A mulher negra no Cinema Brasileiro por Ana Flavia Cavalcanti. - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema

A mulher negra no Cinema Brasileiro por Ana Flavia Cavalcanti.

O debate sobre o papel da mulher negra no cinema brasileiro continua, após a grande repercussão da primeira entrevista feita com a cineasta Sabrina Fidalgo (https://cinemacao.com/2015/08/10/a-mulher-negra-no-cinema-brasileiro-por-sabrina-fidalgo/).

De 02 meses pra cá, vimos a atriz americana Viola Davis fazer história ao ser a primeira negra a vencer o prêmio de Melhor Atriz Dramática no Emmy. Enquanto isso, em território nacional, vemos gradualmente um número maior de profissionais negras, atuando em obras que não tem o Brasil Escravocrata como pano de fundo.

A ascensão das atrizes no Cinema, na TV e no Teatro é visível, mas ainda está longe de quitar a dívida histórica que a nação tem com elas e como toda a comunidade negra.

Entre a nova geração de atrizes negras, cheias de carisma, beleza e principalmente talento, está a paulista Ana Flavia Cavalcanti.
A atriz de 33 anos, atualmente atua em “Além do Tempo“, novela das 6 da Rede Globo, e pode ser vista no filme “A Morte de J.P Cuenca”, que marca a estreia do escritor em longas, e terá sua Premiére na próxima quinta-feira (08) no Festival do Rio.
Nessa entrevista exclusiva, a atriz fala sobre a representação da mulher negra no nosso cinema, do seu processo de construção dos personagens e como foi ilustrar a transecular relação PATROA x EMPREGADA, tão em destaque nos últimos tempos, no curta metragem “Personal Vivator” da cineasta Sabrina Fidalgo, no qual foi uma das estrelas com o ator Fabrício Boliveira.

 

ANA FLAVIA 01

1 – Como você avalia a representação da mulher negra no cinema brasileiro hoje?

Bom, eu vou falar sobre o cinema brasileiro mas sabemos que no cinema internacional a representação da mulher negra é ínfima se comparada a representação do homem branco. 

Aqui no Brasil não posso deixar de dizer que isso vem mudando. A passos de tartaruga? É verdade, mas já temos mulheres negras no cinema em funções variadas e ocupando lugar de decisão. 
Porque a posição de empoderamento de algumas funções no cinema são o pilar central no caminho, no olhar e mesmo na temática do filme. 
Quero dizer com isso que a mulher precisa dirigir mais, fotografar mais e roteirizar mais. Assim, teremos as temáticas dos conflitos das mulheres negras mais representadas no cinema que se produz hoje em dia. 

Duas cineastas negras que gosto muito: Sabrina Fidalgo e Renata Martins.

 

2 – Nos seus trabalhos no cinema, teatro e TV há uma preocupação com a representatividade da personagem que irá interpretar? Você tenta compensar uma possível repetição de contextos através de uma interpretação realista e não-estereotipada?

Eu sou uma jovem atriz, comecei meus estudos em artes dramáticas em 2005, por isso considero que estou no início de carreira e recebendo as oportunidades de trabalho de braços abertos. Estou tentando entender o que certos personagens querem dizer nesse contexto brasileiro pós-escravidão. 
Dia 08 de outubro é a estreia do meu primeiro longa metragem no Festival do Rio e ao mesmo tempo estou fazendo minha primeira novela. Duas experiências bem distintas. 
Nos dois casos eu optei por uma interpretação mais naturalista devido aos contextos que minhas personagens estão inseridos, mas elas são bem diferentes. 
No filme a descrição da minha personagem é que sou uma mulher, na novela a descrição é que sou uma mulher negra, o filme se passa em 2014 a novela se passa em 1890 mais ou menos. No filme eu sou moradora do centro do Rio, na novela eu não tenho casa, moro no trabalho, são os primeiros anos depois da abolição dos escravos. 
Dois séculos nos separam. 
Agora, minhas escolhas são conscientes e eu evito muito, sempre que possível, os estereótipos. 
E como não estávamos vivos no século XIX, ninguém sabe como éramos ao certo. Podemos experimentar outras formas de conexão, comportamentos e hábitos. Afinal, se hoje ninguém é igual a ninguém no século XIX também não éramos. Não posso apenas reproduzir reproduzir reproduzir certos hábitos ditos de negro. 
O filme se chama a Morte de J.P Cuenca e a novela é a das seis, Além do Tempo.
ANA FLAVIA 03

3 – Atualmente você está no ar em “Além do Tempo”, novela das 6 da TV Globo, onde interpreta a “Carola”, uma moça simples e batalhadora que se candidata a trabalhar no casarão da temida Condessa Vitória (Irene Ravache). A trama se passa no século XIX, um período de profundas transformações na sociedade brasileira. De lá até aqui houve mudanças significativas na representação da mulher negra? Há semelhanças entre a mulher negra Carola e a mulher negra Ana Flavia?

Tudo mudou. São dois séculos de diferença. A condição humana mudou, o ritmo de trabalho, as relações pessoais, a liberdade conquistada pelas mulheres no mundo. 
A Carola é uma mulher negra que trabalha no emprego, uma pessoa muito integra, que enxerga seu lugar de hoje, mas não se limita a isso, tem sonhos e vai lutar por eles. Sabe que pode crescer para todos os lados. 
A Carola, mulher negra do século XIX precisa da mesma coisa que a mulher negra de hoje em dia: oportunidade. 
E acho que nos dias de hoje temos tido mais oportunidades desse tipo, oportunidades transformadoras de padrão social, político e artístico. 
Eu e Carola temos essa semelhança: a de sonhar e ir em frente. 

4 – No curta metragem “Personal Vivator”, escrito e dirigido pela cineasta Sabrina Fidalgo, você interpreta uma “babá de filha de mãe presente” – como ironiza o próprio cartaz do filme – que também vive seu lado dominante ao contratar uma babá. Essa inversão de comportamento reflete a necessidade de algumas mulheres negras de autoafirmar um poder que é ignorado pelas artes e pela mídia?

No filme da Sabrina a maior necessidade pra mim era a da Marineuza ter uma babá. 
Qualquer mulher que tenha um filho, trabalhe fora e more longe de algum familiar vai precisar deixar o filho com alguém. 
As vezes uma escola, as vezes uma babá. Essa era a necessidade principal e uma necessidade de muitas mães não um privilégio de mães brancas. 
E mais, diferente da mãe “presente”, a Marineuza era mãe ausente do próprio filho/neto.
Agora, o tom de deboche da Marineuza quando a patroa descobre que ela também tem uma babá é um embate entre duas pessoas que estão discutindo. E aí discussão é discussão, não existe discussão negra e discussão branca. 
Essa linha é estreita e delicada. Eu sei. 
Porque sendo negra e vivendo em um país que discrimina pessoas com o tom de pele que não seja o branco eu sinto a obrigação de me colocar nesse lugar quando me solicitado, até em representatividade mesmo, mas eu quero viver as minhas próprias experiências e olhar o mundo além da temática da cor, porque eu já não vejo cores nas pessoas eu vejo as pessoas. 

ANA FLAVIA 04Ana Flavia Cavalcanti e Fabrício Boliveira em cena do curta metragem “Personal Vivator”.

 

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