secreto, vi o público rir em conjunto de Dona Sebastiana e vibrar com Wagner Moura em uma atuação brilhante como um refugiado na ditadura. Em Valor Sentimental, tentarem, em conjunto, compreender a obra que lhes foi exposta; e em Marty Supreme, adentrar na mente do protagonista.

O que me faz escrever este texto é que eu realmente acredito que os filmes indicados este ano aos grandes prêmios nos levam ao lugar mais primitivo do ser humano: o lugar em que pensamos não na morte propriamente dita, mas como uma passagem natural da vida; a uma felicidade que vem de pequenos quadros; em cenários de casas que nos remetem a lugares que já vimos na infância; na dor da perda e ao alívio de poder libertá-la com a ajuda do tempo.

O ser humano me parece cada vez mais cansado de conversas casuais com o ChatGPT ou IAs disfarçadas de sentimentos que só a consciência humana pode transmitir. E o cinema é uma das artes que têm esse poder: o de nos transportar a lugares nunca vistos e nos fazer sentir algo que nenhuma tela de celular é capaz de transmitir, embora tente a todo momento com uma timeline infinita de possibilidades. Às vezes, o que buscamos é apenas o silêncio com o toque humano. E eu, depois de muito tempo, vi salas cheias de pessoas buscando esse acalento — mas em completo silêncio.

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