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Crítica: Livros Restantes

Livros Restantes
Direção: Marcia Paraiso
Roteiro: Marcia Paraiso
Nacionalidade e Lançamento: Brasil, 2025
Elenco: Denise Fraga, Augusto Madeira, Renato Turnes, Vanderléia Will, Renata Campagna, .
Sinopse: Antes de se mudar para Portugal, uma professora de literatura decide entregar pessoalmente os últimos cinco livros que restam na prateleira aos amigos que os deram de presente, cada um com uma dedicatória única.

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Ontem terminei de ler A Trégua, do escritor uruguaio Mario Benedetti, e pensei que este seria um bom livro para ser compartilhado, emprestado ou presenteado, com direito a dedicatória. A narrativa envolvente, ácida e melancólica, somada ao protagonista que parecia empacado no tempo, me levou a Livros Restantes, filme da diretora catarinense Marcia Paraiso, que está no Prime Vídeo, especialmente pelas semelhanças com personagens que escolhem pequenas tréguas para fazer algo novo (de novo) na vida. 

Entre fragmentos, dedicatórias e lembranças de uma mesma época — diferente entre os participantes — a professora de literatura Ana Catarina, interpretada pela geniosa Denise Fraga, está de mudança para Portugal e restam cinco livros que ela deseja devolver pessoalmente aos antigos donos. Amigos da juventude que a presentearam, ora reagem com espanto, ora escapam da presença, quando descobrem que ela estaria devolvendo as páginas como representação de um pedaço que ela gostaria que ficasse. 

Nem todos os encontros são confortáveis. Alguns estão presos no passado, outros continuam seguindo a vida. Um deles relembra na alegria de reler, a oportunidade de conhecer outros mundos. Moradores da Barra da Lagoa, comunidade pesqueira tradicional de Florianópolis, Ana Catarina e alguns desses amigos nunca saíram de lá, e os livros, para ela especialmente, foram e são a porta de entrada para conhecer aquilo que os olhos ainda não viram. 

Devolver os livros aos antigos donos, coloca Ana Catarina em colisão com o passado. Dela, dos amigos e da própria família. Neste instante, Marcia Paraiso, que também escreve, aprofunda os dramas da protagonista, no intuito de criar tensão espontânea do choque de versões, a partir das dedicatórias nas páginas literárias e nas relações humanas. Essas tensões, como era de se esperar, revelam traumas nunca antes ditos em voz alta ou que eram de conhecimento de um único amigo, aquele que mais a acolheu ao receber o presente. Ironicamente, o livro devolvido foi Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. 

Assuntos familiares ensebados e personagens que apareciam fora do foco, no almoço de despedida ganham corpo, cara e voz. A revelação, horrorosa. O destino, satisfatório. Serve de ponto comum, gerando identificação com aquela família que vive no interior, numa vida pacata, e que debaixo de tamanha harmonia falsa, segredos foram mantidos ou permaneceram até quando foi possível. Nada que outros segredos, acompanhados de um genuíno pedido de perdão materno, não possam permanecer no fundo do mar. 

Tudo na comunidade parece idílico, sonhado, calmo e colorido, com sabores melancólicos. A virada de vida de Ana Catarina após os cinquenta anos, só pareceu possível depois de revirar lembranças. Desenterrar crises, amores e assuntos não resolvidos. A literatura, para a protagonista, foi a maneira de construir a vida, como a árvore que cresce dentro de casa. Fez-se a casa em torno daquilo que cresce naturalmente, como força de pulsão. 

Curioso pensar que a pessoa mais próxima pela vida cotidiana, e ao mesmo tempo distante, foi o ex-marido, no papel o ótimo Augusto Madeira. Preso num passado que não existe, só se dá conta dos motivos do término quando já não era possível vê-la. Retorna a ele A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo do Desastre, da escritora Naomi Klein. Em caso particular, o ódio ao livro, posto simplório, era amor não compreendido. 

Majoritariamente composto por uma equipe feminina, Livros Restantes tenta ir fundo nas motivações, desejos e sonhos de uma mulher que, nunca tendo saído da barra dos pais, fez naquela comunidade sua forma de encarar o mundo. As particularidades, talvez pessoais da diretora, encontram sentido numa vida que se reinventa. A aposentadoria vendida pela cultura, na obra de Paraíso representa apenas uma nova etapa, como qualquer outra. Cumpridas as demandas sociais, a nova aposta que parecia acessível apenas para jovens, nesta produção toma rumos ambiciosos e maduros. 

A direção fixa a câmera em conversas longas, em planos de recepção, sempre no plano-contra plano, com espaços para detalhes nos dedos nervosos da protagonista, e recebe de volta o brilho espontâneo de Denise Fraga. O mar catarinense cumpre função formal, assim como as cores e o jeito interiorano. Sem divergências estéticas, talvez fruto da experiência documental da diretora, acaba sintonizando nota única em momentos que podiam um pouco mais. A catarse quando chega, vem em boa hora, quase que construída com os amigos que reencontra. 
Do mesmo jeito que fiquei com vontade de presentear minha leitura do Benedetti, um autor que conheci recentemente, Livros Restantes também convida ao compartilhamento. A sensação de uma produção feita com carinho por todos atrás das telas, transpassa ao espectador no seu jeito provinciano. Quase como rima visual, Ana Catarina vai para uma cidade com cara de interior no país português e (re)encontra personagens parecidos com aqueles que tanto conviveu. O tempo passa diferente, num mundo próprio que vive outra vida, como acontece nos livros que ela leu e no novo comprado por um valor sem preço exato, que foi posto na nova estante num novo país já tão conhecido e numa nova vida que sempre recomeça.

Nota: 3 /5

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