Crítica: Pitico: Hermes Ayres Azevedo (1881-1959): Historiador da Província – 50ª Mostra de SP
Pitico: Hermes Ayres Azevedo (1881-1959): Historiador da Província
Direção: Júlio Bressane
Roteiro: Júlio Bressane, Rosa Dias
Nacionalidade e Lançamento: Brasil, 2026
Elenco: Paulo Betti, Josie Antello, Cláudio Mendes, Divina Malandra
Sinopse: O fantasma de um historiador atormenta uma casa.
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A casa das assombrações. O filme de Gasparzinho do Júlio Bressane. Um retorno do cineasta ao seu lado mais chanchadeiro, em uma brincadeira fantasmagórica que encontra na comédia um de seus maiores trunfos. As cenas cômicas são incríveis: a câmera acelerada acompanhando o casal em fuga, as reações caricaturais dos personagens, as novelas de rádio e até mesmo o pós-créditos. Existe uma graça muito particular na maneira como Bressane conduz essas situações, explorando o exagero, o absurdo e o ridículo sem perder o controle de sua encenação. É um humor que parece nascer tanto das situações quanto das próprias possibilidades da imagem cinematográfica.
Mas, para além de sua dimensão cômica, Pitico é também um exercício de fantasmagoria transmitido pela imaginação alucinada de um mestre. Bressane constrói um universo em que a imagem parece estar constantemente assombrada por si mesma. A câmera na mão, os planos meramente pictóricos entre ela, as filmagens do texto, os planos holandeses, o digital em preto e branco, os ângulos tortos, as subjetivas: tudo contribui para uma sensação de instabilidade, como se estivéssemos diante de um espaço que não obedece inteiramente às leis do mundo concreto. A própria câmera parece participar dessa alucinação, deslocando-se, distorcendo os ambientes e encontrando enquadramentos que transformam o espaço em uma espécie de casa mal-assombrada.
Há algo de deliciosamente artesanal e, ao mesmo tempo, delirante nessa construção. Bressane parece se divertir com as possibilidades expressivas dos recursos que tem à disposição, fazendo da distorção, da movimentação e da composição dos planos elementos fundamentais de sua brincadeira cinematográfica. A imagem não está ali apenas para registrar o que acontece diante dela, mas para produzir uma atmosfera própria, um estado de espírito. É justamente nesse trânsito entre o cômico e o fantasmagórico que o filme encontra sua personalidade: uma comédia de assombrações em que a própria forma parece estar possuída.
E então há o zoom final no Paulo Betti, a imagem distorcida e aquela cadeira vazia. Imagens que prolongam a sensação de estranhamento e deixam no ar uma espécie de presença ausente. Como se, depois de toda a brincadeira, a casa ainda guardasse alguma coisa que não conseguimos enxergar completamente. Uma última assombração.
Nota: 5 /5