A Chegada, uma poesia sobre o tempo

A Chegada, uma poesia sobre o tempo

Nenhuma outra forma de arte é capaz de consertar o tempo como o cinema consegue. Então, o que é, de fato, um filme? É um mosaico feito com o tempo.
Andrei Tarkovsky

 

Se você  pudesse ver sua vida toda diante de você, faria algo diferente?

Próximo ao final de A Chegada (2016), ouvimos esta pergunta da protagonista, Louise Banks. Neste momento da história já conhecemos a habilidade da personagem para entender a linguagem dos alienígenas que chegam ao planeta Terra no início da trama e, também, o que o aprendizado dessa língua desencadeia: conhecer seu próprio destino.

Engana-se quem pensa que o filme trata apenas de uma linguista que aprende com seres extraterrestres a ver seu futuro. A Chegada aborda o luto, o conceito de humanidade, além de ser um deslumbrante ensaio sobre as limitações da comunicação humana (a alegoria da ”tela” dividindo os humanos e os heptapods é tão nítida quanto brilhante).

Linguagem. ”Linguagem é a fundação da civilização, é a cola que mantém as pessoas unidas. É a primeira arma a ser utilizada em qualquer conflito” diz Ian à Louise no inicio do segundo ato, alertando-nos do que estava por vir em seguida. Linguagem é o sistema que os seres humanos (e, nesse caso, heptapods) utilizam para se comunicar, transmitir ideias e sentimentos, seja por fala ou escrita. O relativismo linguístico, ou hipótese de Sapir-Whorf, diz que diferentes linguagens e culturas refletem diferentes formas de pensamento, logo, aprender uma nova língua pode alterar a maneira de processar ideias, numa nova forma de enxergar o mundo.

Portanto, ao ponto que Louise decifra a escrita alinear dos heptapods ela começa a compreender a maneira circular com que os extraterrestres veem o tempo. A linguagem do roteiro trata o tempo como cíclico, mesmo que nós, humanos, possamos apenas desfrutá-lo linearmente, como uma reta que segue sempre na mesma direção, pra frente. Talvez devido ao nosso ínfimo espaço amostral. Porém, A Chegada nos presenteia com uma metalinguagem poética e absolutamente inesperada: O filme também é um ciclo. Ao longo da história, a protagonista desvendando a linguagem alienígena e nós, juntos a ela, experienciamos seu aprendizado e descobrimos que as cenas antes compreendidas como flashbacks de uma filha já falecida são, na verdade, memórias futuras de uma criança que ainda não nasceu.

Depois disso, a pergunta da protagonista ao seu futuro marido ganha muito mais peso e, junto com a história que acabamos de ver, nos convida à uma reflexão sobre a passagem do tempo, a nossa própria existência e maneira de ver as coisas.

Então, e se você pudesse ver sua vida toda diante de você, faria algo diferente?

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