Crítica: Wonka - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
3 Claquetes

Crítica: Wonka

Wonka
Direção: Paul King
Roteiro: Simon Farnaby, Paul King, Roald Dahl (autor original)
Elenco: Timothée Chalamet, Olivia Colman, Hugh Grant, Sally Hawkins, Paterson Joseph, Keegan-Michael Key.
Sinopse: Um jovem Willy Wonka cheio de ideias está determinado a mudar o mundo a cada deliciosa mordida de seu chocolate, uma atrás da outra, provando que as melhores coisas da vida sempre começam com um sonho.

.

Seja no clássico musical de 1971, ou no filme explosão em cores e bilheteria de 2005, todos sabíamos que era apenas uma questão de tempo para que Wonka se tornasse um personagem digno de um filme solo. Embora ranzinza e às vezes um tanto mau na sua forma de fazer justiça, encarnado por Johnny Depp ou pelo saudoso Gene Wilder, Wonka sempre teve carisma. As pessoas saíram encantadas pela sua figura em 1971, reviveram sua imagem como meme anos depois na era das redes sociais e muitas, muitas crianças dos anos 90 que mal conheciam a existência de outro filme, viraram fãs de Depp por conta do personagem.

No entanto, admito que sofri de uma desconfiança quando no anúncio do filme pela Warner. O pôster, de imediato, não me vendeu a ideia de um filme sobre a história do personagem, minimalista demais para um filme cujas cores de 2005 pareciam ser a melhor escolha. Não criei expectativa, também, quando soube qual ator viveria Wonka em tela: Timothee Chalamet. Não me leve a mal, mas até então eu não conseguia enxergar metade do talento que Hollywood atribuía a sua figura há muito tempo, parecia ser, com o perdão do uso da palavra que passei a odiar recentemente, superestimado.

Contudo, penso, o que pode ser melhor do que assistir a um filme com pouca expectativa e ao final se surpreender tão positivamente com a experiência? Este é, precisamente, um dos motivos pelos quais a crítica e o cinema são tão fascinantes e intrigantes, podemos ter diferentes relações com uma obra, ainda que nossas ideias pré-concebidas sobre esta existam e sejam negativas, como foi o meu caso. Comecei sem saber se realmente gostaria de assisti-lo, mas como em um passe de mágica Wonka se transformou em um sopro de vida, enérgico e colorido, em um mundo que parece cada vez menos apreciar o valor da imaginação.

Um dos maiores méritos do filme de Paul King é, inclusive, este de abraçar o uso do CGI em prol da criação de um universo de “pura imaginação” (referência à qual acredito ser a melhor música do filme.) O diretor de “O Rei do Show” compreende a importância de se utilizar da tecnologia para desafiar as limitações impostas pelo realismo, brincando com cores e formas que irão ajudar a criar um mundo plástico e ultra colorido, onde tudo é possível: de “Hugh Grants” oompa loompas a nadar em um rio de chocolate.

O cinema que tem vivido cada vez mais a efervescência dos “efeitos práticos”, agradece quando os efeitos visuais não são valorados pela sua forma de execução, mas sim pela sua coerência dentro da unidade fílmica. O que não temos como negar que “Wonka” sabe fazer muito bem. Os números musicais, por exemplo, usufruem muito bem deste espetáculo que são os efeitos, pois mesmo com músicas fracas em sua maioria, conseguem cativar o público ao longo da utilização plena dos seus espaços, do seu cenário híbrido (entre o real e o computadorizado).

Por essa abordagem, o filme dá espaço para Timothee brilhar e, pela primeira vez, conseguir alcançar uma atuação que foi digna da minha atenção e apreciação ao longo de toda a duração do filme. Eis uma escolha acertada, pois acredito que seria impossível (ou quase isso) para todos criar uma ligação genuína com um personagem como o de Depp em 2005 por mais de uma hora. Aqui parece muito mais fácil, especialmente quando entramos nos pormenores da sua relação com a personagem Noodles (Calah Lane), digna de emocionar.

Ao contrário do que os primeiros pôsteres me passaram, Wonka é um filme cheio de vida. Ao contrário do que o meu errôneo prejuízo me apontava sobre Chalament, não poderia haver um ator mais carismático e interessante para protagonizar este filme. Acredito veementemente que tudo o que os filmes anteriores tinham de melhor, desde o ar de cinema musical clássico hollywoodiano do filme de 1971 até a explosão de cores que pressupunham uma escolha narrativa pela total entrega a um mundo imaginativo e artificializado do filme 2005, Wonka amadurece em 2023.

É um filme bem mais consciente do seu lugar, o que sem sombra de dúvidas não poderia ter acabado de forma mais interessante. Terminei o filme com um gosto agridoce de ser provada errada e, ainda, querer mais daquele universo. Em um ano em que “Barbie” e “Wonka” enchem os cinemas de cores, espero que tenhamos estes como exemplos do que pode ser seguido em 2024: por mais odes à imaginação e aos mundos que criamos com as possibilidades ímpares do cinema.

  • Nota
3.5

Deixe seu comentário