Crítica: Rivalidade Ardente
Rivalidade Ardente
Criação: Jacob Tierney
Nacionalidade e Lançamento: Canadá, 2026
Elenco: Hudson Williams, Connor Storrie, François Arnaud, Franco Lo Presti, Callan Potter,Ksenia Daniela Kharlamova.
Sinopse: Dois astros rivais do hóquei vivem o auge de suas carreiras, mas acabam tendo que enfrentar o desafio inesperado de se apaixonar, o que pode complicar as expectativas do esporte e o futuro de ambos.
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Depois de alguns meses de atraso desde o lançamento, a série canadense que incendiou a internet, Heated Rivalry ou Rivalidade Ardente, chega ao Brasil pela HBO Max no próximo dia 13 de fevereiro. Nessa altura do campeonato muita gente já assistiu por meios alternativos, mas continua interessante perceber a escalada do fenômeno. Dirigida e roteirizada por Jacob Tierney e baseada na série de livros Game Changers da escritora Rachel Reid, que também chega às livrarias esta semana pela editora Alt, a produção tem atributos que valem a menção, no mínimo.
Basicamente temos o clássico tropo narrativo enemies to lovers, ou inimigos para amantes, só que no cenário esportivo, algo incomum, especialmente em esportes masculinos como o hóquei no gelo. Este tropo já foi usado à exaustão nas comédias românticas, restando mudar cenários, adicionar contextos e, neste caso, explorar a sexualidade dos protagonistas. Rivalidade Ardente se resume a um romance queer dentro de um esporte machista e representa um gênero pouco falado no mainstream.
Shane Hollander (Hudson Williams) capitão do Montreal e Ilya Rozanov (Connor Storrie), capitão do Boston, se encontram no verão anterior à estreia na liga principal. Rozanov aparenta ser marrento e competitivo, enquanto Hollander se comporta metodicamente e suave frente às provocações do competidor. Faíscas exalam entre eles logo no primeiro encontro e a partir desse momento, a rivalidade fica restrita às quadras, enquanto os dois mantêm um secreto romance ardente durante a temporada de jogos ao longo dos anos.
Uma decisão inteligente, até porque ninguém se importa, foi marginalizar as regras e contextos dos campeonatos. Os protagonistas verbalizam o fato ao longo dos seis episódios nos encontros secretos que vivem, às vezes criando dúvida se o pior para a carreira seria serem vistos como amigos jogando em times rivais ou amantes de times diferentes. Reforça essa percepção, a decisão estética da direção em mostrar narrações de jogos, comentários esportivos e diminuir o formato de exibição emulando as telas de TV dos anos 2010.
Fora do contexto midiático e da boca dos jogadores, faltam elementos para alimentar a tal rivalidade. Ela parece vir de dentro dos protagonistas e menos da recepção pública. Shane e Ilya desconhecem a própria sexualidade e sentem enorme tesão um pelo outro. Também sabem das pressões para serem másculos e manterem a pinta de badboy, coisa que Ilya executa com maestria, enquanto Shane fracassa. A origem russa de Ilya facilita a repressão da sexualidade e aos poucos descobrimos seu histórico familiar, embasando suas escolhas de pouca profundidade nos relacionamentos. Shane, por outro lado, permite sentir a confusão e a paixão na maioria do tempo.

Contudo, o fenômeno midiático da série não está na descoberta da sexualidade, nem no hóquei no gelo, e sim nas cenas de sexo entre os dois. Foi isso que fez a internet virar a coqueluche entre novembro e dezembro do ano passado, data original de exibição. Se há algo que sinaliza diferença de histórias parecidas, são as cenas de sexo entre os protoganistas. Bem coreografadas e invariavelmente excitantes, elas não são explícitas, diferente do que as publicações têm dito. Vemos no máximo bundinhas, virilhas e movimentos pélvicos sugestivos, ou seja, o famoso e polêmico soft-sex.
Existe química entre os dois, mais no sexo e menos no drama, mas existe. As cenas, porém, são extremamente bem comportadas, drasticamente limpas, sem qualquer defeito ou excitação. São dois atores esteticamente bonitos, que fazem corretamente a parte dramática, mas sem grandes expressões. O desejo exalado foi favorecido pela fotografia de Jackson Parrell que soube captar com lentes e filtros na pós-produção o calor necessário das cenas. Tudo fica mais apaixonante quando as composições visuais são melhor iluminadas e se usa com sabedoria as cores básicas. Os filtros bem usados são truques necessários para uma série de baixo orçamento.
O que sobra de química no sexo falta no drama. Quando os dois se separam depois que Shane fica receoso em declarar seu amor, eles entram na busca pela namorada para representá-los socialmente. A testosterona deve valer e prevalecer naquele meio. Quando Shane está com a namorada na balada e Ilya também, depois de tempos sem se encontrarem, abre-se um flanco para o melodrama que destoa da condução, com o propósito de forçar os personagens a repensarem seus caminhos. A crise quando chegou, natural neste tipo de fórmula, chegou de maneira deslocada e foi rapidamente resolvida.
Há uma quebra no terceiro episódio que desloca o foco dos protagonistas para um jogador mais velho de outro time, Scott Hunter, papel de François Arnaud. Ocasionalmente ele se apaixona pelo barista Kip (Robbie G. K.) e segue-se um romance às escondidas. O amor entra em crise quando Scott não consegue assumir Kip em público. No jogo final da temporada, já em outro episódio, em que o time de Scott saiu vencedor depois do que entendemos ser uma temporada instável, todos do time estão comemorando e Scott fica sozinho. Ele, então, chama Kip e o beija no meio da quadra enquanto a plateia vibra. Hollander e Rozanov que assistiam o jogo em casa entram em choque. Apesar da série se concentrar em Shane e Ilya, o beijo de Scott e Kip intencionalmente se transformou em uma das grandes cenas da produção.

Uma parte do sucesso de Rivalidade Ardente, que deve ganhar uma segunda temporada, vem do público feminino. Embora seja uma história queer, ela conta de um nicho específico da literatura conhecido como Boys’ Love, que retrata histórias homoeróticas destinadas às mulheres. A série de livros da autora seguem o mesmo trajeto narrativo. Jacob Tierney sabe dessa “audiência secreta”, como disse em entrevistas, e está visível nas escolhas estéticas e na forma honesta e quase sonhadora com que desenvolveu a narrativa. Saber da diferença dos olhares em histórias homoeróticas fez a diferença na captura e desejo das cenas, além de dar ao público exatamente o que ele quer.
No resumo, Rivalidade Ardente é correta. Não corre riscos nem avança sobre temas difíceis, e fica nas fronteiras tradicionais do gênero. A rápida passagem do tempo incomoda, especialmente no primeiro episódio, os dramas são simples, reconfortantes e, quando há alguma crise, logo a recompensa chega com brilho, afeto e paixão. Jacob Tierney conhece o material que trabalha e se dá bem na maioria do tempo, com atores fazendo o que precisam fazer. Honestamente não levanta grandes suspiros e provavelmente não era esse o objetivo, mas uma rivalidade caliente sem consequência nenhuma de vez em quando faz bem.
Nota: 3 /5
