ESPECIAL | Filhos da Esperança [COM SPOILERS]

ESPECIAL | Filhos da Esperança [COM SPOILERS]

Faltam ainda 10 anos. Daqui uma década chegará o fatídico dia 16 de novembro de 2027. Nesse dia a maior celebridade do mundo será assassinada. Diego, mais conhecido como bebê Diego, será morto pela faca de um fã decepcionado.

O mundo chorará. A humanidade já está condenada, e o fim é apenas uma questão de tempo. Todos sabiam disso. Ainda assim, o bebê era o mais próximo que havia de uma criança. Imagine o mundo sem elas. A existência envelhecendo e definhando sem renovação. O sol se pondo sem qualquer esperança de um novo brilho. Sem crianças o mundo está, literal e metaforicamente, sem futuro…

Filhos da Esperança é um filme emblemático. O pequeno texto acima é consequência dos robustos minutos iniciais. Logo no prólogo, o filme demonstra seus variados valores técnicos e narrativos. Ambos os elementos combinam-se perfeitamente e, em uníssono, constroem uma jornada tão intensa quanto angustiante, mas ainda assim, esperançosa.

Hoje é dia 16 de novembro de 2017. Falta uma década para o fatídico dia. Ou seja, um pretexto bom o suficiente para comentar essa grande obra. Vamos lá!

UM BREVE CONTEXTO

Filhos da Esperança é um filme que, infelizmente, continua relevante. À época de seu lançamento, o mundo não era tão diferente do que vemos hoje.

O filme foi lançado em 2006, um ano histórico para as políticas de imigração dos Estados Unidos. Mas foi em 2005 que a história começou.

No dia 16 de dezembro, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou o polêmico projeto de lei H.R. 4437, também conhecido como Projeto de Lei Sensenbrenner.  O PL tinha como objetivo endurecer as leis sobre de controle de imigrantes ilegais sobre a fronteira norte-americana e aumentar a atuação das políticas de antiterrorismo.

Dentre as propostas, algumas se destacaram. Principalmente o item que determinava que qualquer pessoa que oferecesse assistência a imigrantes ilegais, de forma a mantê-lo em solo estadunidense, seria considerada criminosa. A pena de prisão aplicável ao imigrante poderia ser estendida ao cúmplice.

Entretanto, o PL não foi aprovado pelo Senado. Mesmo assim, a H.R. 4437 causou um importante debate no país, além de servir como catalisadora para os protestos de 2006. A partir de março, milhares de pessoas em diferentes cidades e estados americanos iniciaram vários protestos contra novas propostas de alteração das leis de imigração. E com o passar de dias e meses, os milhares viraram milhões, culminando num ano histórico para os imigrantes e para o país.

CRÍTICA, RESENHA E OPINIÃO – SPOILERS

O prólogo de Filhos da Esperança já apresenta boa parte das características fundamentais do filme.

Era um dia comum na Inglaterra distópica de 2027. Tal como o resto do mundo, a infertilidade assolou o país. Já faz 18 anos que nasceu a última pessoa e a notícia que ela havia sido assassinada deixou os cidadãos em choque. Estão aglomerados em frente à TV para obterem mais informações. Pouco tempo depois, uma bomba explode no comércio que Theo Faron (Clive Owen) acabara de sair. Uma mulher cambaleia atônita enquanto carrega o próprio braço. Um zumbido consequente da explosão faz-se ouvir.

O diretor Alfonso Cuarón, o fotógrafo Emmanuel Lubezki e o designer e editor de som Richard Beggs trabalham em perfeita sintonia para desenvolver uma atmosfera genuinamente envolvente. Além disso, o roteiro de Cuarón, Timothy J. Sexton, David Arata, Mark Fergus e Hawk Ostby (adaptando livro homônimo de  P.D. James, lançado em 1992) criam alicerces estáveis, além de diferentes metáforas e simbolismos, para o desenvolvimento e profundidade narrativa. O primeiro de vários exemplos das qualidades técnicas e narrativa de Filhos da Esperança é o prólogo descrito acima.

A câmera em mãos cria uma imagem aspecto documental e com forte subjetividade. O expectador é, por vezes, naturalmente inserido em momentos determinantes da trama. A paleta fria reforça a melancolia de um mundo sem “amanhã”, a frieza que preenche os indivíduos e, ainda, sugere a esterilidade dessa nova realidade. A bomba que explode naquele que seria um dia comum, determina a realidade diegética. A partir daí, a atmosfera está estabelecida e a trama discorre com fluidez enquanto dá profundidade à própria narrativa através do cenário.

A cidade distópica começa a ganhar identidade graças ao design de produção. As informações sobre essa realidade estão dispostas pelo ambiente. As ruas sujas e caóticas indicam a falência da sociedade. Militares acumulam-se em todos os cantos. Jaulas prendem os imigrantes nas ruas. Auto-falantes, TVs, placas, etc, determinam a força, controle e mentalidade do exército com mensagens incentivando a denúncia de imigrantes (conhecidos como fúgis), equiparando-os a terroristas. Em meio às mensagens autoritárias, momentos de auto-vangloriação do Exército e estado de sítio. E a propaganda do Quietus, um kit de eutanásia distribuído gratuitamente para qualquer cidadão interessado, também se apresenta constantemente.

Cuarón não perde tempo explicando o mundo. Ele o apresenta visualmente através de diferentes informações ao longo dos planos. Mensagens de diversas formas dão mais profundidade à realidade do filme. Quando Theo caminha pela cidade caótica, cada rua, cada ângulo conta uma história e evidencia o colapso social e humano. Da mesma forma dá-se a construção de Theo, através de elementos e detalhes dispostos visualmente.

Aos poucos, Theo Faron revela-se ao espectador. Seja em como responde, ou não, um questionamento sobre o risco do cigarro. Ou como ele reage à morte do bebê Diego. A forma como ele se distancia do viés político de seu mundo. Etc. As diferentes situações constroem Theo. Sugerem seu passado e presente. Está tudo ali, disposto de objetiva e sem didatismo.

Os demais personagens de relevância também recebem, em menor escala, momentos que justifiquem seus atos. Cada atitude, seja ela condenável ou não, possui motivo verossímil, resultando em personagens complexos e humanos. Vide, por exemplo, Luke (Chiwetel Ejiofor). Em determinado ponto da narrativa ele assume a característica de vilão. Porém, no arco final, basta uma frase para justificar todas suas atitudes: “Ela pensou que poderia ser pacífico. Mas como pode ser pacífico se eles tentam tirar a nossa dignidade?”. Uma frase pontual e bem alocada na trama que faz o personagem ganhar uma nova dimensão. Torna-se humano, relacionável, empático.

Os detalhes afloram-se ao longo do filme. Cada frase possui objetivo maior do que manter um diálogo qualquer. Cada elemento cenográfico foi posicionado para expressar algum detalhe relevante, culminando numa experiência intensa e robusta que fará o espectador ver e rever o filme, sempre encontrando algo “novo”.

O mesmo vale para os diversos elementos simbólicos dispostos ao longo do filme. Filhos da Esperança é repleto de simbolismos. Há, por exemplo, os pés de Theo, um elemento recorrente que ajuda a humanizar o personagem. Algo semelhante ao que acontece com John McClane (Bruce Willis) em Duro de Matar (1988).

Há também a riqueza e a coleção de artes de Nigel (Danny Huston), primo de Theo. Em seu apartamento luxuoso com vista para a sociedade destruída, eles jantam de costas para a Guernica, famoso quadro de Pablo Picasso (1881 – 1973) que retrata a crueldade caótica da guerra. Uma imagem poderosa e sugestiva acerca do diferentes mundos das pessoas ricas e pobres.

Mas é através da imponente estátua do Davi de Michelangelo com uma perna artificial que o filme abre espaço aos simbolismos religiosos presentes. Graças ao Davi, Nigel afirma em tom jocoso: “Não conseguimos salvar a Pietà”. A ironia dessa frase ganhará ainda mais força alguns minutos depois na trama. Voltarei a ela mais à frente.

Theo está nessa jornada graças a Julian (Julianne Moore), a líder de um grupo rebelde e sua ex-esposa. Ela busca a ajuda Theo para transportar a jovem Kee (Clare-Hope Ashitey) para um lugar seguro, um barco que chegará em alguns dias chamado Amanhã (outro simbolismo, mais óbvio, mas eficiente de qualquer maneira). Mas há um grande porém: Kee é a primeira mulher a ficar grávida no mundo em 18 anos.

Enquanto dirigem-se de carro à base do grupo rebelde a fim de proteger Kee, Theo, Julian e os demais passageiros são atacados por uma gangue. Nesse momento, o filme realiza um dos seus momentos mais incríveis: um plano-sequência estonteante. Dentro do pequeno carro, com os quatro lugares ocupados, a câmera move-se em seu eixo, assim como horizontalmente durante uma longa perseguição. A coreografia é energética. A câmera desloca-se com liberdade e de maneira impressionante até quando sai do carro, em outro movimento difícil de explicar. Uma sequência tecnicamente impecável que imprime urgência realista ao filme. O plano é uma pequena obra de arte dentro do filme e, por si só, merece aplausos. Já quanto ao aspecto narrativo, a cena funciona para criar um real senso de ameaça à trama. O resultado da perseguição deixa claro que o risco de morte realmente existe. Essa cena cria nas demais uma sugestão de perigo fatal que deixará o espectador aflito durante diversos momentos.

Momentos depois, no QG dos rebeldes, a ironia mencionada acima ganha sua força. No momento em que Kee anuncia sua gravidez para Theo, ela está dentro de numa espécie de manjedoura. Ela, uma fúgi negra, é a Virgem Maria dessa distopia. E o simbolismo vai além, obviamente por colocar uma mulher negra dando luz ao novo futuro da humanidade. Esse mesmo comentário também foi feito na casa de Jasper (Michael Caine). Em determinado momento é possível ver dezenas de fotos de pessoas numa parede, alinhadas de forma similar a uma árvore genealógica. E acima de todas as fotos, um desenho de uma mulher negra, a primeira de todas. A verdadeira progenitora da humanidade, de acordo com perspectiva do filme.

São muitas as riquezas de Filhos da Esperança. Há, por exemplo, outro plano sequência magnífico, no terceiro ato. Longo e complexo, ele conta com a participação de dezenas de atores, veículos, armas e bombas. Outro momento de encher os olhos. Porém, diante todas as discussões que o filme apresenta, uma delas ainda chama atenção.

Lá em cima, no início deste simples Especial, afirmei que Filhos da Esperança permanece relevante, para a nossa infelicidade. No filme, o mundo foi assolado por epidemias e guerras e apenas a Inglaterra conseguiu manter alguma forma de sociedade. E para mantê-la – mesmo que condenada –, o governo utiliza a força, o ódio e o medo como ferramentas de controle. E para isso, é necessário criar um inimigo, um rival para justificar o uso da coerção. No caso do filme, os imigrantes.

Várias cenas apresentam brutalidades com os imigrantes capturados. Não há violência gráfica, mas o choque é forte. O trato desumano, as condições degradantes e a justificativa desprezível causam impacto.

Quando descrevi – muito resumidamente – o contexto no qual o filme foi lançado, a ideia era fazer um paralelo com a atualidade, apontar as ingratas semelhanças existentes naquela época e atualmente. Se naquele período Bush utiliza a guerra contra o terrorismo como pretexto para seus atos – há no filme um comentário de Jasper que pode ser interpretado como uma crítica direta ao ex-presidente: “toda vez que os nossos políticos estão com algum problema, uma bomba explode” –, hoje vemos o infame presidente Trump culpando os imigrantes, taxando-os como terroristas, assassinos e estupradores a bel-prazer. E isso é só uma das semelhanças.

Ao redor do mundo, a questão dos imigrantes vem ganhando tristes proporções. A rejeição automática e autoritária. E a justificava é desprezível.

Por isso escolhi comentar um pouco sobre essa grandiosa obra. Não apenas por todo imenso valor técnico e narrativo, mas pela triste semelhança entre essa distopia e a sugestão do nosso futuro. O que pode acontecer durante esses 10 anos que restam até a morte do bebê Diego? Qual rumo estamos tomando?

Em determinado momento do filme, Theo diz para Jasper: “…mesmo que descobrissem a cura para infertilidade, não importa. É muito tarde. O mundo já foi para merda. E quer saber? Já era tarde demais antes dessa infertilidade acontecer…”. Espero que não seja.

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