Precisamos falar sobre Johnny Depp

Precisamos falar sobre Johnny Depp

Antes de começar este artigo, gostaria de já abrir em minha defesa que reconheço e valorizo a importância de que este tema seja debatido essencialmente pelas mulheres – já que são elas quem precisam dominar este discurso. No entanto, creio ser importante que os homens também se posicionem diante do tema aqui abordado. Aproveito para sugerir este artigo sobre cultura do estupro, e este sobre violência contra a mulher, ambos escritos por mulheres.

 

Há alguns dias, o ator Johnny Depp foi acusado por sua esposa (agora ex), a também atriz Amber Heard, de violência doméstica. Ela alega que o astro a agrediu antes que ela pedisse o divórcio. Pouco tempo depois, o ator sofreu boicotes por parte de fãs em apresentações da sua banda, Hollywood Vampires, que viaja em turnê pela Europa. Tirando a surpresa que é o fato de o ator ser também músico em um grupo com outros famosos roqueiros – eu juro que não sabia disso! –  o caso se tornou gatilho para um acalorado debate sobre a violência contra a mulher.

 

Algumas considerações importantes:

Aqui no Brasil, a acusação veio em consonância com o caso horrendo de um estupro coletivo contra uma garota de 16 anos. Páginas policiais à parte, já que não pretendo debater o imbróglio causado por quem busca subterfúgios para culpabilizar a vítima,  o debate sobre a violência contra a mulher e a cultura machista que impregna a nossa sociedade se fortaleceu.

O que um site de cinema tem a ver com isso? Absolutamente TUDO. Afinal, é por meio do cinema que temos acesso a grande parte da (re)produção dos conceitos socialmente construídos que promovem os comportamentos existentes na sociedade.

O famoso “teste de Bechdel” (criado pela cartunista francesa Alison Bechdel) é a prova de como os filmes são carregados de machismo – até porque são produzidos e dirigidos essencialmente por homens. Qualquer um fica surpreso com a quantidade de filmes que não passam no teste, ou seja, não possuem sequer uma cena com duas personagens femininas que conversem sobre um tema que não seja um homem.

 

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Vejamos alguns momentos do cinema em que o machismo se perpetua e repete padrões da sociedade:

Em “50 tons de Cinza”, um stalker milionário persegue uma jovem virgem, perturbada e preconceituosa em relação a práticas sexuais BDSM. Atrizes com mais de 40 anos – e que não se rendem às cirurgias – são relegadas a papeis de “mães comportadas” e nunca mais são convidadas para papeis sensuais: ou alguém chamou Patricia Arquette para viver uma comédia romântica?

Em “Transformers”, a personagem Mikaela, vivida por Megan Fox, não tem função nenhuma a não ser exibir o seu corpo. Em incontáveis comédias românticas, há mulheres bem sucedidas que são completamente infelizes porque não encontraram o “amor verdadeiro”.

 

O primeiro passo:

Não estou aqui, com estas palavras, querendo “mudar o mundo” do dia para a noite. Quero apenas contribuir para que todos nós possamos abrir um pouco mais os olhos – e incluo até mesmo os meus!

Quando aceitamos que nossa sociedade tem muito a melhorar, e compreendemos que de fato a “cultura do estupro” existe e que há uma grande desvalorização social da mulher, tanto na “vida real” quanto na “mídia” (e desde quando estas estiveram separadas, não é?), estamos dando pelo menos um primeiro passo. E é triste ver que muita gente é sequer capaz de enxergar isso.

 

Vou dar alguns exemplos:

No terrível caso do estupro coletivo, atente para a quantidade exorbitante de pessoas que tentaram “justificar” o ocorrido ao analisar a vida da vítima, pensar no que ela fez, em que roupa estava vestindo, etc. Ou seja, há uma cultura que busca “compreender” o estuprador, analisando a vida prévia da vítima, o tempo todo.

No caso da acusação da ex-esposa de Johnny Depp, muitas pessoas tentaram defender o ator. Aliás, um certo vlogueiro famoso e influente (quem será? mistério…) fez um vídeo inteiro dedicado a defender o direito de julgamento e de investigação dos abusadores antes de qualquer condenação.

Oras. Ninguém está defendendo a barbárie. Todo mundo tem direito à defesa. Mas é muito triste viver em um mundo no qual as mulheres vítimas de violência – e de estupro! – são preteridas na comoção pública em virtude de discussões que colocam em xeque a credibilidade de suas palavras.

 

E qual o papel do cinema neste cenário?

Seguindo alguns exemplos do artigo de Lara Vascouto no site “Nó de Oito”, podemos listar inúmeros momentos em que as mulheres são relegadas a situações estereotipadas que reforçam comportamentos da sociedade. Mulheres “feiosas” que mudam de vida quando dão aquele “trato no visual” são exploradas aos montes, especialmente nas comédias românticas. Geralmente elas não fazem mais nada: apenas tomam um banho de loja e de salão para repentinamente aumentarem sua autoestima. E mil outros exemplos de tratamento estereotipado poderiam ser dados.

O que quero dizer, aqui, é que os filmes precisam tomar muito cuidado com a forma como representam as mulheres, repensar o tratamento das personagens ou simplesmente o protagonismo delas. Sei que os filmes mudam conforme o mundo muda, mas há também o “vice-versa” nesta história. Para isso acontecer, segue um conselho ao estilo “meme da Bela Gil”: você pode substituir um diretor por uma diretora, um produtor por uma produtora, e um roteirista homem por uma roteirista mulher, por exemplo.

 

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Por fim, ainda sobe o Johnny Depp

Não é preciso odiar os filmes do Johnny Depp, nem odiar o trabalho do ator. Há cineastas acusados de estupro que continuam fazendo bons filmes (Woody Allen, por exemplo, e Roman Polanski, que nem pode pisar nos Estados Unidos), então o mesmo deve valer para atores – e o debate sobre o quanto podemos respeitar a arte de uma pessoa apesar deste tipo de acusação ou de divergências ideológicas, por exemplo, vai bem longe!

O que precisamos fazer é dar ouvidos a Amber Heard. Não desacreditar nas palavras da atriz, e aceitar a acusação.

Em um mundo com mais mulheres dirigindo e protagonizando filmes, e vivendo personagens com menos estereótipos, talvez as pessoas não hesitariam tanto em dar credibilidade para uma acusação de violência contra a mulher, mesmo que o culpado seja um querido astro do cinema.

 

ps: leia o artigo de Melissa Jeltsen no Huffpost Brasil

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