Globo de Ouro na Globo é reflexo do sucesso brasileiro
Pela primeira vez, a TV Globo vai transmitir a premiação do Globo de Ouro.
Eu confesso que fiquei surpreso quando vi essa informação. Até não muito tempo atrás, nem mesmo o Oscar era muito interessante para a emissora. Mas os tempos mudaram, e a TV aberta não tem mais o alcance enorme de antes, o que faz com que eventos mais nichados sejam interessantes. E mais do que isso: com o cinema brasileiro em evidência desde o sucesso de Ainda Estou Aqui no ano passado, a emissora certamente mira na empolgação do público tupiniquim.

Neste ano, o filme brasileiro da vez (merecidamente) é O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. O longa brasileiro foi indicado nas categorias de Melhor Filme de Drama, Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Drama.
Nas categorias de Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Drama, o filme tem chances. Vale ressaltar que as chances de Wagner Moura se dão aqui porque os principais nomes desta temporada de premiação, Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra) e Timothée Chalamet (Marty Supreme), estão na categoria Comédia. Na categoria de Filme em Língua Não Inglesa / Filme Internacional, o norueguês Valor Sentimental e o espanhol Sirât são fortíssimos concorrentes.

Por que a Globo se interessou
Além da HBO, no streaming, e do canal pago TNT, que vão exibir a premiação na íntegra, a Globo exibirá o evento após o Fantástico, por volta das 22h, e ainda contará com o crítico Waldemar Dalenogare, já muito querido nas redes sociais.
Para entender o apelo que a Globo encontrou na premiação, precisamos pensar nos acontecimentos de 2025. Vamos lá:
Ainda que o Globo de Ouro seja uma premiação realizada desde 1944, ele nunca foi levado muito a sério pela crítica principal, e passou por uma crise recente que mudou seus rumos: após acusações de racismo e assédio, a premiação deixou de pertencer à Hollywood Foreign Press Association, ainda que mantenha em seu corpo muitos da antiga associação. Hoje, o prêmio pertence ao bilionário Todd Boehly, dono do Chelsea, do LA Lakers, e das publicações Variety, The Hollywood Reporter, IndieWire e Deadline (apenas!).
Recomendo fortemente o texto “Os Segredos Escondidos do Globo de Ouro“, do jornalista Rodrigo Sallem, que explica tudo isso.
Dando continuidade aos acontecimentos: em 2025, como você deve se lembrar, Ainda Estou Aqui foi indicado na categoria de Filme Internacional, perdendo para Emília Pérez (antes que o filme caísse em desgraça), e na de Melhor Atriz em Drama, em que Fernanda Torres foi vitoriosa. Há muitos jornalistas brasileiros que votam nesta premiação, e eles certamente deram uma mãozinha.
Mas os votantes do Globo de Ouro não são os mesmos do Oscar! O papel do Globo de Ouro, se for para servir como um “termômetro” para a premiação considerada a mais importante em Hollywood, é impulsionar filmes para que mais pessoas o vejam.
Foi isso que aconteceu com Ainda Estou Aqui. O filme de Walter Salles não estava no radar de muita gente e passou a ficar quando viram uma atriz brasileira subir ao palco e ainda trazer uma história que chama a atenção: sua mãe estivera naquele lugar 25 anos antes. E vale ressaltar que o Oscar de Filme Estrangeiro poderia não ter sido dado se não fossem as inúmeras confusões de Karla Sofía Gascón.
É isso o que pode se repetir neste ano: se Wagner Moura ganhar o Globo de Ouro, as anteninhas de Hollywood vão se voltar ao filme brasileiro com mais intensidade, especialmente com o filme ainda na shortlist do Oscar (saberemos dos indicados em 22 de janeiro).
Considerando ainda o barulho que só os brasileiros sabem fazer nas redes sociais, inundando os perfis das premiações com comentários, ou seja, engajamento que em última instância traz mais dinheiro, certamente o cinema brasileiro tem ajudado a impulsionar o sucesso destas premiações.
Portanto, é bastante significativo que a TV Globo tenha interesse na premiação do Globo de Ouro, na qual nunca tivera antes. Talvez esse interesse se esmoreça com o tempo, ou até mesmo ocorra apenas quando tiver um filme brasileiro envolvido. Enquanto isso, o soft power brasileiro vai colhendo frutos em meio a esse ambiente caótico em que as pessoas vão menos aos cinemas, Hollywood caminha na corda bamba, e o império americano colapsa enquanto causa problemas no mundo todo com os chiliques do presidente.