Crítica: 17 Quadras – 44ª Mostra de São Paulo - Cinem(ação)
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Crítica: 17 Quadras – 44ª Mostra de São Paulo

“17 Quadras” é um documentário com uma trajetória pessoal que evoca a realidade de milhões de cidadãos americanos.

Ficha técnica:
Direção:  Davy Rothbart
Roteiro:  Jennifer Tiexiera
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 27 de abril de 2019 no Festival de Tribeca  (44ª Mostra de São Paulo)
Sinopse: Em 1999, a família Sanford começou a filmar sua rotina em um perigoso bairro de Washington, a apenas 17 quarteirões do Capitólio dos Estados Unidos. Realizado em colaboração com o cineasta e jornalista Davy Rothbart, o documentário foca personagens de quatro gerações dos Sanford: Emmanuel, um estudante dedicado; seu irmão Smurf, um traficante de drogas local; sua irmã Denice, uma aspirante a policial, e a mãe deles, Cheryl, que deve lidar com os próprios demônios para promover o bem-estar da família. Abrangendo duas décadas, o filme retrata a jornada profundamente particular de uma família.

Já caminhando para seus minutos finais, o documentário de Davy Rothbart mostra um diálogo no qual Cheryl fala para seu neto o quanto ele se parece com o tio, morto aos 19 anos. O menino, ouvindo a comparação, questiona: “então eu vou morrer daqui a alguns anos?”

O documentário “17 Quadras” já começa explicando como foi possível reunir tanto material em vídeo de uma família de classe média baixa do subúrbio de Washington – mais especificamente a 17 quadras do Capitólio. O diretor do filme conheceu Emmanuel e Smurf em um jogo de basquete, e deu a eles uma câmera para filmarem o dia a dia. Após contarem os primeiros anos da história, vemos a entrada de câmeras mais profissionais, provavelmente quando o experimento se tornou um projeto maior.

“17 Quadras” busca retratar a realidade de uma família negra americana e os efeitos dessa vivência em todos eles: Denice não consegue realizar seus sonhos e se torna uma dona de casa que ganha pouco; Smurf se rende ao tráfico de drogas; Cheryl, a mãe, é usuária de drogas; e apenas Emmanuel tinha tudo para se dar bem.

É por isso que muitas das consequências que vemos no filme são de cortar o coração. Porque levam para uma única história a realidade do país inteiro – e de muitas outras nações. Isso é evidenciado, por exemplo, quando a namorada de Emmanuel encontra um papel escrito por um outro rapaz que morreu, ou quando Cheryl vê fotos de jovens mortos e compara as datas de nascimento de outro rapaz com a de seu filho. O que “17 Quadras” consegue fazer é nos afeiçoar aos personagens – especialmente Emmanuel – e depois nos jogar em uma realidade que assusta, embora estivesse sempre à espreita.

Talvez fosse mais interessante se o diretor Davy Rothbart aparecesse, já que ele se tornou próximo da família. É compreensível que ele tenha buscado focar na família, mas seu envolvimento em tela talvez pudesse nos fazer entender ainda mais a dor de todos.

Ainda assim, o documentário é rico por ter uma narrativa fluida repleta de momentos que se combinam, ainda que isso nunca seja mostrado de forma evidente. É o caso do diálogo com Justin e seu paralelo com o de seu tio, assim como nos dois momentos em que se fala sobre esperança.

“17 Quadras” é um documentário que se destaca pelo tempo de produção e por reunir tantos momentos importantes dos personagens que retrará. Além disso, ele cria tensão antes do acontecimento mais impactante, e ainda consegue nos chocar apenas com a cena de um corredor sujo de sangue, sem precisar dizer muito.

Justamente pelo fato de somar milhares de horas de gravação, o documentário merece aplausos por saber se concentrar em contar a história que deseja. Muitos realizadores não resistiriam à tentação de demorar-se em cenas menos necessárias, esticando para além dos seus sucintos 95 minutos de duração.

Por fim, o filme não deixa de ser otimista. Sua esperança reside nas novas gerações, personificadas na figura do menino Justin, que não precisa se tornar milionário ou o próximo presidente. Usando as palavras de sua avó, basta que se torne “mais do que as pessoas pensam dos homens negros”.

  • Nota
5

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