Crítica: Cangaço Novo – Segunda Temporada
Cangaço Novo
Criação: Maria Bardan, Eduardo Melo
Elenco: Allan Souza Lima, Alice Carvalho, Thainá Duarte, Marcélia Cartaxo, Hermila Guedes.
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 2023 (24 de abril de 2026 – 2ª temporada)
Sinopse: Após a morte de Ernesto, os irmãos Ubaldo, Dinorah e Dilvânia enfrentam uma guerra brutal para proteger seu povo contra os Maleiros e o prefeito Paulino Leite.
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Quase três anos após o lançamento da primeira temporada, Cangaço Novo retorna em seu segundo ano com desafios complexos e profundas rachaduras sociais. Os assaltos são quase secundários, embora cumpram certa função e, quem domina a cena, são as tramas políticas essencialmente brasileiras. Mudar para ficar exatamente como está, poderia ser o lema dos sete novos episódios que chegaram ao Prime Vídeo no último dia 23 de abril.
Não há ninguém inocente e não existe nada que de antemão não saibamos. Sequência direta do último episódio, o assaltante de banco Ubaldo Vaqueiro (Allan Souza Lima), que teve o pai assassinado, jura vingança a seus algozes. Acontece, porém, que ele se transformou numa figura política visível na fictícia cidade de Cratará. Seus movimentos estão limitados, assim como os do bando. Sua integração na política, incluindo a relação próxima com o interesse romântico, Leinneane (Hermila Guedes), que cava o cargo de vice-prefeita, deixa a situação nublada.
Talvez na inocência, o bando composto pelas irmãs Dinorah (Alice Carvalho) e Dilvânia (Thainá Duarte), não imaginavam que a administração ter mudado de mãos, não significava mudança de poder. Água privatizada para uma mineradora, precariedade no transporte — subtemas levantados — representam o Estado ausente ou capturado por interesses privados. A atual precariedade faz com que os irmãos Vaqueiros, além de liderança social, se misturem na administração fornecendo serviços públicos através de empresas que eles compraram com o dinheiro dos assaltos.

Contudo, ninguém gosta de perder poder. Esse movimento atravessa os Maleiros, a família que governou a cidade por mais de 40 anos, em especial o candidato derrotado, Gastão (Bruno Bellarmino). Essencialmente um vilão — mata o próprio pai —, e unidimensional em demasia, ele apela para o vil movimento de contratar jagunços para fazer o trabalho sujo — simplório efeito dramático — e expulsar famílias de suas terras e vender para a tal mineradora.
Os assaltos que eram frequentes e ganharam profissionalismo com a chegada do irmão perdido de São Paulo — Allan Souza Lima continua numa performance incrível —, agora ficam espaçados e com risco aumentado. Com o grupo organizado e a entrada objetiva — por meio de laranjas — na nova administração, conflitos antigos precisam ser resolvidos entre velhos conhecidos. Leinneane e o marido, o novo prefeito Paulino (Daniel Porpino), começam se estranhando, além do insosso triângulo amoroso com Ubaldo. A suposta traição de Leinneane, faz Paulino violentá-la e pular para o lado de Gastão, mesmo depois de resistir às investidas corruptas do vilão.
Falta tempo e sobram tramas na história escrita por Mariana Bardan e Eduardo Melo. A profundidade que os personagens alcançam a respeito de si mesmos surge como ponto alto da narrativa, com espaços de respiro e desenvolvimento da personalidade de cada um. A urgência do primeiro ano, se transforma em estratégia, articulações com outros assaltantes, políticos e comunidade. Nada disso impede momentos de explosão, que nas cenas de ação ficaram maiores e impactantes, e nos conflitos com velhos amigos ou inimigos com consequências irreversíveis.
A direção nas mãos de um único arquiteto, no caso o diretor Fábio Mendonça, fez bem. Um dos deslizes anteriores, foi a diferença de condução entre Aly Muritiba — que retorna como produtor — e o próprio Mendonça. A unidade dos episódios ajuda no ritmo, embora cortes abruptos e sumiço de personagens que fazem aparições pontuais sejam sentidos. O caso do personagem de Robério Diógenes, por exemplo, parecia ter mais tempo de tela, mas justamente pela falta de tempo, ele desaparece.
O maior mérito de Cangaço Novo acaba sendo seu elenco altamente sedutor. Fora os protagonistas, tia Zeza, personagem da gigante Marcélia Cartaxo, e Hermila Guedes, ganham destaque e função. Entretanto, o brilho está nas performances de Alice Carvalho e Thainá Duarte. Alice com sua Dinorah, ganha contornos suaves e uma calmaria efervescente que adiciona imprevisibilidade nas ações. Thainá ganha um dos melhores arcos de levante traumático que foi possível ver nos últimos anos. A cena final, com seus olhos hipnotizantes, ficará gravado na memória por longos anos.
O banditismo social, tema central da série, continua irresistível. As ações concretas do grupo, que agora não precisam de prepostos, criam dois sentimentos concorrentes: a empatia pelos assaltantes e o medo do imprevisto. A empatia foi sendo construída quando os assaltantes tiram de grandes instituições financeiras para solucionarem problemas da população; e o medo pela exposição e a possibilidade de serem punidos por terem feito algo que, em tese, seria moralmente reprovável.
A falência dos governantes ajuda na criação dessa simpatia. Enquanto os políticos se beneficiam da desgraça alheia para enriquecimento próprio, os assaltantes roubam para favorecer pessoas precarizadas em função da corrupção política. A pergunta que a série levanta, ainda que indiretamente, seria quem são os verdadeiros bandidos nesta história. Com a infiltração do crime organizado na política — apesar de nossa torcida, eles ainda agem fora da lei — existe a questão sobre as aparências estéticas de quem “cuida do povo”.

Dinorah, Ubaldo e Dilvânia, apesar das diferenças, também são movidos por motivos e vinganças pessoais e conseguem ser extremamente violentos, ainda que no fim, o resultado seja o bem-estar das pessoas que amam. Como informa cada início de episódio, a história dos Vaqueiros perpassa anos de ausência do Estado, justiceiros e violências generalizadas, sendo Dilvânia a mais afetada por aquela violência que silencia e mata em vida.
Essa complexidade de sentimentos foge do maniqueísmo que costuma estar presente nesse tipo de produção. As motivações e desejos dos protagonistas e até mesmo dos antagonistas, são fortes o suficiente para encarar as sete horas de diálogos, sofrimentos e intrigas políticas que poderiam ser irritantes. A direção competente deixa palatável um tipo de cenário extremamente brasileiro para o público internacional, ainda que nesse caminho alguma brasilidade fique pelo caminho. Resta torcer para que a Amazon e agora a Amblin — a produtora do Spielberg — não nos deixem tanto tempo sem uma terceira temporada. Claramente há história para contar.
Nota: 4 /5