Heated Rivalry e Brokeback Mountain: o caminho percorrido em 20 anos
Lançado em 2005, O Segredo de Brokeback Mountain foi um dos filmes mais comentados em seu período de lançamento. Para além dos prêmios diversos, que vão do Leão de Ouro de Melhor Filme no Festival de Veneza a oito indicações ao Oscar com três vitórias, o filme de Ang Lee foi tema de conversas ao longo de muitos meses. Piadas sobre os “cowboys gays” (sim, teve muita piada) e referências na cultura pop transformaram o filme em um verdadeiro ícone do ano (sobre o qual gravamos um podcast).

Brokeback Mountain falava de um assunto ainda pouco explorado no chamado “cinema mainstream”. É claro que havia séries e filmes que tratavam sobre a temática queer ou LGBTQIA+, mas pouquíssimos chegavam à temporada de premiações ou a bilheterias marcantes — e se reservavam a festivais e esparsos lançamentos “de nicho”. Em meio a tantas piadas e referências nem sempre positivas, os atores principais e o diretor sempre o levaram a sério, e não demoraria muito para o filme ser considerado a obra marcante que de fato é.
A chegada de “Rivalidade Ardente”
Eu gostaria de começar este trecho dizendo que, se você não vive em uma bolha, já ouviu falar de Rivalidade Ardente, a série do momento. No entanto, o fato é que hoje em dia todos nós vivemos em uma bolha e é possível que você sequer tenha ouvido falar dela.
Então, se o filme de Ang Lee dispensa apresentações, preciso apresentar a série: baseada nos livros de Rachel Reid (a maioria ainda inédita no Brasil), “Rivalidade Ardente” conta a história de dois jogadores de hóquei que, por jogarem em times diferentes, rivalizam como os maiores jogadores nas competições, e acabam desenvolvendo um relacionamento que se aprofunda ao longo dos anos, mas que precisa ser mantido em segredo.
Quando Rivalidade Ardente chega à televisão por meio de uma plataforma de streaming canadense, ela logo “viraliza” em espaços de compartilhamento alternativo (a famosa pirataria), inicialmente por ter como gancho diversas cenas ardentes de sexo e por adaptar uma série de livros com muitos fãs. Se fosse apenas isso ela certamente seria esquecida, mas o fato é que ela traz personagens complexos, boa qualidade técnica e ótimas atuações.

O tempo que separa os cowboys e os jogadores de hóquei
É fato inegável: a série chega em um momento bem diferente de Brokeback Mountain. Após 20 anos, o mundo é outro. Creio ser necessário refletir sobre esse período e sobre o paralelo que pode ser feito entre as duas obras.
Entre 2005 e 2025, filmes e séries de temática LGBTQIA+ deixaram de ser poucas produções independentes e discretas para ocupar um espaço significativo (e lucrativo) nas plataformas de streaming. Além disso, personagens da comunidade estão presentes em inúmeras produções e cada vez menos atrelados a estereótipos danosos, ainda que nem sempre.

Assim, enquanto Brokeback Mountain foi visto em segredo por muitas pessoas, admirado pouco a pouco por sua ousadia, ganhando respeito gradativamente conforme a sociedade passava por (ainda insuficientes) transformações graduais; Rivalidade Ardente chega com fãs ardorosas (sim, no feminino), vídeos de análises sobre os mais diversos detalhes da trama e muita valorização da representatividade gay em ambientes extremamente masculinizados como o hóquei (a cena em que um personagem beija o namorado na pista de gelo chegou a viralizar em redes sociais e temperou ainda mais o falatório sobre a série).
Além disso, é importante destacar que os 20 anos que separam o filme e a série em questão levaram a mudanças importantes. Foram duas décadas de debates, evoluções na representatividade LBTQIA+ na cultura pop, retaliações de grupos reacionários e transformações nas demandas de como contar histórias sobe personagens gays.
Ao contrário de Brokeback Mountain, Rivalidade Ardente não se dá por meio da tragédia e da impossibilidade, mas por meio do autoconhecimento e de obstáculos difíceis, porém não intransponíveis.

Na história de amor entre os cowboys Ennis del Mar e Jack Twist, não há dúvidas de que os dois gostariam de estar juntos e se amam, mas também não há dúvidas de que isso seria impossível. Em contrapartida, o relacionamento de Shane Hollander e Ilya Rozanov começa apenas físico e requer muito tempo e muitos encontros até passar a um patamar que vai além da provocação sexual.
Por falar em tempo, vale ressaltar que ambas as histórias são ancoradas em um longo período de relacionamento entre personagens, o que é fundamental nas duas tramas para a compreensão do que ocorre entre eles. Além de serem histórias que perduram e permeiam uma vida com muitas outras nuances e acontecimentos diversos (cada um tem a própria família, trabalho e desafios pessoais), seus dramas e efeitos só fazem sentido quando inseridos nesse paradigma. Afinal, os encontros secretos e a prática de um relacionamento proibido só são possíveis quando diluídos em anos de encontros espaçados.
A força dessas relações de ambos os casais, a despeito de suas diferenças, se dá justamente porque elas ocupam esse longo período.
Além de terem sido escritas inicialmente por mulheres (Annie Proulx e Rachel Reid), ambas as histórias ocorrem em períodos anteriores aos de sua publicação. No filme de 2005 (baseado em um conto de 1997), vemos personagens vivendo entre os anos de 1963 e 1983, enquanto a primeira temporada de Rivalidade Ardente compreende um período de 2008 a 2018 (o livro foi publicado em 2019).
É nesse olhar para o passado que nós, espectadores, conseguimos compreender as obras fictícias tão representativas de seu tempo. É nessa mirada pelo retrovisor que vislumbramos as diferenças existentes entre as duas obras e compreendemos os efeitos nefastos que os amores e desejos proibidos têm na vida das pessoas.
É isso que nos permitirá olhar adiante e escolher o que queremos para o futuro.