Crítica: Nem Herói Nem Traidor – 44ª Mostra de São Paulo - Cinem(ação)
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Crítica: Nem Herói Nem Traidor – 44ª Mostra de São Paulo

“Nem Herói Nem Traidor” é uma reflexão sobre o sentido de lutar na guerra. (visto nos dias finais da “repescagem” da Mostra).

Ficha técnica:
Direção: Nicolás Savignone
Roteiro: Nicolás Savignone, Pio Longo, Francisco Grassi
Nacionalidade e Lançamento: Argentina, 2020 (44ª Mostra de São Paulo)
Sinopse: Em Buenos Aires, em 1982, o jovem Matías acabou de concluir o serviço militar e agora sonha em estudar música na Espanha. Ele precisa convencer o pai, que se opõe à ideia, e a namorada, que reluta em mudar de país. Em pouco tempo, porém, tudo muda: a Guerra das Malvinas eclode, e Matías é forçado a amadurecer ao ser novamente envolvido no serviço militar. Será a deserção seu primeiro ato como adulto?

Elenco: Inés Estévez, Juan Grandinetti, Rafael Spregelburd, Héctor Bidonde.

“Cantava viva à liberdade, mas uma carta sem esperar da sua guitarra o separou”. O trecho da canção já clássica d’Os Incríveis, que adaptaram a canção original italiana nos anos 1960, muito se assemelha à obra de Nicolás Savignone. A diferença é que no filme “Nem Herói Nem Traidor”, o protagonista toca baixo e a guerra da qual deve participar é a das Malvinas.

É nesse contexto que acompanhamos Matías, o jovem que deseja estudar música na Espanha, mas que é confrontado com seu pai, que prefere que ele faça algo menos sonhador e mais “tradicional”. Aliás, é na relação de Matías com o pai que o filme ganha: constrói um vai-e-vem de não ditos, broncas e a descoberta de um passado musical que os conecta. É isso que vai construir o apoio de seu pai para as atitudes que ele tomará.

Preocupado em mostrar o protagonista na relação com os amigos, o filme chega a pintar um dos amigos como um vilão com ares de crueldade – e uma cena em que a câmera assume a mira de sua arma no acampamento é particularmente tensa. Vale destacar, também, a direção de arte que situa o filme tão bem nos anos 1980, que às vezes parece que estamos vendo um filme feito neste período.

“Nem Herói Nem Traidor” se torna, ao longo de sua projeção de pouco mais de uma hora, um filme sobre guerra sem nenhuma cena de batalha. Ainda que se torne explicativo em alguns momentos, ele mostra diferentes pontos de vista de uma guerra: a ideia de que um soldado recrutado para lutar por seu país, ao se recusar, trai a pátria, vem junto com o instinto de sobrevivência de uma família e a comparação entre uma guerra “fabricada” (como a das Malvinas e do Vietnã) e uma guerra civil, como aquela na qual o avô de Matías lutou.

Não teria como apresentar essas discussões sem inseri-las nos diálogos, e eles são importantes e bem realizados. Mas “Nem Herói Nem Traidor” ganha ao explorar as relações e a dificuldade que um rapaz tem de exprimir seus sentimentos. É com estes sentimentos sonhadores de alguém que ama a arte que o filme resiste à luta armada. Talvez somente a música, e arte e os sentimentos de um pai para um filho sejam a garantia de que o coração no peito é mais importante do que duas medalhas.

  • Nota
3.5

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