Crítica: O Farol (The Lighthouse, 2019)
O Farol

Crítica: O Farol (The Lighthouse, 2019)

O diretor de O Farol, Robert Eggers nos apresentou em 2016 o primeiro longa: A Bruxa. E já veio como um dos melhores filmes do ano – vale a ressalva que parte do grande público não gostou, pois não é um terror convencional, imagino que a mesma parte terá problemas aqui. Três anos depois, Eggers no mínimo iguala o feito com o inquietante O Farol

Aqui a proposta é ainda mais desafiadora e em momento algum subestima o público – só por isso já temos mais elogios que uma parte considerável da produção cinematográfica atual. Com uma narrativa alegórica, há abertura para várias interpretações e mais do que propor x ou y, discutir o que cada elemento pode vir a significar, o que é gratificante é a experiência como um todo tendo na tela um belo produto.

Como camada um temos Ephraim Winslow (Robert Pattinson, se você dúvida que é um grande ator veja Z – A Cidade Perdia e Bom Comportamento) que chega em uma ilha para ser ajudante de Thomas Wake (Willem Dafoe) no Farol, obviamente os nomes não são por acaso. A história é a relação destes dois homens e de como aquele meio (um ambiente isolado) influencia na cabeça deles. O passado de ambos não é mais tortuoso que as ondas locais e muito menos que o estado que ali se encontram, a forma como a coisa escalona é primorosa.

O desconforto, vide o plano que os personagens estão separados por uma viga, passando pelas gaivotas e até atingindo urros primais, tudo tem um significado e demonstra o controle da direção. Esses elementos poderiam descambar para galhofa, mas vão no limite e coadunam com a proposta.

Aliás, há uma dose de humor até curiosa. Em alguns momentos decorrentes dos diálogos, principalmente do tipo meio rabugento/mandão/bêbado/peidorreiro de Wake. Mas o absurdo e o estranhamento também rendem uma certa dose desse elemento.

Mas, claro, não se enganem… definitivamente o foco não é este. A pegada psicológica e de lidarmos (nós e os personagens, principalmente Ephraim) com o desconhecido tornam os eventos aterrorizantes. A essa altura, e quem conhece o trabalho do diretor, já se percebe que não teremos artifícios banais e sustinhos rasos. Até temos dois momentos de jumpscare, mas dentro de um contexto e sem soar apelação.

Em camadas mais profundas temos N interpretações que podem circular de mitos gregos, questões bíblicas e até cthulhu. E admito, até outros elementos que não atingi. Fica o convite ao amigo leitor expor as próprias interpretações nos comentários.

A fotografia em preto e branco e a razão de aspecto quase quadrada contribuem para o clima e não são apenas capricho. O pouco espaço é uma analogia óbvia com a situação dos personagens. E a questão temporal indefinida ao longo do filme (apesar de uma marca tola no começo) também é abraçada pelo visual.

Apesar de um deleite para os olhos, muito do mérito de O Farol é sustentado pelo texto, que pontua pequenas pistas e deixa lacunas precisas, e das interpretações viscerais da dupla.

Pensando em Oscar, a disputa este ano está muito acirrada. Não vi todos os especulados, porém por mim O Farol deveria ser indicação certa para filme e direção (infelizmente ambos não devem figurar). O que o filme tem chances reais de indicação é ator coadjuvante para o Dafoe e fotografia, corre por fora nas indicações em som e ator, porém nesta o ano está incrivelmente bom e tampouco Pattinson deve figurar. Mas já anseio pelo próximo trabalho de Eggers, The Northman, ainda em fase de pré-produção.

Considerando a estreia brasileira, 02/01/2020, O Farol tem tudo para ser um dos melhores filmes deste novo ano a ser lançado no país. E considerando o lançamento original, 2019, foi também um dos melhores.

  • Nota Geral
5

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