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Mais completo, O Agente Secreto deveria vencer o Oscar de melhor filme

No último dia 02 de março, o crítico de cinema do The Guardian, Peter Bradshaw, escreveu o ótimo artigo ‘Por que O Agente Secreto deveria ganhar o Oscar de Melhor Filme’. Os motivos utilizados pelo crítico são sólidos e tendo a concordar com ele em todos os argumentos utilizados. De fato, o longa de Kleber Mendonça Filho, como escreve, “é o filme mais ousado e completo na disputa”. Elenco formidável. Direção de arte fabulosa. Figurinos primorosos. Honestamente difícil apontar deslizes nesta que parece ser a obra-prima — até o momento — do diretor.

Com menos de uma semana para a premiação, que acontece no próximo domingo, 15, O Agente Secreto tem todas as credenciais e merecimentos para ganhar nas quatro categorias em que concorre. A inédita Direção de Elenco, Filme Internacional, Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Filme. Merecimento, porém, não vale de muita coisa no Oscar, nem em nenhuma premiação estadunidense, mas neste caso, se qualidade fosse um atributo a ser avaliado, com alguma certeza ganharia. 

Premiações, acima de tudo, são sobre quanto dinheiro as distribuidoras estão dispostas a investir nas campanhas. Entrevistas, exibições com debates, salas de cinema, capas de revistas, outdoors, etc. A Neon, empresa responsável pela distribuição, tem feito um trabalho primoroso e tem na cesta outros três na categoria de Internacional. Foi Apenas um Acidente, do iraniano Jafar Panahi, representante da França, o espanhol Sirāt, de Oliver Laxe — o menos provável de ganhar — e Valor Sentimental, do norueguês Joachim Trier, concorrendo a nove categorias. 

Todos esses, infelizmente, não conseguem o gracejo e a ousadia de Mendonça Filho. Na opinião deste colunista, Valor Sentimental mais se aproxima da completude cinematográfica, por outras vias, mas aproxima. Foi Apenas um Acidente, com os atuais acontecimentos trágicos no Irã, pode ganhar força. Seria mais como um prêmio de consolação ao diretor e como recado contrário ao imperialismo de Donald Trump do que por outros motivos. 

Porém, a classe artística hollywoodiana tem se acovardado frente às violências institucionais do presidente, e com os estúdios de joelhos, causar indisposição nesta altura do campeonato pode custar dificuldades nos negócios e alguns empregos. A Voz de Hind Rajab, também seria um recado importante frente a cumplicidade dos Estados Unidos com o genocídio palestino, mesmo com o lobby sionista. Os ataques ao Irã e à Palestina, foram motivados e iniciados por Israel, e se posicionar contra o estado judeu, poderia resultar numa indisposição. Já O Agente Secreto e Valor Sentimental, frente a esta realidade, não comprometem ninguém. A disputa, provavelmente, está entre estes dois filmes.

Em Melhor Filme, porém, o assunto complica. Pecadores ganhou o Actors Awards (antigo Sag Awards). Uma Batalha Após a Outra ganhou o Bafta e outras premiações que não influenciam diretamente. Talvez seja o consenso mais seguro entre os votantes, especialmente por falar diretamente ao público norte-americano, não ser tão espinhoso e tratar de temas urgentes de forma menos beligerante, o ponto fraco do filme de Paul Thomas Anderson. 

F1 – O Filme não passa de uma propaganda de um esporte tedioso com um galã de meia-idade; Sonhos de Trem faz da melancolia uma escolha contemplativa da vida, mas não consegue nada elaborado; Frankenstein, movido pela paixão platônica de Guillermo Del Toro, prejudica a adaptação literária mais importante da modernidade; Hamnet faz um melodrama satisfatório típico de Oscar, comovente e seguro em demasia; Bugonia faz sátira mediana do negacionismo climático; e Marty Supreme tem boas ideias e grandes chances.

A obra de Mendonça Filho é surpreendentemente superior aos dez indicados a Melhor Filme e aos cinco a Internacional. Difícil de prever, está a categoria de Direção de Elenco. Inédita, ainda não temos repertório suficiente para saber. Diferente da escolha do Actor Awards, que premia melhor elenco, os votantes são diferentes. Segundo notícias e pelo próprio Gabriel Domingues, o coordenador de elenco do longa brasileiro, os estadunidenses estão impressionados com a diversidade de rostos na tela. Pode ser a maior surpresa da noite.

Em Melhor Ator, se os passos do sindicato dos atores forem seguidos — a maior quantidade de votantes na Academia — Michael B. Jordan deve ganhar. A polêmica recente do queridinho Timothée Chalamet — menosprezando artistas de ópera e ballet — , chegou no momento em que votos estavam sendo enviados, no último dia 05. Ainda não dá para saber os impactos. Wagner Moura, de todos, seria o melhor nome por sua atuação impecável, beirando a perfeição, e mais uma vez dentro daquela margem de merecimento, que pouco vale. Se o astro de Pecadores for o vencedor, uma boa escolha; se for Chalamet, decepcionante. 

No somatório de acontecimentos e graças a Neon, que tem investido pesado na campanha, o longa de Mendonça Filho parece ter as melhores chances. Fazendo o oposto pelo cinema brasileiro, pelas bandas de cá, a Ancine, o Ministério da Cultura e o governo Lula estão entregando a indústria audiovisual na mão das plataformas estrangeiras — não chega a ser decepcionante, e sim profundamente irritante tamanha incompetência de articulação e derrotismo. A boa fase do cinema brasileiro pode acabar graças à incapacidade do MINC. 

Apesar da sabotagem interna, O Agente Secreto reúne tudo aquilo que dá pra fazer com a gramática do cinema. “Um filme feito com um estilo natural e permeado por pura inspiração cinematográfica”, escreve o crítico britânico. “Possui uma qualidade quase novelesca, episódica – uma autoconsciência fria e discursiva. Poderíamos chamá-lo de um pequeno milagre, embora, com sua duração quase épica (2h40min), seja na verdade um grande milagre”, completa. 
A disputa pela memória como nunca antes vista, coloca a narrativa de Kleber e Wagner na linha de frente do enfrentamento do autoritarismo, que sempre ataca a construção de afetos solidários na aposta de dessensibilizar a realidade e embaraçar a memória. Mais do que imagens, a memória só pode ser lembrada por sua carga afetiva. Registrar, cria sentido dialético fora do tempo presente e combate com muita pirraça os corruptos tiranos. Por essas e outras já citadas, se existe um filme que merece ganhar o Oscar em todas as categorias a que concorre, ele se chama O Agente Secreto.

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