O fenômeno “O Agente Secreto”: Recife nas telas e no mundo
Como o cinema brasileiro conquistou prêmios globais e transformou a capital pernambucana em cenário vivo
Recife sempre foi mais do que pano de fundo. Suas pontes, cinemas de rua e fachadas antigas guardam histórias que parecem prontas para o cinema. Em “O Agente Secreto”, essa vocação ganha escala internacional. O filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura não apenas levou o nome do Brasil às principais premiações do mundo, como também colocou a capital pernambucana sob os holofotes, como personagem central de uma narrativa que mistura tensão política, memória e identidade.
Ambientado nos anos 1970, o longa mergulha em um Recife marcado por vigilância, silêncio e encontros às sombras. A cidade aparece como um tabuleiro de xadrez, em que cada rua, praça ou prédio histórico carrega significados que vão além da estética. Esse cuidado com o espaço urbano ajudou o filme a dialogar com plateias internacionais, mesmo tratando de um período específico da história brasileira.
A consagração de Wagner Moura e o triunfo no Globo de Ouro

A trajetória de “O Agente Secreto” atingiu seu ponto mais alto em janeiro de 2026, durante o Globo de Ouro. O filme venceu o prêmio de Melhor Filme Internacional, enquanto Wagner Moura foi reconhecido como Melhor Ator em Filme de Drama. Além disso, faturou múltiplas nomeações no Oscar.
A atuação de Moura chamou a atenção pela contenção. Longe de excessos, o personagem é construído com gestos mínimos e olhares calculados, como alguém que carrega mais informações do que pode dizer. A crítica internacional destacou justamente essa escolha, apontando a performance como uma das mais maduras da carreira do ator.
Além do Globo de Ouro, o longa manteve uma temporada sólida de prêmios e indicações, incluindo o Critics Choice Awards e reconhecimento em festivais europeus. O nome de Kleber Mendonça Filho voltou a circular entre os principais diretores do cinema autoral contemporâneo.
Principais prêmios e reconhecimentos de “O Agente Secreto”
- Globo de Ouro 2026: Melhor Filme Internacional
- Globo de Ouro 2026: Melhor Ator em Filme de Drama (Wagner Moura)
- Critics Choice Awards 2026: Melhor Filme Internacional
- Festival de Cannes 2025: Melhor Diretor (Kleber Mendonça Filho)
- Festival de Cannes 2025: Melhor Ator (Wagner Moura)
Brasil no topo: segundo ano de protagonismo internacional
O sucesso de “O Agente Secreto” não surge de forma isolada. Ele consolida um movimento que vem se desenhando nos últimos anos, com o cinema brasileiro voltando a ocupar espaços de destaque em festivais e premiações globais. Pelo segundo ano consecutivo, produções nacionais figuram entre as mais comentadas da temporada.
Parte desse reconhecimento passa pela escolha de narrativas que dialogam com questões universais sem abrir mão da identidade local. Em vez de tentar suavizar suas particularidades, o filme aposta nelas. A ditadura, o medo cotidiano e as contradições sociais são tratados com a naturalidade de quem conhece profundamente o terreno que pisa.
Kleber Mendonça Filho, recifense, constrói esse caminho com a precisão de um cronista urbano. Seus filmes observam a cidade como quem lê um livro antigo, encontrando marcas do passado nas páginas já amareladas. Esse olhar consistente ajuda a explicar por que o Brasil volta a ser visto como um polo criativo relevante no cenário internacional.
Recife sob as lentes: um roteiro turístico pelo filme

Se, nas telas, Recife ganha ares de suspense, fora delas a cidade vive um movimento curioso. Locais usados como cenário em “O Agente Secreto” passaram a atrair visitantes interessados em percorrer os mesmos caminhos do filme. É o chamado turismo cinematográfico, quando a ficção desperta o desejo de conhecer o espaço real.
Entre os pontos mais procurados, estão cinemas históricos, parques centrais e edifícios que preservam traços marcantes do Recife do século passado. Caminhar por esses lugares é como atravessar uma fronteira invisível entre o filme e a vida cotidiana.
Locações que se destacam no roteiro inspirado pelo filme
- Cinema São Luiz, símbolo da vida cultural recifense
- Ginásio Pernambucano, uma das instituições educacionais mais antigas do país
- Chá-Mate Brasília, ponto tradicional que atravessa gerações
- Parque 13 de Maio, espaço de convivência e memória urbana
Porto do Recife, cenário de sequências decisivas da narrativa
A riqueza arquitetônica da capital pernambucana, que brilha em cena, tem motivado muitos entusiastas do cinema a comprar pacote de viagem para explorar os marcos históricos em que a trama foi ambientada. A experiência vai além da fotografia. É um convite a sentir a cidade no ritmo de quem observa detalhes, escuta histórias e reconhece no espaço urbano um personagem vivo.
Um filme que deixa marcas
Mais do que prêmios ou números, “O Agente Secreto” deixa um legado simbólico. Ele mostra que o cinema brasileiro pode ser, ao mesmo tempo, profundamente local e amplamente universal. Recife surge como prova disso. Uma cidade que, ao ser filmada com atenção e respeito, transforma suas ruas em linguagem cinematográfica. Assim, o filme segue seu caminho pelo mundo enquanto Recife permanece ali, pulsando. Como um cenário que, depois do último corte, continua contando histórias para quem quiser olhar com mais calma.