Vale a pena continuar impondo o lançamento nas salas de cinema?

Vale a pena continuar impondo o lançamento nas salas de cinema?

A pandemia do novo coronavírus acelerou alguns processos que o mercado cinematográfico estava tentando adiar ao máximo: a atenção massiva nas plataformas de streaming.

Mesmo com projeções bastantes otimistas para 2020, esse novo modelo de mercado se viu extremamente valorizado antes mesmo do meio do ano, superando qualquer análise mais profissional.

Com todo mundo em casa consumindo audiovisual, o debate sobre streaming ser um investimento de mercado importante tomou o centro das discussões acaloradas durante as medidas para mitigar os impactos negativos da pandemia.

Nessa semana, tivemos mais uma notícia de adiamento do novo filme do Christopher Nolan para as salas de cinema, uma vez que a incerteza da capacidade de reabertura continua rondando os principais mercados dos Estados Unidos.

Isso me fez provocar um debate em meu perfil do Twitter e perguntar a um público amplamente cinéfilo (e nem sempre profissional do setor) sua opinião sobre a imposição que persiste no mercado para que o filme tenha um lançamento inicial nas salas de cinema.

Todas as respostas que recebi foram muito interessantes e reflexivas, afinal, essa é uma questão onde não existe certo ou errado, e talvez nunca existirá uma única resposta. No entanto, algo me chamou bastante atenção.

Entre os que quiseram participar do debate, alguns não conseguiram enxergar a minha pergunta para além do produto norte-americano, fazendo com que eu fizesse outras tréplicas que levaram esses colegas a pensar no mercado brasileiro.

A reação imediata de se pensar em “Tenet” ou qualquer outro título mais expressivo, mostra que não estamos pensando em como anda a situação do cinema brasileiro em toda essa crise ocasionada pelo Covid-19.

Enquanto a Europa consegue se segurar nos investimentos do streaming, a América Latina parece perder o timing da mesma urgência, andando em círculos e sem saber o que fazer com os filmes que vão se acumulando e não podem ir para lugar nenhum.

Depois de muita insistência por parte dos distribuidores brasileiros, a Ancine deliberou na semana passada que novos lançamentos nacionais podem ser feitos no cine drive-in, mas, na mesma notícia, os próprios distribuidores já sinalizam a dificuldade dos títulos brasileiros serem aceitos nesse modelo que veio tentar substituir a sala de cinema durante a pandemia.

Com a rejeição do drive-in e os cinemas ainda fechados, será mesmo que as obras brasileiras conseguirão ter sucesso em um retorno? Essa é uma pergunta reflexiva e que deveria estar sendo levada mais a sério, principalmente pela Ancine, que até então não deu nenhum parecer favorável ou desfavorável a uma futura regulação desse mercado no Brasil.

É lógico que, na situação atual, liberar lançamentos no streaming seria entregar o ouro na mão das plataformas e não ter certeza que os investimentos ao FSA (Fundo Setorial do Audiovisual) seriam retornados, mas antes de arriscar confiar no modelo drive-in, ao menos uma Medida Provisória no Congresso deveria estar sendo elaborada para tentar estancar o sangue que vai jorrar por muito tempo.

Durante o debate que iniciei, aproveitei para falar o quanto o streaming também pode beneficiar os blockbusters que hoje perdem tempo segurando títulos. É claro que uma plataforma online jamais irá conseguir arcar com todos os custos de um grande filme, e ela sabe bem disso, mas, é uma fonte de mercado que não pode ser ignorada, especialmente em um momento de pura vulnerabilidade do produto audiovisual, seja do tamanho que for.

Cases de lançamento nos cinemas de títulos da Netflix, como “O Irlandês” e “Roma”, podem ajudar a gente a pensar na construção desse mercado híbrido para grandes filmes: nem somente nos cinemas, mas também nem somente no streaming.

Obviamente que estamos trabalhando com projeções que podem não dar certo, mas o que custaria tentar na situação atual? Algo semelhante é palpável para os filmes menores, que custam para fazer bilheteria e ainda saem em um prejuízo gigantesco. Vale mesmo a pena obrigar um título a ser lançamento no cinema quando ele pode ter uma carreira mais bem aproveitada nas plataformas online?

Impor o lançamento nas salas de cinema pode matar diversos mercados pelo mundo que irão lutar por anos para recuperar sua saúde econômica depois dos estragos ocasionados pela pandemia — e essa conta já está caríssima para o Brasil.

Para entendermos o streaming como parceiro econômico forte, precisamos compreender que a sala de cinema jamais irá morrer e que os espaços podem coexistir sem gerar nenhuma ameaça.

Claro que é importante que um filme tenha seu lançamento em cinema, independentemente do seu porte e importância para um determinado público, mas é necessário que o mercado entenda que não pode ser só isso. Nossos modos de ver e consumir cinema já mudaram, e com isso o mercado também já mudou. Tudo é adaptável, e na luta do streaming, sairá perdendo quem ainda se recusa a entender isso.

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