Entrevista com Maurício Costa – Diretor do longa #EradosGigantes

Entrevista com Maurício Costa – Diretor do longa #EradosGigantes

Maurício Costa, 40 anos, natural de Porto Alegre-RS, há 10 anos em Brasília – DF, é diplomata, crítico de cinema, professor e coeditor do site Razão de Aspecto. Além de todas essas atividades, Maurício dirigiu um documentário que foi selecionado para um dos maiores festivais do Brasil: o Festival de Brasília, que este ano entra na 49ª edição.

#EradosGigantes, que já contou com crítica aqui no Cinem(ação), traz um recorte das atividades da política externa brasileira no período de 2003-2010. Dando voz a membros ativos do governo na época, opositores, jornalistas e pessoas de renome. O diretor mostra como falar de um tema sisudo de forma leve, mas sem perder a consistência.

No papo com o Cinem(ação), Maurício Costa fala sobre o longa (que não contou com quaisquer tipos de financiamento externo), a emoção e expectativa de participar do festival de Brasília e, claro, política.

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1- Maurício, quando você começou a pensar em dirigir um longa? A ideia sempre foi fazer um documentário sobre política?

Fazer cinema era um sonho antigo, adiado, muitas vezes, em função de meus compromissos profissionais como diplomata e como professor. Como é característico da minha personalidade, depois de muito pensar, surgiu a oportunidade de cursar a escola de cinema. Tomei a decisão e, a partir de então, tracei uma linha reta até a finalização do meu primeiro longa metragem.

Não posso afirmar que a ideia sempre foi fazer um documentário sobre política. Como toda pessoa apaixonada por cinema e que sonha em fazer cinema, tinha projetos grandiloquentes e inexequíveis. Na escola e cinema, onde tive uma formação específica de cinema digital e independente, pude ter mais clareza de que projetos executar. Assim, segui o caminho do documentário político-social. Quero que meus filmes tenham algo a dizer sobre o nosso país, a nossa realidade, sobre as questões do nosso tempo. O documentário político-social é a melhor forma de expressar, artisticamente, o que penso sobre o mundo.

2 – Maurício, você financiou toda a produção com dinheiro do próprio bolso. Quais foram as dificuldades no processo?

Todas as possíveis e imagináveis!

Cinema é uma atividade cara, que, felizmente, ficou mais barata- em termos relativos- na era do cinema digital. Ainda assim, foi preciso muito esforço e muita dedicação para superar todas as dificuldades técnicas e logísticas com um orçamento ínfimo. No meio do caminho, tivemos, inclusive, de enfrentar problemas com a total falta de profissionalismo de equipe contratada e devidamente remunerada. A finalização do filme esteve quase inviabilizada por causa dessa questão. Felizmente, as equipes da Rodoferrô e da Finish Him, competentes, confiáveis e profissionais, assumiram o projeto e nos ajudaram a chegar até aqui.

Tivemos uma equipe dedicada e comprometida do início ao fim. Os profissionais técnicos são jovens e promissores. A equipe de direção me ajudou muito. Grande parte da equipe do filme trabalhou voluntariamente, e a eles devo meu agradecimento e minha gratidão: os assistentes de direção Sandro da Rocha e André Felipe Malcher, a Colorista Cassiana Umetsu e a produtora Executiva Cecília Umetsu. Agradeço também ao restante da equipe, especialmente a Amanda Cardoso, responsável por toda a pesquisa de imagens de arquivo, reportagens, fotos e tuites utilizados no filme. Sem a equipe voluntária, este filme seria impossível.

3- Como foi ver o filme exibido na tela grande e receber o calor do público? Algo te surpreendeu nas reações?

Fazer um filme é um processo longo, custoso, gratificante e frustrante ao mesmo tempo. Você planeja, executa, tenta fazer o melhor possível, e o filme ganha vida própria. O resultado é muito diferente do que você imaginava quando o planejou, mas, se for bom ou ruim, você vai amá-lo. É quase como decidir, ter e criar um filho. A questão é: as outras pessoas vão gostar do seu filho como você?

A experiência na sessão fechada de estreia foi emocionante. Ocupamos todos os 217 lugares de uma das salas do Cinemark Iguatemi, em Brasília. A reação das pessoas foi incrível. Pude perceber quais foram os temas e as falas que causaram a maior reação, quem são os entrevistados/personagens mais carismáticos, como a narrativa funcionou para o grande público. Tentando evitar um spoiler do meu próprio filme, ocorreu uma reação a uma fala específica no meio do filme que me surpreendeu muito. Outros trechos foram aplaudidos calorosamente, para minha surpresa – resultado da empatia com um dos entrevistados. Vamos ver como será com a plateia do Festival de Brasília.

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4- O #EradosGigantes foi selecionado para um dos maiores festivais do Brasil – o de Brasília. A emoção deve ser grande. Fale um pouco deste sentimento.

Realizamos um filme é que a epítome do cinema independente. Autofinanciado, baixo orçamento, sem incentivos públicos ou privados, com a equipe de direção realizando seu primeiro filme profissional – um longa metragem. Tinha tudo para dar errado, mas deu certo. Participar do Festival de Brasília, na Mostra Brasília, é uma emoção muito grande, porque reconhece do trabalho dedicado que fizemos e nos coloca dentro do circuito profissional de cinema. Ganhamos nosso lugar ao sol.
Além disso, vamos concorrer contra Cícero Dias, o Compadre de Picasso- documentário de Vladimir Carvalho, ninguém menos que uma lenda do cinema novo, maior documentarista brasileiro vivo, vencedor deste mesmo festival por mais de uma vez. Para a equipe do #EraDosGigantes, a participação na competição já é um grande prêmio.

5- Maurício, quais são as tuas referências como diretor? 

Como documentarista Eduardo Coutinho, Michael Moore, Werner Herzog e Joshua Oppenheimer. Além do Vladimir Carvalho, com quem será uma honra concorrer no festival.

Na ficção; Woody Allen, Lars von Trier, Hitchcock, Paul Thomas Anderson, Wes Anderson, Spike Jonze, Brian de Palma.

6- Nas redes sociais vivemos uma divisão entre esquerda x direita. Com amizades sendo desfeitas, desinformação circulando e discussões nada profícuas. Trazer um longa sobre política, neste momento, é um desafio?

Sim. Por ser um desafio, este é o melhor momento para realizá-lo. #EraDosGigantes é um filme do nosso tempo: os personagens, os debates, as polêmicas, a linguagem, a forma como foi tratada a opinião pública nas redes sociais estão conectados a nossa realidade. O trocadilho com a internet não foi incidental, já que usamos a linguagem das redes sociais no filme.
Por outro lado, o timing do filme foi incidental. Todo o projeto foi realizado ao longo de 2015 e finalizado no início de 2016, muito antes de se criar essa polêmica tão grande em torno do presidente Lula. Veja bem: um filme sobre o governo Lula, com a participação do presidente Lula, será exibido, no Festival de Brasília, exatos 10 dias depois da denúncia do Ministério Público. Dá pra ser mais atual do que isso? Quem apoia o presidente Lula e aqueles que são seus opositores devem ver o filme.

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7 – Os próximos projetos serão nessa linha?

Sim, eu e minha equipe estamos trabalhando na pré-produção do nosso segundo documentário, sobre a polêmica Uber x Taxis em Brasília. As gravações serão realizadas em outubro. Além disso, estou trabalhando na sinopse do documentário que deveremos filmar em 2017, sobre cotas raciais no Brasil.

8- Maurício, deixe um recado final para os seus fãs e para aqueles que se interessaram pelo teu filme.

#EraDosGigantes coloca em perspectiva um período recente da nossa história. Independentemente das posições adotadas pelos diferentes governos, a política externa do Governo Lula é um marco na história do Brasil, seja como parâmetro a ser seguido, seja como paradigma a ser contestado. Não foi por acaso que tomei a decisão de não realizar entrevistas com nenhum personagem que ainda estivesse ocupando qualquer cargo direto no poder executivo no período da produção do filme.

Além disso, o filme procura ser equilibrado. Entrevistamos personagens do governo, como Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães e entrevistamos opositores fortes, como o Embaixador Rubens Barbosa e o Ex-Chanceler Luiz Felipe Lampreia, em sua última entrevista (in memoriam). Se dependesse exclusivamente da minha vontade, teríamos entrevistado mais opositores, mas muitos deles não aceitaram nos conceder a entrevista quando da gravação do documentário, em 2015.

Não sei se tenho fãs, talvez tenha, inclusive, mais detratores do que fãs, mas quero que todos compareçam, assistam, formem opinião e votem. A política externa merece destaque e merece espaço como tema relevante da nossa sociedade.


SERVIÇO: 

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Trailer do filme #EradosGigantes:

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