Globo de Ouro se diversifica e premia Brasil, mas segue com pouca coragem
A internacionalização dos votantes do Globo de Ouro se fez valer com resultados concretos na última noite, 11. Em sua 83ª edição, frutos de uma repaginada mais estética que estrutural, a cerimônia que nunca foi levada muito a sério, nos últimos três anos tem feito esforços para parecer diversa. Depois dos escândalos envolvendo votantes e a não transmissão da cerimônia em 2022, a adição de membros de outros países e a venda da organização para outro grupo de mídia, mudanças aconteceram. Não foram muitas, mas as que houveram deixaram a premiação um tanto dinâmica.
O maior destaque foram os dois prêmios que O Agente Secreto recebeu. Melhor Filme em Língua não Inglesa e Melhor Ator em Drama para Wagner Moura, este último inédito e dobradinha com Fernanda Torres ano passado. Central do Brasil (1999), 27 anos atrás, tinha sido o último brasileiro a receber o prêmio de Língua Estrangeira. Os discursos de Kleber Mendonça Filho e Wagner foram os mais intensos, políticos e emocionantes da noite, especialmente ao falarem sobre a motivação política do cinema.
A verdade mesmo, foi que ninguém quis se arriscar no palco. A classe artística hollywoodiana parece amedrontada com Donald Trump e escolheu fazer manifestações silenciosas. Os verborrágicos fizeram no tapete vermelho, caso de Jean Smart, que venceu mais uma vez por Hacks e Mark Ruffalo, que concorria por Task. Alguns usavam um botton discreto, escrito “be good”, como símbolo em protesto ao assassinato de uma moradora estadunidense pelo ICE (a polícia de imigração dos EUA). Não deixa de ser irônico perceber o quanto os norte-americanos se veem paralisados frente a uma ameaça autoritária e acabam preferindo o silêncio ou o excesso de sutileza.
Dentro dos palcos e na cerimônia em geral, tudo se manteve calmo, quase em banho-maria, dos discursos aos prêmios entregues, provando a falta de coragem de produtores e artistas em colocar o dedo na ferida. Começando pelo monólogo de Nikk Glaser com alguns bons momentos, como o leilão da Warner Bros. a cinco dólares, ou o momento com Leonardo Dicaprio, mas um pouco antes e logo depois, o mesmo discurso de sempre se manteve, inclusive repetindo a estrutura do ano passado. Nem desastre, tampouco sucesso.

Além das premiações para o Brasil, outras surpresas caíram bem. Rose Byrne como Melhor Atriz em Musical ou Comédia, por Se Eu tivesse Pernas, Eu te Chutaria, com um discurso emocionante e divertido; Teyana Taylor, o primeiro da noite, ganhou Melhor Atriz Coadjuvante por Uma Batalha Após a Outra, emocionadíssima e com direito a dancinha; Stellan Skarsgård levou Melhor Ator Coadjuvante em Valor Sentimental, o único prêmio do filme norueguês, redimido com discurso em favor do cinema; o último prêmio da noite, Melhor Filme Drama, ganhou Hamnet, sendo divertido ver Chloé Zhao sem reação; e o bizarro Evento Cinematográfico foi para Pecadores, com discurso curto e objetivo.
O restante ficou exatamente como se imaginava. Uma Batalha Após a Outra levou quatro estatuetas no total, incluindo direção e roteiro para Paul Thomas Anderson, e Musical e Comédia; Jessie Buckley, por Hamnet, ganhou Melhor Atriz Drama, feito que deve acontecer em outras premiações; e no campo das séries, praticamente vimos a repetição do Emmy, com prêmios distribuídos entre Adolescência, O Estúdio e The Pitt. O que não aconteceu como no Emmy, nem no Critics, foi a disposição das mesas no salão. Que coisa terrível.
Dentro das obviedades esperadas, temos a concentração de prêmios em algumas poucas produções, vício recorrente e que não dá sinais de mudança. Outro ponto incomum, mas dentro das não-surpresas, está a moderação do discurso de Timothée Chalamet, que ganhou Melhor Ator Comédia ou Musical por Marty Supreme. Distante da soberba de semana passada no Critics Choice, o ator mais jovem a vencer na categoria pareceu contido. Difícil saber se foi obra das relações públicas ou se o jovem caiu em si e baixou a bola. Se continuar nesta toada, Timothée pode ser a pedra no sapato de Wagner Moura, que se for indicado ao Oscar, fato que será revelado no próximo dia 22, vai concorrer diretamente com o atual queridinho da indústria.
Estranhamente também está sendo o apagamento de Foi Apenas um Acidente, do iraniano Jafar Panahi, que tinha três indicações, incluindo Melhor Roteiro, e saiu de mãos vazias. Até ontem, era o pesadelo dos brasileiros na concorrência com o filme de Kleber Mendonça. Com oito indicações e chances de perturbar nosso sono, Valor Sentimental do norueguês Joachim Trier, parece ter perdido força, e a protagonista Renate Reinsve, que começou bem, infelizmente fica distante de ganhar algum prêmio. Movimentações como essas elevam a chance de O Agente Secreto garantir vaga no Oscar e talvez ganhar. Resta saber se a Academia irá premiar um filme brasileiro por anos consecutivos. Seria inédito.

As próximas premiações serão específicas, melhorando as previsões ou bagunçando de vez. Por exemplo, o prêmio do sindicato dos atores, que tem força, e agora renomeado para Actor Awards, esnobou qualquer nome internacional. O Bafta, a maior premiação do cinema inglês, que representa outra força importante, ignorou Wagner Moura e colocou o longa de Kleber na pré-lista de Melhor Roteiro Original e Filme Internacional, mas foi muitíssimo generoso com Valor Sentimental.
Fato antigo que não mudou, continua sendo que o Globo de Ouro não influencia diretamente nas premiações seguintes e serve de vitrine para diversos filmes, especialmente para O Agente Secreto. Desde as reformas, o Globo tem se mostrado cada vez mais cauteloso e vigilante para não desagradar ninguém. O movimento de maior agregação se torna positivo ao trazer diversidade e surpresas, além da comunicação global, porém, fica a saudade da festa e coragem nos discursos sempre tão característicos da cerimônia (não estou falando de você, Ricky Gervais). Parece que o Globo de Ouro ainda tenta encontrar seu lugar entre a seriedade e o descompromisso que representa, mas como não se decide, fica entre alguns acertos e o lugar-comum.