Critics Choice abre premiações com obviedades, desprezo e desorganização
O Critics Choice Awards abre as premiações televisionadas de prêmios do cinema e televisão por tradição. Seu corpo de votantes majoritariamente composto por críticos dos Estados Unidos, com algumas exceções em outros países, costuma agraciar produções da própria casa. Por isso, foram poucas as surpresas na noite deste domingo, 4. Mais uma vez apresentado pela atriz, apresentadora e comediante Chelsea Handler, a cerimônia conseguiu ser um tanto parecida com anos anteriores: protocolar e meio aborrecida. O humor característico ficou no tom de sempre, mas o carisma de Handler segurou as pontas nas três intermináveis horas.

Para a surpresa de ninguém, Uma Batalha Após a Outra ganhou Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Direção para Paul Thomas Anderson, por um de seus trabalhos menos inspirados da carreira. Embora não seja um grande fã do filme, existem motivos claros para entender o porquê de tantos prêmios e tamanha glorificação por parte dos críticos: o fetiche pela acomodação centrista como saída da polarização ou do tratamento das diferenças ideológicas, especialmente com uma figura como Donald Trump no poder. Tudo que não é moderado, seja lá o significado desta palavra neste contexto, parece ruim. Recomendo o texto da crítica e amiga Fabiana Lima, “Uma Batalha Após a Outra” é uma sátira centrista de um país dividido’, disponível no Peliplat.
Cartas marcadas foi a premiação de Melhor Ator para Timothée Chalamet, para Marty Supreme (filme ainda não disponível em cinemas brasileiros), pelo buzz gerado já nas pré-estreias e festivais. Penso que em algum momento será preciso colocar a carreira de Timothée em análise, pois talvez ele ainda não seja o grande ator que a indústria vende, mas isso fica para depois. Jessie Buckley ganhou Melhor Atriz por Hamnet, da diretora Chloé Zhao, a única mulher concorrendo na categoria, e o fenômeno Guerreiras do K-Pop, levou Melhor Longa em Animação e Melhor Canção. Nada surpreendente.
Alegria para os brasileiros, mas sem visibilidade de comemoração, foi a vitória de O Agente Secreto em Filme em Língua Estrangeira. Dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura que concorria na categoria de Melhor Ator, o prêmio foi entregue da maneira mais desleixada possível. Durante a chegada no tapete vermelho, Kléber e sua companheira e também produtora, Emilie Lesclaux, foram pegos no susto com a entrevistadora entregando o prêmio aos dois, e para piorar, sem a chance de Kléber fazer um discurso de agradecimento.

Em partes isso foi corrigido quando Kleber e Wagner subiram ao palco para entregar o prêmio de Melhor Filme para Paul Thomas Anderson. Contudo, nesta cena, a semiótica não pode ser desprezada. Foi uma forma de dar visibilidade ou uma maneira de corrigir um erro facilmente evitável? Dificilmente saberemos. Por fim, Kleber fez um agradecimento bonito e Wagner alfinetou a indústria com uma piada elegante e divertida ao dizer que no Brasil, chamamos a categoria de melhor filme de melhor filme estrangeiro. Nem Round 6, ganhadora de Série em Língua Estrangeira da amigável Coreia do Sul, foi televisionada. Fazer pouco caso de produções estrangeiras neste momento político só aparenta covardia.
Com o decorrer da cerimônia, a falta de organização se provava mais explícita. Entregar uma categoria importante e com competidores fortes (melhores que os filmes estadunidenses, diga-se) fora das câmeras, não pode ser caracterizada de outro jeito senão como estúpida, ridícula. A mensagem, neste caso, importa. Sem limites para o desprezo, não televisionaram Roteiro Original, para Ryan Coogler ou Melhor Elenco para Pecadores. Além disso, a indiferença por categorias técnicas importantes, como Melhor Fotografia, quando o brasileiro Adolpho Veloso ganhou por Sonhos de Trem da Netflix, Maquiagem e Cabelo, e Figurino para Frankenstein.
Se for possível apontar alguma surpresa verdadeira, seria a premiação de Jacob Elordi como Ator Coadjuvante por Frankenstein e Atriz Coadjuvante para Amy Madigan pelo incompreensível sucesso A Hora do Mal. O discurso de Jimmy Kimmel ironizando Donald Trump, que ganhou por Melhor Talk Show, figura como um dos grandes momentos da noite. Não deixa de ser um tanto espantoso como os críticos estadunidenses gostaram de Frankenstein, sendo este um dos mais fracos trabalhos da carreira de Guillermo Del Toro. Nesta altura do campeonato, também parece ser surpreendente, mas nem tanto, a vitória de O Agente Secreto. Explico.

Os votantes da Critics Choice Association não são os mesmos votantes do Oscar, nem de nenhuma outra premiação que está para acontecer. Com sorte, são parecidos com o corpo do Globo de Ouro, cuja cerimônia acontece no próximo domingo, 11. A premiação dos críticos não antecipa nada e a provável visibilidade pode ser debatida. Neste ponto, o Globo de Ouro agrega mais valor. A diferença com ressalvas, está na internacionalização do Globo, coisa que o Critics não fez e nem parece interessado (faz tempo que críticos estadunidenses se transformam em meros assessores de imprensa de grandes estúdios, salvo as raríssimas exceções, ou se transformaram em grandes fazedores de frases feitas para emplacarem em algum cartaz ou spot televisivo).
Assim como aconteceu com Fernanda Torres ano passado, fortes são os indícios para Wagner ganhar Ator de Drama. Porém, essa chance não se confirma com Filme Internacional, nem no Globo nem no Oscar, que tem concorrentes fortes. Valor Sentimental, junto ao filme de Kléber, continua como um dos melhores do ano; Foi Apenas um Acidente corre pelas beiradas e o contexto extra-filme pode angariar apoios; A Única Saída, de Park Chan-wook não tem barulho suficiente, embora seja um bom filme; e Sirāt seria um azarão, pois consegue ser o pior filme dos prováveis.Outros podem aparecer e ganhar repercussão inédita. Resumindo, Critics Choice é uma premiação que acontece quase que solitária, mas que tem valor por ser a primeira televisionada.
Talvez por saberem disso, a premiação pouco se importou com grandes repercussões ou organização. O objetivo de tantos cortes seria alavancar os índices de audiência que estão em queda, mas isso vale para qualquer cerimônia do ramo. Com as redes sociais, o sujeito que tiver interesse buscará pelo vencedor, assistirá o discurso do artista preferido e não ficará três horas na frente da TV. Como desgraça pouca parece bobagem, o número de intervalos comerciais foram insuportáveis, e neste sentido não há muito o que fazer. Sinais dos tempos. Acontece que, involuntariamente, o desprezo por certas categorias só conseguiu produzir desprezo pela premiação em si. Nada mais