Crítica: A Cronologia da Água
A Cronologia da Água
Direção: Kristen Stewart
Roteiro: Kristen Stewart, Lidia Yuknavitch
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, França, Letônia, 2026
Elenco: Imogen Poots, Thora Birch, Jim Belushi, Charlie Carrick, Tom Sturridge, Susannah Flood, Esmé Creed-Miles.
Sinopse: Uma nadadora olímpica decide fugir do lar abusivo onde vive após conseguir uma bolsa de estudos no Texas. No entanto, o vício a faz perder essa bolsa, e ela acaba indo estudar no Oregon. Sua busca por superar seu passado será por meio da escrita, da família e da autodescoberta.
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A trajetória de Kristen Stewart — que faz sua estreia na direção — sofreu reviravoltas interessantes nos últimos anos. Saída da franquia de tremendo sucesso de filmes adolescentes, a tal saga Crepúsculo (2008 -12), a atriz, anos depois, escolheria o cinema independente para pavimentar sua carreira. Nesse intervalo, chegou a protagonizar o início de uma nova franquia de ação, Branca de Neve o Caçador (2012) — desastre completo. Mais tarde ela conseguiria se descolar da ícone teen e passaria a ser figura importante para a comunidade LBGTQIA+.
Falar de A Cronologia da Água, goste-se ou não, é falar sobre a principal fiadora do projeto. A beleza e coragem dispostas no filme protagonizado pela britânica Imogen Poots só foi possível pelas experiências adquiridas por Stewart com outros bons cineastas com quem trabalhou. O início da carreira se deu na franquia insossa dos vampiros brilhantes, e o sucesso só veio quando escolheu projetos que tinham a sua cara. Ela claramente está à vontade e segura em seu novo filme que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta, dia 2 de abril.

Baseado no livro homônimo da escritora Lídia Yuknavich, o romance de autoficção sem tradução no Brasil, acompanha a vida da escritora por caminhos nada cronológicos. Uma narrativa fragmentada. Vivendo num ambiente familiar com mãe alcoolista e pai abusador, Lídia (Imogen Poots), encontra na natação refúgio para a realidade insuportável que vivia. Tão cedo quanto, as palavras no diário e posteriormente a literatura na faculdade, são caminhos para a salvação da própria vida.
Dois passos para frente, quatro passos para trás, fazem de Lídia mulher que se descobre através das palavras. Os acontecimentos são narrados literariamente com a forte grafia do lápis que rabisca o papel, estridentes pelo desenho de som, e com closes e super-closes que podem ser lidos como maneirismos ou estilística vazia. Porém, a escolha da direção por essas imagens contribuem na construção de partes, como fotografias que formam um filme. Reforça essa percepção o analógico em 16mm, feita com poesia pelo diretor de fotografia Corey C. Waters.
Tudo poderia ser estética vazia de uma diretora iniciante para chamar atenção, contudo, são reforços do íntimo cinematográfico da memória traduzida para as telas do cinema. São traumas vivenciados desde a tenra infância, carentes de testemunhas que, com a escrita, encontram o eco necessário para a elaboração possível. A água fala mansa e traumática sobre um sujeito que precisa navegar em ambientes marcados pela repressão feminina. O sangue que se mistura com a água logo na primeira cena, informa antecipadamente o terror vivido por Lídia, como outra tentativa de, a partir disso, narrar a própria vida.

A violência, contorno constante na esfera do feminino, dos tapas sequenciais pelo professor de natação aos abusos do pai, somados à paralisia complacente da mãe, estruturam o sujeito a partir do gênero. O abuso que se repete no relacionamento com o aparente amor da faculdade, rebate a passivo-agressividade da protagonista de gênio forte, como projeção daquilo que viveu. Existe assim, a constante reconstrução furada pelo passado que, com as testemunhas que acolhem a instabilidade, fazem nascer frutos materiais repletos de símbolos.
A descoberta ou experimentação da sexualidade, encontra em cenas de masturbação e sexo lésbico os fluídos para além do sofrimento. A ambivalência da agressividade como vingança ou prazer, despertam sensações mistas por fugirem da imagem sacrossanta da representação do sexo no cinema, acrescentando certo realismo dentro da dúvida fugaz sobre verdade ou ficção. A experimentação da dor como gozo, ilustram a busca por significação daquele prazer polimórfico vivido na infância.
Graças ao apoio da irmã (Thora Birch), que fugiu de casa para evitar a violência do pai e submissão da mãe, reencontram a ligação que resta mágoa, nada que não caiba reparação. A amiga que incentiva o encontro literário em uma oficina com o grande escritor Ken Kesey — autor do aclamado Um Estranho no Ninho —, em grande participação de Jim Belushi, acende a linearidade como representação da ordem. Ordem como sinônimo de organização psíquica, que faltava. Nasce o respiro da vida cotidiana, com resquícios de escolhas passadas que drenam a suposta estabilidade criativa.
O encontro literário formal representa uma mudança fundamental em Lídia. Com Kesey, nasce a parceria de solidificação das angústias em forma artística. O reconhecimento que nunca veio, finalmente se apresenta. O reencontro do pai, sujeito motivador da escrita e do espanto grotesco da figura agora exposta, causa o constrangimento educativo sobre a maioridade e a posse da história por aquela que foi excluída. Nasce o vislumbre de algum tipo de liberdade de si mesma, do próprio do passado que tanto aterrorizou, que também foi matéria prima da produção sublimada materializada em livro.
A narrativa de Kristen Stewart em seu primeiro longa tem referências de diretores com quem já trabalhou. O olhar opaco do sujeito melancólico e aprisionado pela opressão de sua Lady Di em Spencer (2021), de Pablo Larraín (o melhor da trilogia); O corpo como depositário da angústia e prazer, recorda Crimes do Futuro (2022) do mestre David Cronenberg; E sua passagem pelo visceral e excelente Love Lies Bleeding: O Amor Sangra (2024) da diretora Rose Glass, da agressividade como sobrevivência. Estes e outros elementos estão identificados nesta estreia vigorosa.
Nada disso, porém, é veredito sobre a carreira da atriz e agora diretora. Na verdade, reforça o excelente começo por caminhos difíceis numa história que poderia soar confusa. A sincronia da montagem, condução, roteiro — também de Stewart — e atuação magnética de Imogen Poots, são méritos de uma direção firme e assertiva. Presente algumas ousadias marcantes do desejo feminino traduzidas pela dinâmica ríspida e errática com que são narradas — provavelmente pelo material original —, nas mãos de Stewart ganham nova identidade e marca estética que informam e apresentam a coragem de um começo vitorioso.
Nota: 5 /5
