Crítica: A Noiva!
A Noiva!
Direção: Maggie Gyllenhaal
Roteiro: Maggie Gyllenhaal
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2026
Elenco: Jessie Buckley, Christian Bale, Annette Bening, Penélope Cruz, Peter Sarsgaard, Jake Gyllenhaal, John Magaro, Matthew Maher, Jeannie Berlin.
Sinopse: Chicago, década de 1930: a pedido do monstro de Frankenstein, o cientista pioneiro Dr. Euphronious traz uma jovem assassinada de volta à vida. O objetivo é que ela seja uma companheira para o famoso monstro. No entanto, o que acontece em decorrência do feito é algo além do que qualquer um deles poderia ter imaginado.
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O segundo longa de Maggie Gyllenhaal, “A Noiva!”, poderia ser fácil e brevemente descrito como uma filha rebelde, feminista e indomável que nasceu da união entre a premissa e a esquisitice de um “Pobres Criaturas”, do diretor Yorgos Lanthimos, e a energia e o encanto musical de um “Coringa 2” do Todd Phillips. Entretanto, é preciso dizer que também tem uma personalidade própria, que dialoga muito com a revolução que essa safra do cinema mundial está a propor, e dentro de uma perspectiva de gênero realmente encantadora.
A inspiração por trás de “A Noiva!” é clara e Gyllenhaal quis ampliar o clássico de Mary Shelley dando seu estilo e sua própria interpretação sobre essa personagem e seu papel dentro da história. Ela reinterpreta essa noiva que é, ao mesmo tempo em seu filme, três personagens: Shelley, Ida e A Noiva (Penelope Rogers, ou seria Ginger Rogers?). Aquela que escreveu a primeira história, aquela que passou por ela, aquela que sobreviveu a ela. E Jessie Buckley interpreta, brilhantemente, essas três mulheres, as quais, em uníssono, representam aspectos da experiência feminina que atravessa os séculos.

A direção parece seguir o fluxo de pensamento da protagonista; não existe uma ideia fechada entre passado e presente, o interior e o exterior, o que acontece dentro ou fora das telas. A própria metalinguagem fílmica, que dialoga frequentemente com a ideia do cinema, é uma constante muito bem trabalhada também. Ao mesmo tempo, a personagem de Mary Shelley entra sem permissão em imagens preto e branco quando bem deseja; a Noiva se encontra em sofrimento psíquico por tentar resgatar vislumbres da pessoa que era antes, Ida.
Maggie é muito habilidosa na condução do filme, provavelmente por escrever o roteiro e também dirigi-lo, ela tem grande facilidade em tornar as linhas menos visíveis e convergir essas linhas temporais e diferentes personagens em uma só, como parte de um todo. Por mais confuso que isso possa parecer em teoria, o ritmo do longa obedece a essa corrente e deixa o espectador sem outra opção a não ser segui-la. Mesmo diante de eventuais desconfortos que escandalizam a banalização da violência contra a mulher, um senso de humor meio Beetlejuice permite que haja momentos de alívio cômico muito bons.
Falando em Beetlejuice, creio que este é o exato tipo de filme adulto, esquisito e fantasioso que Tim Burton adoraria ter dirigido, mas existe uma camada de cinema de gênero e uma originalidade na maneira como a câmera enxerga Jessie Buckley que são características de uma visão muito feminina na produção. A Noiva não pede desculpas por ser quem é. Ela é completamente livre na maneira como se expressa para o mundo, ainda quando atormentada pelas almas de mulheres que não tiveram a mesma sorte.
Diante da banalização da violência contra a mulher, especialmente no Brasil, o segundo longa-metragem de Maggie Gyllenhaal vem a calhar quando nos deixa sonhar com a revolução feminista. A(s) personagem(ns) de Jessie Buckley são igualmente brilhantes, desobedientes, punks, verborrágicas e, também, atormentadas pela sombra da violência que persegue o corpo feminino diariamente. É impossível que, no contexto atual, uma mulher (brasileira) não esteja se sentindo da mesma forma e parece que Gyllenhaal compreende e compartilha do mesmo sentimento, profundamente.
Nota: 3,5 /5
