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Crítica: Michael

Michael
Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: John Logan
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2026
Elenco: Jaafar Jackson, Nia Long, Colman Domingo, Juliano Valdi.
Sinopse: Acompanhe a vida e o legado do cantor Michael Jackson, da descoberta de seu grandioso talento como líder do Jackson Five até o impacto cultural de sua visão artística ímpar. Veja as ambições criativas de um homem que buscou ativamente se tornar um dos maiores artistas do mundo, destacando os passos dados por Jackson fora dos palcos.

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Podia ser pior. Detesto sair de um filme pensando isso; nunca é o que ninguém quer, mas, no caso de Michael, foi exatamente o que me aconteceu. Anos de espera e muitas negociações depois, a cinebiografia do Rei do Pop chegou aos cinemas e, em que pese o sucesso absurdo (e esperado) de público — o filme já faturou 40 milhões somente no primeiro fim de semana de estreia —, a obra deixa a desejar em muitos aspectos.

A começar pelo roteiro atropelado, que tenta dar conta de 30 anos da vida do cinebiografado com uma série de saltos temporais, os quais falham em dar qualquer respiro dramático para o espectador, mesmo nos maiores acontecimentos da vida de Michael. O que o roteirista John Logan (Gladiador, O Aviador) parece tentar atingir com esse filme é um “Michael Jackson Greatest Hits vol. 1”, uma vez que parece pensar na história do artista nessa primeira parte sob um único prisma, para além da relação conturbada que Michael tinha com o pai: seus hits.

Não há nada de errado em pensar em um filme sobre Michael Jackson, uma lenda absoluta da música, partindo das canções eletrizantes que podem compor essa trilha sonora. É parte fundamental, inclusive, do que as pessoas buscam quando compram um ingresso para o filme. Entretanto, ainda assim penso que seja necessário que o roteiro seja pensado para além disso, sob o perigo de que o filme se torne nada mais que um compilado de reproduções menos competentes de apresentações que já existem no YouTube.

O interessante de uma cinebiografia, e não me leve a mal quanto ao que irei dizer agora, não é exatamente contar a verdade sobre o artista. Longe disso, na verdade. Sei que é o que muita gente parece desejar, mas os recortes no cinema sempre são sobre uma (boa) porcentagem de mentiras. Por isso, quando uma cinebiografia nasce, acho que ela tem que oferecer uma perspectiva do criador e da obra, e essa perspectiva pode ou não ser interessante de ser vista.

E eu até penso que Michael oferece perspectivas interessantes, sim, ainda que sejam poucas. A cena dos bastidores de Thriller, por exemplo, é o tipo de sequência que justifica a existência do filme, nos inserindo, por meio da natureza do cinema, em um momento histórico da música e da carreira do Rei do Pop. Outro bom momento é quando a câmera capta a conexão de Michael com os fãs durante uma performance de “Human Nature”. O eco da plateia cantando no filme preenche as salas do cinema e dá carta branca para que o espectador cante junto. Agrada os fãs, mas, ao mesmo tempo, tem um sentido de ser que não se limita ao fanservice.

Agora, quando o longa decide focar na dinâmica do Michael com o pai, interpretado por Colman Domingo, parece que tudo fica muito maniqueísta e chapa branca. Não existe um fio de cabelo de bondade no pai, enquanto Michael, por outro lado, parece ser a última manifestação de bondade no mundo depois de Jesus. O que resulta em uma dinâmica rasa, que carece de equilíbrio e aos poucos vai se tornando mais cansativa de testemunhar do que qualquer outra coisa.

E, por falar em cansativo, outro ponto fraco está em um elemento que julgo ser essencial para qualquer filme, especialmente se o assunto é uma cinebiografia musical do Michael Jackson: a montagem. A montagem falha repetidas vezes em cumprir com duas das suas funções mais primordiais: dar ritmo e garantir unidade. Em Michael, a reescrita do filme na montagem, durante a pós-produção, custou o corte de quase duas horas de material (que acredita-se que ficou para a parte dois).

O que fazer com o que restou? Era a pergunta. Um amontoado de cenas que não obedecem a uma ordem estruturada o suficiente para qualquer escalada dramática, foi a resposta. O filme termina como começou e termina tão abruptamente que você se pergunta por alguns segundos se o acender das luzes não é uma falha do cinema. A sequência final é tão mal filmada e montada que deixa qualquer pessoa zonza.

É notório o esforço monumental da direção de Antoine Fuqua em tornar a reconstrução daquela performance algo empolgante, mas tudo que eu vi foram cortes e mais cortes rápidos sem muita razão de ser, enquadramentos pouco favoráveis aos movimentos (incríveis) de dança e uma câmera que balançava e desfocava direto na plateia de CGI para que nossos olhos não restassem tempo suficiente a ponto de identificar quando acabavam os figurantes reais e começava a ilusão gerada pela tecnologia (o que me remete inclusive à cena do Live Aid de Bohemian Rhapsody, dos mesmos produtores).

Por fim, por que realmente valem duas estrelas e meia e, se você estiver disposto, um ingresso de cinema? Pelas músicas, óbvio, e pelas atuações de Jafaar Jackson, sobrinho de Michael, que dá um show neste que pode ser o primeiro e único grande papel da sua vida como ator, e Juliano Krue Valdi, que interpreta o cantor ainda criança, com um carisma raro e especial. O que prova que, ainda que seja crucial para uma cinebiografia que o protagonista se saia bem, ainda existem outros elementos que têm o poder de derrubar um filme e ofuscar até mesmo as melhores das performances (e trilhas sonoras!).

Nota: 2,5 /5

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