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Crítica: A Única Saída

A Única Saída
Direção: Park Chan-wook
Roteiro: Park Chan-wook, Lee Kyoung-mi, Don McKellar, Jahye Lee
Nacionalidade e Lançamento: Coreia do Sul, 2025
Elenco: Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park Hee-soon, Lee Sung-min, Cha Seung-won, Yeom Hye-ran, Woo Seung Kim, So Yul Choi.
Sinopse: Depois de ser demitido e ficar desempregado por vários meses, um homem desenha um plano único para conseguir um novo trabalho: eliminar a concorrência.

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Existe escolha sob o capitalismo?

Uma das graças de assistir a filmes de países diferentes é adentrar a cultura desses lugares, aprender mais sobre suas peculiaridades e entender como certas diferenças também nos unem como seres humanos. Mas, quando falamos na vida sob o capitalismo, as coisas não costumam mudar muito entre um país e outro, e o cinema sul-coreano consegue elaborar críticas certeiras a esse sistema, vide Parasita, de Bong Joon-ho, ou A Única Saída, filme mais recente de Park Chan-wook, que chega hoje aos cinemas brasileiros.

A Única Saída é baseado no livro “O Corte”, de Donald E. Westlake, publicado em 1997. A inspiração veio de amigos do autor, que estavam passando por demissões em massa em seus empregos. O livro foi adaptado para os cinemas pela primeira vez em 2005 em Le Couperet, de Costa-Gavras, mas desde 2009 Park tenta tirar sua versão do papel. Finalmente conseguiu, e com a ajuda de Gavras, que ainda mantém os direitos sobre o livro.

No longa acompanhamos Man-su (Lee Byung-hun), um homem que tem tudo. Ele trabalha há 25 anos na empresa de papel Solar Paper, em uma posição elevada, e, com seu alto salário, conseguiu comprar a bela casa em que morou na infância, onde vive com sua esposa, Mi-ri (Son Ye-jin), dois filhos e dois cachorros. O problema é que a Solar Paper foi comprada por uma empresa estadunidense e, segundo seus diretores, “a única saída” é demitir boa parte dos funcionários, incluindo Man-su.

Determinado a encontrar um novo emprego em até três meses, Man-su acaba não conseguindo (e desistindo de) nada além de um cargo de chão de fábrica em outra empresa de papel, treze meses após sua demissão. A família começa, então, a cortar alguns itens supérfluos. Mi-ri passa a trabalhar como assistente de um dentista. Os cachorros vão para a casa dos pais de Mi-ri, para desespero das crianças. E os streamings! O ponto em questão é que, pelo menos por algum tempo, a família não passaria fome e nem teria que morar na rua, mas eles estavam adaptados a um padrão de vida, e perdê-lo é um baque forte. Além disso, Man-su não consegue mais servir ao papel que a sociedade espera dele, o de provedor do lar.

Nosso protagonista acaba encontrando a vaga perfeita em outra empresa de papel, a Moon Paper, mas é humilhado pelo gerente Seon-chul (Park Hee-soon). Man-su pensa em matá-lo, mas percebe que o melhor a fazer é ser a melhor opção para ocupar a posição anunciada pela empresa. E para isso, o caminho mais fácil é, literalmente, eliminar seus concorrentes. É a única saída. Mas claro que Man-su não é um assassino, então a execução dos planos de matar cada um dos homens sempre acontece das formas mais atrapalhadas possíveis. Por mais trágico que seja, A Única Saída tem, em muitos momentos, uma dose de humor e ironia que foram abraçados pela interpretação impecável de Lee Byung-hun.

Park Chan-wook é bastante conhecido por sua trilogia da vingança, que inclui Oldboy, um de seus trabalhos mais conhecidos. Mas é interessante notar a mudança de tom que ele adota em A Única Saída. Man-su consegue, sim, matar seus concorrentes, mas não sem sentir empatia por essas pessoas que estão na mesma situação que ele. São todos homens que não veem outra possibilidade além de continuar trabalhando no mesmo ramo em que sempre atuaram, um deles com uma filha pequena, outro sendo traído pela esposa. Não é só assassinato a sangue frio e pronto, existe uma compaixão que nem sempre vemos nos filmes mais violentos de Park.

Com quase duas horas de duração, A Única Saída só se enrola um pouco quando tenta incluir outras subtramas que acabam deixando o segundo ato mais carregado do que precisaria ser. Ainda assim, são plots que servem para vermos mais de como Man-su reage às adversidades que surgem para somar a uma situação que já é bem difícil, bem como para aprofundar sua relação com a família.

No fim das contas, para responder à minha pergunta inicial, Park mostra que há duas possibilidades no capitalismo. Para as grandes empresas, há escolha, mas esta é sempre pelo lucro. Já para o trabalhador, mesmo aquele que acha que está com a vida ganha, a escolha é sempre falsa. Você pode escolher não se encaixar no sistema, mas isso sempre terá um custo. E nenhuma resolução de problemas individuais será capaz de resgatar uma sociedade desigual e solitária.

Nota: 4 /5

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