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Crítica: O Testamento de Ann Lee

O Testamento de Ann Lee
Direção:
Mona Fastvold
Roteiro: Brady Corbet, Mona Fastvold
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2025
Elenco: Amanda Seyfried, Lewis Pullman, Thomasin McKenzie, Matthew Beard, Christopher Abbott, Viola Prettejohn.
Sinopse: Ann Lee, a líder fundadora do movimento Shaker, é proclamada como o Cristo feminino. Estabelece uma sociedade utópica onde os Shakers adoram por meio de música e dança. Baseado em eventos reais.

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Às vezes, o virtuosismo técnico se paga.

Em O Testamento de Ann Lee, Mona Fastvold se empenha para fazer um filme tecnicamente complexo e o que poderia ser um excesso, ou mesmo um empecilho na hora de estabelecer uma conexão mais profunda com a protagonista, se traduz em um distanciamento não apenas necessário como realmente valoroso. Os números musicais em longas sequências, a atenção aos detalhes da direção de arte absolutamente essencial para nos localizar na Inglaterra do século XVIII e a atuação explosiva de Amanda Seyfried são pontos impossíveis de ignorar.

Filmado em 35mm e com uma fotografia dramática inspirada em Caravaggio, embora não tenha chegado com força para emplacar uma indicação ao Oscar, as técnicas empregadas e o barulho da estreia em Veneza, especialmente sobre a atuação de Seyfried, já tinham despertado em mim certa curiosidade. Entretanto, admito, nada muito além. Não havia visto nenhum filme da diretora até então, não tinha qualquer expectativa sobre o enredo que se inspirava em uma história real e, mesmo assim, ao final, posso dizer que mesmo sem esperar nada (ou talvez justamente por isso), o filme superou qualquer expectativa que eu pudesse ter alimentado durante esses meses.

A escolha acertada de Amanda Seyfried, a abordagem da espiritualidade e da religião, com pinceladas de crítica ao patriarcado e ao sistema econômico que desde aquele tempo moldava o mundo e as relações, são acertos que entrelaçados ao virtuosismo técnico mencionado, tornam rica a experiência do espectador mesmo sem conhecer a história por trás da obra. Que Seyfried é uma grande atriz, não tenho qualquer dúvida. Desde os filmes que se tornaram grandes clássicos na cultura pop, como Meninas Malvadas e Garota Infernal, é admirável o quanto ela prova continuar aberta à ideia de explorar sua versatilidade em papéis tão desafiadores. Interpretar Ann Lee, imagino, deve ter sido adaptar a ideia de uma mulher tão à frente do seu tempo, embora ainda fruto daquele contexto patriarcal de opressão — à época ainda mais violenta que hoje —, e mergulhar de cabeça na sua maneira de ver o mundo e de ver Deus.

Afinal, poderia mesmo uma mulher ter sido enviada por Deus para ser sua representação física na terra? O quanto Ann Lee tinha de bruxa, de personificação desse Deus cristão, ou seria ela apenas uma charlatã Os Shakers seriam uma religião que vivia seus princípios à risca ou nada mais que uma seita religiosa, alucinada nas suas próprias e restritivas crenças? Como diretora e co-roteirista ao lado do marido Brady Corbet (O Brutalista), me parece que Fastvold evita realizar qualquer julgamento sobre suas personagens, ainda que sua obra possa, sim, eventualmente questioná-las.

O que a diretora está realmente interessada em retratar é a figura de Ann Lee como esposa, como líder e como um ser deificado. Prismas de uma mesma mulher que, centenas de anos depois de sua existência, ainda desperta curiosidade — e, infelizmente, dialoga com a sociedade patriarcal até hoje. À diretora, interessam as lendas sobre a figura histórica tanto quanto os abusos que ela sofria durante seu relacionamento; o sofrimento psíquico de ter perdido tantos filhos; a persistência de se manter como líder mesmo quando a própria igreja insistia em persegui-la.

Bondosa e líder natural, mas por vezes também rígida e irredutível, Ann Lee talvez seja uma das minhas personagens favoritas no cinema em 2025 pelas suas controvérsias. Também não ouso dizer que me agradam todas as escolhas do filme, como a narração em off ou a divisão em capítulos que me pergunto ser de fato necessária para a construção do roteiro ou simplesmente uma tentativa arbitrária de deixá-lo mais próximo de um épico, mas no geral o saldo é positivo e prova que essa obsessão, que aparenta vir com o duo Fastvold-Corbet, pelo virtuosismo técnico, nem sempre se traduz em algo inócuo como O Brutalista. Às vezes realmente se paga.

Nota: 3,5 /5

O filme tem previsão de estreia dia 12 de março de 2026 nos cinemas brasileiros.

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