Crítica: Sobrenatural: A Porta Vermelha
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Crítica: Sobrenatural: A Porta Vermelha

Igualmente interessante e frustrante, “Sobrenatural: A porta Vermelha” é surpreendentemente sentimental

Sobrenatural: A Porta Vermelha
Direção: Patrick Wilson
Roteiro: Scott Teems
Elenco: Ty Simpkins, Patrick Wilson, Rose Byrn, Sinclair Daniel, Hiam Abbass, Andrew Astor, Juliana Davies, Steve Coulter
Sinopse: Sobrenatural: A Porta Vermelha, quinto filme da franquia, se passa 10 anos após os eventos de Sobrenatural: Capítulo 2. A trama de Sobrenatural: A Porta Vermelha volta a seguir a família Lambert, formada por Renai (Rose Byrne), Josh (Patrick Wilson, Foster (Andrew Astor), Dalton (Ty Simpkins) e Kali (Juliana Davies). Josh segue para o leste para deixar seu filho, Dalton, na faculdade. Dalton acabou de ingressar na faculdade, no entanto, o sonho do jovem logo se torna um pesadelo, e ele logo se dá conta de que ainda está muito longe de conseguir levar uma vida normal. Quando os demônios reprimidos de seu passado voltam repentinamente para assombrar os dois, ele e o pai são obrigados a retornar à macabra dimensão da Porta Vermelha, enfrentando uma série de novas e ainda mais terríveis ameaças e encarando seus medos mais profundos para, só assim, banirem seus demônios de uma vez por todas.

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A arte é uma das melhores formas de saber o que se passa na cabeça de seu autor. Através da arte, pode-se expressar sentimentos, ideias e sensações. A arte pode ser uma forma, também, de trabalhar traumas, repressões ou externalizar demônios. Isso acontece de forma literal em Sobrenatural – A Porta Vermelha, quando Dalton Lambert (Ty Simpkins) liberta traumas reprimidos e demônios aprisionados através de sua arte com a pintura.

A história se passa após os eventos de Sobrenatural: Capítulo 2. Ao final daquele filme, após terem enfrentado e vencido as forças do Distante (The Further), os viajantes astrais Josh (Patrick Wilson) e seu filho Dalton tiveram suas memórias apagadas. Agora, 9 anos depois, Josh se divorciou de Renai (Rose Byrne), e sua relação com Dalton se deteriorou, muito por conta da repressão daquilo que aconteceu nos dois capítulos originais. Ingressando na faculdade de artes, Dalton pinta a porta vermelha do título, e as assombrações retornam, enquanto os segredos do passado de pai e filho são revelados.

A série de filmes Sobrenatural sempre foi interessante por como os filmes se diferenciavam das outras produções de terror “de estúdio”. Se no terceiro e quarto capítulo isso vinha através da presença de uma protagonista da terceira idade, a médium Elise (Lynn Shaye – ótima no papel), é nos dois primeiros capítulos que essa diferença fica mais evidente: ao misturar subgêneros, tons e estilos, através da comédia e viagem no tempo ao terror de assombrações que contava inicialmente, o diretor James Wan adicionava um pouco de estranheza, humor e seu “kitsch” a filmes que se apresentavam de início apenas como obras de casa assombrada. Pode-se dizer que as raízes de um cinema maneirista de Wan, que atingiu seu ápice com “Maligno” (2021), podem ser vistas ali. Essa preocupação com elementos tonais e formais que não se restringiam apenas ao “terror de casa assombrada” foi responsável por tornar tais filmes ótimas incursões no gênero.

Ainda que Sobrenatural: A Porta Vermelha não adentre no caminho das ousadias estilísticas e formais que Wan exerceu, ele se revela como um filme interessante ao se mostrar mais preocupado com o drama de seus personagens do que com os elementos de terror. Mesmo que os fantasmas sobrenaturais e os jumpscares existam, este é um filme que dá mais atenção à reação desses personagens ao terror do que ao terror em si. No processo, temos um filme surpreendentemente sentimental. Isso se dá principalmente pela relação de Josh com Dalton, o cerne emocional do filme que é dirigido pelo intérprete de Josh, Patrick Wilson, em sua estreia em direção. Mais do que apenas replicar a dinâmica de pai distante e filho rebelde (ainda que o faça), o roteiro de Scott Teems, a partir da história de Leigh Whannel, escritor dos filmes anteriores da série, consegue extrair boas situações da interação entre pai e filho, como o momento potencializado pela direção de Wilson num pequeno plano sequência no qual Josh sai do quarto da faculdade de seu filho em direção ao seu carro enquanto se segura para não desabar em lágrimas após uma discussão com o garoto.

Ao mesmo tempo, as sequências que envolvem as aulas de arte de Dalton representam desenvolvimentos interessantes para o garoto que teve as memórias do terror que viveu reprimidas e, com os dois protagonistas, o filme levanta um comentário interessante sobre a repressão de traumas. Apagar o trauma é a melhor forma de seguir em frente? A arte libertar tais demônios pode tornar-se, então, um comentário eficaz sobre o poder dela e do artista.

Ainda que devote seus esforços ao drama dos personagens, a direção de Wilson se revela eficaz na construção de tensão e terror em momentos pontuais, como um plano longo no qual uma figura, em desfoque, se aproxima de Josh, ou no momento que se passa dentro de uma máquina de ressonância magnética, na os planos fechados ressaltam a claustrofobia do momento e entregam a melhor sequência de terror do longa.

Sobre a direção competente de Wilson, é válido ressaltar o “pontual”. O filme pretende criar a catarse emocional através da vitória de seus personagens sobre o terror no terceiro ato, mas quando a gravidade dessa e ameaça é mal articulada, o impacto emocional da vitória é diluído, e a superação dos demônios literais e simbólicos soa “fácil demais”. Uma evidência, talvez, da inexperiente direção de Patrick Wilson. O roteiro de Teems tem certa dificuldade em amarrar as pontas soltas criadas pelo próprio roteiro diante da mitologia da serie e do “demônio do rosto vermelho”, personagem que se revelou o grande vilão da franquia, e essa dificuldade em amarrar alguns elementos se estende para a direção, que possui dificuldade em concatenar os temas do filme de forma satisfatória.

Isso resulta na sensação de que há um filme muito melhor no meio de Sobrenatural – A porta Vermelha. É um filme repleto de ideias, temas e sequências interessantes, frustradas por um embate com as forças demoníacas um tanto anticlimático. Com uma atenção ao drama de seus personagens, no entanto, temos um plano final que consegue ser íntimo, sentimental e tocante – algo que nunca imaginaríamos do quinto filme de uma franquia de terror como esta. Se nos é negada uma catarse emocional à altura no clímax do filme, este momento final, realizado justamente através da manifestação artística, talvez faça, aos 45 do segundo tempo, este papel.

  • Nota
3

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