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Eu Cinéfilo #45: Psicopata Americano: um filme terrivelmente atual

Faço um desafio a você que está lendo. Imagine-se caminhando pelas ruas movimentadas dos centros empresariais de sua cidade. Por todos os lados diversas pessoas circulando, e em determinado momento um homem atrai sua atenção. Mas não qualquer homem: ele é alto, atlético, bem vestido, extremamente atraente e o principal: é um empresário rico, vice-presidente de uma grande empresa. Conseguiu imaginar? Agora materialize esse homem na figura de Christian Bale. Em American Psycho (Psicopata Americano), o jovem ator inglês encarnou um rapaz com todas essas características. Apesar de toda essa “boa pinta”, havia um lobo na pele de um cordeiro.

O filme dirigido por Mary Harron estreou nos cinemas em 2000 e apresentou ao público um sangrento terror psicológico, baseado no romance de mesmo nome publicado em 1992. O elenco conta com figuras como Willem Dafoe, um investigador da polícia, e Jared Leto, empresário bem sucedido.

American Psycho poderia ser somente mais um filme com um protagonista com sede de sangue, matando pessoas arbitrariamente, e é nesse ponto que o espectador se engana. Os mais desatentos que procuram um mero entretenimento deixam passar uma grande crítica social feita sobre o homem norte-americano, principalmente os considerados “cidadãos de bem”.

Patrick Bateman, personagem interpretado por Christian Bale, tem todas as características de um homem correto, mas para por aí. O longa apresenta ao público um homem individualista, egocêntrico, completamente narcisista, que apesar de todo o status alcançado deseja reconhecimento e quer sempre estar acima de todos. O perfil individualista e cheio de preconceitos se estende a outras personagens que convivem com Bateman.

Christian Bale não decepciona na atuação. A intensidade com que encarna o papel da maior veracidade à personagem. O filme tenta ao máximo deixar claro que Bateman é narcisista e acaba exagerando na forma como isso é aplicado. Em cenas em que o protagonista está em sua casa tomando banho, são utilizados planos close-up no corpo e em ações de Bateman. Evidenciando que ele é aficionado em si. Porém a direção faz questão de inserir a narração de Bateman, se apresentando e descrevendo seus atos, a qual não seria necessária para entender sua personalidade.

American Psycho exige atenção de quem assiste. Ao longo do filme a diretora insere pequenos elementos, que analisados com cuidado, entregam respostas sobre Bateman, como as primeiras imagens, que mostram um prato sendo montado com carne, molho e frutas vermelhas, dando a aparência de sangue, já fazendo alusão ao teor do filme e o desejo do psicopata em comer partes de suas vítimas.

Mary Harron é sagaz ao deixar Bateman em frente ao espelho diversas vezes, mostrando sua auto exaltação. Uma delas é bem significativa: Bateman encara seu reflexo enquanto retira uma máscara facial, revelando a dupla personalidade.

O psicopata no meio de nós

Apesar de sempre estar vestido com as melhores roupas, frequentar os melhores restaurantes e conviver com pessoas da alta sociedade, Bateman esconde o lado mais obscuro do que o já descrito. O desejo por poder e a exaltação de sua figura, levam a personagem a pensar a todo o momento em matar, um sentimento que o domina, o tornando um verdadeiro Serial Killer.

Com quase 20 anos do lançamento do filme, a figura de Patrick Bateman, com seu comportamento individualista e preconceituoso, se encaixa perfeitamente na sociedade atual. A obra é tão contemporânea que serve como crítica a homens que vivem de aparências. São frequentes os casos de indivíduos que agridem e matam mulheres, moradores de rua, traficam e usam diversos tipos de drogas, mas perante a sociedade alegam ser pessoas de boa índole.

A crítica feita por Mary Harron sobre o homem norte-americano em 2000 dialoga com o homem de 2019. É válido ressaltar que, hoje, essa análise se expande para todo o planeta que enfrenta uma forte conservadora. Patrick Bateman reúne em si todas as características de um homem bem sucedido, mas que esconde o preconceito e repulsa que tem por outros que considera inferiores. American Psycho é um ótimo filme para se refletir sobre como a mentalidade da sociedade não mudou, mas ficou mais explícito o que o ser humano tem de pior.

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Texto escrito por:

Matheus Macedo

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