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Zumbilândia 2 e o American Way of Life

Zumbilândia – Atire Duas Vezes (Zombieland: Double Tap)

Ficha técnica: Direção: Ruben Fleischer
Roteiro: Dave Callaham, Rhett Reese, Paul Wernick
Elenco: Woody Harrelson, Emma Stone, Jesse Eisenberg, Abigail Breslin, Zoey Deutch, Rosario Dawson, Luke Wilson, Thomas Middletch, Avan Jogia e Bill Murray. Nacionalidade e lançamento: EUA, 2019 ( 24 de outubro de 2019 no Brasil) Sinopse: Anos depois de se unirem para atravessar o início da epidemia zumbi nos Estados Unidos, Columbus (Jesse Eisenberg), Tallahassee (Woody Harrelson), Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin) seguem buscando novos lugares para habitação e sobrevivência. Quando decidem ir até a Casa Branca, acabam encontrando outros sobreviventes e percebem que novos rumos podem ser explorados.

Crias do mestre George A. Romero, os zumbis como conhecemos hoje já nasceram, em A noite dos Mortos Vivos (1968), como alegorias ambulantes, e os comentários sociais que permeiam as produções que tradicionalmente envolvem estes passeiam por questões de etnia, gênero, consumismo e até mesmo superpopulação. Ainda que ao decorrer das décadas passassem por atualizações (os zumbis “velocistas” de Extermínio (2002), que eram na verdade infectados), muitas dessas regras permaneciam intactas, como a de atirar sempre na cabeça para acabar com os mortos-vivos.

Em 2009, Zumbilândia chegava aos cinemas, e, como Todo Mundo Quase Morto (2004) – já um clássico moderno dirigido por Edgar Wright – fez alguns anos antes, adicionava um humor satírico ao subgênero. Os comentários propostos não se restringiam apenas as questões sociais, como o tema do isolamento de seu protagonista que era abordado de forma competente e com bom humor; Zumbilândia comentava o próprio gênero no qual estava inserido. Assim, como o Randy da série Pânico, Columbus – o protagonista vivido por Jesse Einsenberg – possuía seu próprio caderno de regras, que eram integradas no quadro em tempo real conforme a ação acontecia, junto da narração em off do mesmo (e Eisenberg é praticamente a personificação máxima do hipster deslocado e cínico), que comentava com ironia todos os absurdos que víamos na tela. A mistura funcionou tanto que revitalizou, para o bem e para o mal, essa característica que se tornou muito frequente em produções dos anos 2010. Mirando uma geração de cinéfilos com talvez muita consciência do ridículo para o próprio bem, são filmes que em hipótese alguma podiam se render a uma espécie de honestidade narrativa, à uma contação de aventura tradicional. Como os protagonistas sarcásticos que habitavam suas tramas, tais filmes possuíam – na narração em off desimpressionada – a autorreferência como mote.

O grande diferencial do primeiro Zumbilândia era que aquela produção possuía um elenco muito bem afinado – com uma ascendente Emma Stone (Wichita), uma Abigail Breslin (Little Rock) crescida e o sempre carismático Woody Harrelson (Tallahassee) completando o quarteto principal -,  uma direção inspirada de Ruben Fleischer e um esperto roteiro escrito pelo diretor em parceria com Paul Wernick (que parece ter se condenado após este filme a narrativas metalinguísticas, já que trabalhou em ambos os filmes de Deadpool), que evidenciava que este era um filme feito por verdadeiros fãs do cinema de zumbis e gerava momentos já icônicos, como a visita à casa do astro Bill Murray (onde o mesmo comentava, nessa lógica da autorreferência, sobre a tragédia que foi Garfield (2004), filme em que viveu o personagem título) e a sequência de abertura, embalada ao som de For Whom The Bell Tolls, da banda Metallica. Era tudo muito bem aproveitado, e se adicionava uma espécie de filosofia interessante à vivência no mundo pós-apocalíptico: seus personagens se conformaram com a ideia de apenas se divertir. “Enjoy the little things.”       

Dez anos se passaram, e Zumbilândia: Atire Duas Vezes chega como se nada tivesse mudado. “De volta para mais um Round?”, diz Columbus na narração em off de praxe para a audiência, e logo estamos vendo o quarteto massacrando mortos-vivos em câmera lenta – novamente com uma música da Metallica ao fundo –, do lado de fora da casa branca. A verdade é que, à parte de zumbis mais resistentes e avançados que emergiram com o tempo no universo de Zumbilândia, nada mudou mesmo. Nossos heróis estão de volta para mais uma aventura, com alguns personagens novos e o mesmo tipo de humor visto no primeiro filme, ao ponto em que, agora, os comentários à cultura pop se estendem ao próprio universo – uma vez que o filme original já esteja inserido na cultura pop do qual a série e seus comentários sarcásticos tanto bebem – com a adição dos personagens de Luke Wilson e Thomas Middleditch, praticamente cópias escarradas de Tallahassee e Columbus que escancaram o caráter já caricatural dos dois “originais”.

É interessante como, negativas ou positivas, as críticas que vemos à sequência revolvem justamente em torno das poucas mudanças de um filme para o outro, de repetições de situações icônicas e reaparecimento de figuras do primeiro filme justificarem ou não a sequência. Ainda que, de fato, a nostalgia seja uma ferramenta narrativa efetiva, mas sempre traiçoeira (melhor: passageira), este não parece ser exatamente o problema com Zumbilândia – Atire Duas Vezes. Após o fim da projeção, o espectador é deixado com uma sensação curiosa: mesmo diante de uma anestesia fortuita de ter reencontrado Columbus, Tallahassee, Wichita e Little Rock, o que fica é uma espécie de vazio. Não se pode dizer que Fleischer e seu roteirista não exerçam suas funções com competência mais uma vez (ainda que exista um claro mal polimento estético em comparação ao primeiro, talvez pelo começo da produção apressado logo após o trabalho do diretor em Venom, o que claramente deu menos tempo para preparações), nem mesmo que as piadas não funcionem ou os atores não estejam bem reprisando seus papeis. Não, os problemas de familiaridade parecem ir muito além do que se vê na tela enquanto história. Se os filmes de zumbis são um comentário de mal estares de seu tempo, o que este segundo Zumbilândia diz sobre o tempo que está inserido, uma vez que seus personagens e ações continuem os mesmos? E isso vale até mesmo para um filme descontraído como este, já que, particularmente aqui, críticas a tipos modernos como patricinhas (Zoey Deutch, talvez a melhor coisa do filme) e “esquerdomachos (Avan Jogia)” com seus inseparáveis violões escancarem mais ainda as visões de seus realizadores.

“Eu queria poder te dizer que esta ainda é a America”. A frase que abre o primeiro Zumbilândia, em frente à casa branca com acordes em guitarra do hino dos Estados Unidos vem de forma tão inofensiva que nem mesmo nos lembramos dela quando pensamos sobre o filme de 2009, como se estivesse incluída para sugerir algum tipo de alegoria que nunca era consumada. No entanto, após Zumbilândia – Atire Duas Vezes, de repente o filme original adquire contornos que sempre foram óbvios. O obeso correndo no campo de futebol americano, a estereotípica mãe de subúrbio sendo perseguida pela própria filha zumbi num carro com a placa “minha filha é uma honor student “, os engravatados fugindo da boate, o dono de posto de gasolina que é tapeado pelas irmãs principais devido a ganância e sexo, a invasão à hollywood e a obsessão de seus personagens com parques de diversões e twinkies. De repente, o filme não é mais sobre nossos protagonistas se conformando a viver uma vida de pequenos prazeres, mas sim se rendendo às banalidades do que se tornou os Estados Unidos, se rendendo ao American Way of Life.  Ao invés de uma crítica a estes costumes, é uma aceitação dessas tradições, do tio homofóbico da família que vinha na forma de Tallahassee. A sensacional cena da destruição da loja de produtos nativo-americanos de repente ganha outro significado.

Em Zumbilândia 2, com essa aceitação, a imutabilidade dos protagonistas se torna incomoda, pois os tempos mudaram. Em plena era Trump, onde a discussão do porte de armas nunca esteve tão calorosa, temos um ponto de roteiro na sequência onde seus personagens devem entrar em uma colônia good vibes que não permite armas, e este grupo é encarado como um grupo de jovens estúpidos. A fuga da própria Little Rock com o estereotípico esquerdomacho maconheiro mais velho sugere insidiosamente para nós que o questionamento da personagem é uma rebeldia passageira e tola de adolescente. Se num apocalipse zumbi armas realmente são necessárias, a forma que este filme comenta a aversão da colônia ao porte de armas escancara uma raiva a este tipo de grupo já na reação de Tallahassee: “Ah, não pacifistas?!”. As risadas da audiência seriam justificadas caso o filme não resolvesse toda essa questão justamente com o fato de que Little Rock possui uma arma escondida que resolve o conflito no clímax da obra. O desespero de Tallahassee não se torna mais engraçado porque não rimos da personalidade pró – porte de armas de um redneck, mas sim porque o filme à torna como verdade, criticando o equivalente atual extra-filme que tais pessoas integram.

Assim, em meio a citações como “o grande salto americano” e idolatrias ao Elvis – outro ícone americano sulista -, Zumbilândia – Atire Duas Vezes se rende a um desfecho que envolve – é claro – um Monster Truck, símbolo máximo do estereótipo americano do entretenimento estúpido (de maneira que produções como Idiocracia (2006) já escancararam). A sátira se confunde com a ode.  Desta forma, temos um filme que não acompanha os tempos, parado nas ruínas daquele ano de 2009, dançando em frente ao cartaz “hope” da campanha publicitária de Obama para a presidência. Porém desta vez o superpatriotismo de Tallahassee contamina o resto da narrativa, e se naquela produção e naquela época a eventual conformação de seus personagens com o tempo em que viviam era de alguma forma catártica, nesta sequência eles estão completamente à vontade com os tempos atuais, e isto só provoca desconforto.

  • Nota
2.5
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