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5 referências que fazem o filme “A Bruxa” ser muito mais rico do que parece

Muitos que assistiram ao filme “A Bruxa” saíram da sala decepcionados. Algo aconteceu para que ele atraísse um público acostumado aos “jump scares” de filmes como “Boneco do Mal” ou da franquia “Atividade Paranormal”, quando na verdade trata-se de um terror mais sutil, que provoca muito mais reflexão do que propriamente o “entretenimento intenso” dos filmes aqui citados – embora continue sendo um filme de terror muito assustador àqueles que realmente mergulharem na trama.

A Bruxa“, dirigido pelo estreante Robert Eggers e produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, da RT Features, vem conquistando excelente bilheteria por meio do famoso “boca-a-boca”, que surgiu especialmente após os elogios do escritor Stephen King.

São muitos os relatos de cinéfilos que assistiram ao filme na companhia de um público que buscava outro tipo de entretenimento. Eu mesmo, que escrevo estas palavras, acompanhei a trama sob risos e comentários incessantes que incluíam palavras como “ridículo” e “tosco”. Outro exemplo de experiências semelhantes pode ser ouvido no podcast Batendo Papo na Masmorra #45, que vale a pena ser ouvido para ampliar a compreensão do filme.

Desta forma, sabendo que muitas pessoas talvez tenham ido ao cinema com outra expectativa, faço uma lista de elementos importantes que podem ter passado despercebidos.

 

*ATENÇÃO: os comentários abaixo contém SPOILERS do filme!

 

1- Religião e pecado:

O filme todo é sobre o pecado e a repressão da sociedade – especialmente devido à religião. Não é por acaso que a protagonista – e, dependendo da interpreção de cada um, a personagem-título – que está em pleno desabrochar sexual, tem pecado até no nome: Thomasin (em inglês, “sin” significa pecado). A própria trama pressupõe que o pai, William, fez uma leitura exagerada das escrituras (até mesmo para o período) e foi expulso da comunidade onde eles viviam. Na família retratada, todos os personagens são reprimidos: não conseguem cumprir aquilo que querem, têm dificuldades de lidar uns com os outros, e flertam até mesmo com o incesto – não apenas no caso de Caleb, que sente atração por Thomasin, mas é possível fazer um paralelo na relação da menina com sua mãe Katherine, em uma situação que faz referência ao complexo de Electra, conceito psicanalítico no qual a filha se identifica tanto com a mãe que passa a desejar eliminá-la para possuir o pai.

Já no terceiro ato do longa, Caleb volta de seu “encontro com a bruxa”, que simboliza um desabrochar sexual, e expele uma maçã, símbolo bíblico do pecado cometido por Adão e Eva, ou seja, símbolo do sexo – e repare que em outros momentos a maçã é citada, bem como a crença de que nós nascemos do pecado.

 

2- Desabrochar da sexualidade

“A Bruxa” é sobre o desabrochar da sexualidade. Neste ponto, vale lembrar que o conceito de “bruxa” e “bruxaria” como conhecemos até hoje surgiu especialmente no século XIV, quando a Igreja Católica passou a perseguir, por meio da Inquisição, mulheres (e apenas mulheres) pagãs – ou seja, não cristãs – que tinham conhecimento de plantas medicinais, bem como práticas religiosas que não faziam parte do que a Igreja pregava. Estas mulheres, invariavelmente, apresentavam uma sexualidade mais aflorada e menos reprimida, o que é mostrado no filme de maneira instigante.

Também vale destacar que o filme se baseia em depoimentos escritos na época – século XVII na Nova Inglaterra. Cerca de dois séculos mais tarde, estes elementos presentes no imaginário europeu e contados oralmente como histórias de adultos em todo o continente, foram interpretados por escritores como Charles Perrault e os irmãos Grimm, responsáveis por eternizar as histórias que conhecemos desde a infância – embora muito abrandadas e infantilizadas ao longo do tempo. Todas estas histórias transmitidas oralmente eram carregadas de simbolismos, como os ritos de passagem da juventude, incluindo até mesmo incesto. Vale destacar que, no fim, ao “se livrar” das amarras da família, Thomasin encontra sua liberdade… e sorri!

 

3- Linguagem cuidadosa

Outro fator que enriquece muito “A Bruxa” é a linguagem utilizada pelos personagens. Muito mais do que apenas utilizar sotaques britânicos, como muitos filmes fariam, o longa traz um falar mais semelhante ao da época, com o uso de “thee” no lugar de “you” e construções gramaticais diferentes. Como (felizmente) não vi o filme em versão dublada, não sei dizer se conseguiram respeitar esta escolha na versão em português, embora as legendas tenham feito um pouco disso.

 

4- Crítica à religião… e à família

O longa é uma grande crítica à religião e aos desentendimentos familiares. Embora a religião já tenha sido citada, vale lembrar neste item que esta família jamais passaria por isso se não fosse tão exacerbadamente religiosa.

Se a bruxa for interpretada como uma grande ilusão de todos que lá estão, incluindo nós espectadores, percebemos que todo o desencadear de acontecimentos se dá devido ao desamor de todos. Thomasin é, talvez, o último elemento de amor presente na família, já que é a única que diz “eu te amo” em determinados pontos da projeção, enquanto cada membro da família parece agir por conta própria, sempre mentindo acerca de alguma coisa – ou digno de desconfiança. As crianças gêmeas acusam Thomasin, o menino mente à mãe, o pai também mente, e tanto a Katherine quanto William escondem da filha o objetivo de casá-la forçadamente com alguém – mesmo que ela saiba por escutá-los.

 

5- Contos de Fadas

A figura do lenhador, a maçã, o bosque ou floresta, a casa da bruxa, o capuz vermelho, o coelho, os dois irmãos na floresta e o lobo são elementos facilmente ligados a contos de fadas clássicos. Utilizar “A Bruxa” como exercício de “sacar as referências” (será que o Capitão América entenderia todas?) pode ser uma ótima ideia. Afinal, as versões infantis, às quais nos acostumamos, deturparam muito as histórias originais, removendo parte do que é mais representativo de sua época.

 

PS: no filme, outro elemento importante é o bode, chamado de Black Phillip. Ele simboliza/é o próprio demônio, segundo a concepção católica, mas na verdade sua origem simbólica remete à figura do Baphomet, divindade pagã adorada pelos templários. Como estou longe de poder explicar este tema com alguma propriedade, coloco abaixo um trecho do artigo da Wikipédia sobre ele, e peço que você apenas pense no assunto:

“A palavra “Baphomet” em hebraico é como segue: Beth-Pe-Vav-Mem-Taf. Aplicando-se a cifra Atbash (método de codificação usado pelos Cabalistas judeus), obtém-se Shin-Vav-Pe-Yod-Aleph, que soletra-se Sophia, palavra grega para “sabedoria”.

Todavia ainda existem fontes que afirmam uma outra origem do termo. Segundo alguns, o nome veio da expressão grega Baph-Metra (mãe- Metra ou Meter- submersa; Baph- em sangue. Ou seja, a Mãe de sangue, ou a Mãe sinistra). Grande parte dos historiadores que afirmam essa versão se baseiam no fato que o culto à cabeça está relacionada com conjurações de entidades femininas.

Teorizou-se simbolicamente que o Baphomet é fálico, já que em uma de suas míticas representações há a presença literal do falo devidamente inserido em um vaso (símbolo claro da vulva) “.

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