Une Colonie (Geneviève Dulude-De Celles, 2019) - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema

Une Colonie (Geneviève Dulude-De Celles, 2019)

A história do crescimento e geografia da desigualdade

Coming of age é um estilo de história que sempre me interessou muito, antes por identificação e, agora, por estudo – a adolescência faz parte do meu trabalho constantemente, sendo quase impossível desassociar a escola, educação do momento de transição enfrentado pelos jovens, mediantes às suas vivências, dramas e diálogo.

Pelo motivo da observação, intrínseca à disposição de entrega às artes, é preciso deixar-se invadir por inúmeras outras sensações e esteticamente o cinema da diretora canadense Geneviève Dulude-De Celles soa como um oásis para todos a fim da entrega ao percurso, a jornada afável narrativamente, ainda que profundamente austera em seu significado, principalmente quando acrescentado a camada psicológica da personagem inserida no espaço. A diretora e escritora é conhecida em festivais de cinema, escreveu uma obra que me emocionou muito chamada As Falsas Tatuagens (2017) e que possui, em sua totalidade, conceitos muito próximos desse seu mais novo filme – exibido na Mostra de SP.

Une Colonie (2019) é agridoce no seu desenvolvimento, exibe com precisão diálogos entre as personagens de maneira a inseri-las não só no contexto geográfico – interiorano, precisamente – como, e esse ponto me desperta a atenção, o estágio psicológico que se encontram: Mylia (Emilie Bierre) está iniciando os seus estudos no ensino médio e possui traços de uma personalidade atípica para sua idade, tende à observação, isolamento e silêncio, ainda que motivada pela mudança na vida escolar se sinta encorajada a tentar se adaptar em um meio explicitamente destoante. Sua irmã menor Camille (Irlande Côté), a qual é apresentada inicialmente, é a personagem que mais brilha no filme e que, não por acaso, parece estar sempre muito desperta aos conflitos e necessidades da adequação no cotidiano – com exceção de uma cena ao final do filme, onde finalmente sua compreensão da realidade é contrastada com o evidente limite da idade.

A narrativa segue sendo natural ao ponto de contemplar o meio, silenciar atitudes e limitar emoções em momentos chaves, a história básica parte de ideias muito trabalhadas no cinema, contudo é impossível não ressaltar que existe uma força que parte do deslocamento da protagonista em contextos completamente diferentes, essas transições surgem de maneiras dinâmicas e soam bem no resultado final. O sentido de adaptação alcança não só as necessidades de se encaixar com as jovens da sua idade, como também acompanhar a perspectiva singular da sua irmã diante aos pequenos detalhes da vida; bem como Jimmy (Jacob Whiteduck-Lavoie) e sua visão inteiramente politizada de pertencimento signifique aceitação quando mesclado aos dilemas de Mylia.

Cabe, antes da conclusão, reforçar o talento encantador da atriz mirim Irlande Côté que dá uma espontaneidade encantadora a uma personagem muito bem escrita e que mesmo nova representa conforto a uma adolescente repleta de medos. A sua performance me lembrou muito filmes como Projeto Flórida (2017) ou o cinema iraniano, que têm em sua essência uma habilidade impressionante em trabalhar com crianças, de forma duramente verdadeira.

Trajetória do crescimento, vendo ruir o que se acredita ímpar. O olhar se direciona à janela iluminada enquanto a professora explica o que é ser cidadão, em outra cena o mesmo olhar repousa no céu enquanto a professora cita o renascimento. Renascer soa como criar quantas vezes for necessário. Um passarinho aprendendo a voar e aceitando que nem todos os ninhos podem ser o seu.

– Você deveria parar de chupar os dedos. Vai ficar com os dentes tortos.
– Tudo bem, serei feia mas serei feliz.

É tudo questão de pertencimento, mas demora para percebermos que esse negócio de pertencimento do outro não pode significar o nosso. Uniformidade assusta a mãe da protagonista e deveria assustar a todos, para quê maquiagem quando deveríamos nos despir? Por que insegurança se podemos dançar Joy Division na sala? Por qual motivo devemos pintar as linhas que marcam a terra – dividida sob ordens imperialistas de perspectivas eurocêntricas – se posso(podemos) colorir o oceano?

É a história do “eu” enquanto renasço e da geografia do instante chamado “hoje”. Se um dia eu ser igual a todos, falar como todos ou escrever como todos, por favor, me mate.

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