Crítica: Francisca – 45ª Mostra de São Paulo - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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Crítica: Francisca – 45ª Mostra de São Paulo

Francisca (Mostra de SP – acompanhe a cobertura)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira
Nacionalidade e Lançamento: Portugal, 1981
Elenco: Teresa Menezes, Diogo Dória, Mário Barroso, Lia Gama, Rui Mendes, Cecília Guimarães, João Guedes, Glória de Matos, Duarte de Almeida.
Sinopse: O triangulo amoroso entre três burgueses na Portugal do século 19.

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Um filme sobre triângulos. Manoel de Oliveira fazendo aquilo que tão bem sabe fazer: levar o cinema ao sublime. Em Francisca, há uma espécie de encantamento que nasce justamente do encontro entre o artifício e o sentimento, entre a rigidez da encenação e a intensidade daquilo que é encenado. Os diálogos literários, os personagens que declamam diretamente para a câmera, os contornos de artificialidade que atravessam as atuações e a construção das cenas fazem parte de um universo em que o cinema parece abandonar qualquer compromisso com a ilusão de realidade para encontrar uma verdade de outra natureza. Não se trata de reproduzir a vida, mas de encontrar uma forma capaz de transformá-la em algo maior, quase mítico.

Oliveira constrói esse universo com um rigor impressionante. As composições são milimetricamente pensadas, as figuras parecem ocupar posições previamente determinadas dentro do quadro e a simetria das coisas confere às imagens uma dimensão quase ritualística. Mas é justamente nesse rigor que surgem pequenas rupturas, movimentos que parecem deslocar momentaneamente a estrutura tão cuidadosamente estabelecida. Os pontuais movimentos de zoom, como aquele que acompanha a carta, a câmera que se abre para cima ou que se afasta para trás, são intervenções de enorme precisão. Não são movimentos gratuitos, tampouco procuram dinamizar aquilo que, por natureza, é estático. Pelo contrário, parecem revelar algo que já estava contido na imagem, mas que precisava daquele pequeno deslocamento para se manifestar.

Há momentos de verdadeiro assombro. A cena da partida de Fanny, por exemplo, possui uma força que ultrapassa aquilo que está propriamente acontecendo diante da câmera. É como se a encenação, em sua aparente imobilidade, conseguisse concentrar uma quantidade enorme de sentimento. O mesmo acontece na conversa entre José Augusto e a empregada na igreja, quando Oliveira filma a mesma situação a partir de diferentes pontos de vista. A repetição e a mudança de perspectiva não funcionam apenas como uma variação formal, mas chamam a atenção para a própria construção cinematográfica da cena, para o modo como um acontecimento pode ser reorganizado pelo olhar. O cinema não está ali para simplesmente registrar uma conversa: está para pensá-la, decompô-la e reconstruí-la.

Também é impressionante o contra-plongée de José Augusto com o coração. A imagem parece condensar muito daquilo que o filme procura investigar: a relação entre o sentimento e sua representação, entre aquilo que se experimenta e aquilo que se transforma em gesto, palavra ou objeto. Há algo de monumental nessa composição, como se Oliveira procurasse dar uma dimensão física a uma experiência que, em princípio, deveria permanecer abstrata. O coração deixa de ser apenas um símbolo do amor para se tornar parte de uma encenação que trata o sentimento como algo quase palpável, mas também estranho, distante e inacessível.

E é nessa relação entre forma e sentimento que Francisca encontra sua grandeza. O filme parece compreender o amor não como uma experiência de plenitude, mas como uma condição de sofrimento. Amar é desejar, mas também é querer possuir; é projetar sobre o outro uma imagem que dificilmente corresponde àquilo que ele realmente é. O romantismo, aqui, está muito distante de qualquer idealização reconfortante. Existe nele uma dimensão profundamente dolorosa, uma espécie de condenação em que o desejo se alimenta justamente da impossibilidade de sua realização. Os personagens parecem presos a uma ideia de amor que, em vez de aproximá-los, os distancia cada vez mais da possibilidade de qualquer felicidade.

A crescente do filme é majestosa. Tudo parece caminhar para uma espécie de inevitabilidade, como se a própria estrutura da encenação acompanhasse o endurecimento dos sentimentos e a progressiva transformação do desejo em obsessão. A artificialidade, que inicialmente poderia parecer um distanciamento emocional, acaba produzindo o efeito contrário: quanto mais os personagens parecem presos às palavras, aos gestos e às posições que ocupam, mais trágica se torna sua condição. Há algo de profundamente humano nessa impossibilidade de escapar das próprias idealizações.

Francisca é, assim, um filme sobre o amor como dor, sobre o romantismo como uma experiência de perda e sobre a distância que existe entre desejar alguém e verdadeiramente alcançá-lo. Manoel de Oliveira encontra na literatura e na composição rigorosa das imagens uma forma cinematográfica capaz de transformar essa tragédia sentimental em algo de uma beleza extraordinária. Um cinema que não teme o artifício porque sabe que, às vezes, é justamente através dele que se chega ao sublime.

Nota: 5 /5

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