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Crítica: Sirât

Sirât
Direção: Oliver Laxe
Roteiro: Santiago Fillol, Oliver Laxe
Nacionalidade e Lançamento: Espanha, França, 2025
Elenco: Sergi López, Bruno Núñez Arjona, Stefania Gadda, Joshua Liam Herderson, Richard ‘Bigui’ Bellamy, Tonin Janvier.
Sinopse: Um pai e um filho viajam pelas montanhas do Marrocos em busca de uma rave para encontrar a filha/irmã desaparecida, Marina, em meio a uma atmosfera de música eletrônica, liberdade crua e um deserto hostil, sendo uma jornada sensorial e existencial que explora limites humanos.

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Tem alguns anos que venho reconsiderando a maneira como percebo e escrevo sobre filmes que foram feitos para chocar. Enquanto muitas pessoas veem o choque gerado por imagens muito explícitas, principalmente de violência, como algo indubitavelmente negativo, tendo a perceber o choque como um recurso que, como todo recurso, tende a ser positivo ou negativo a depender do filme. Ou seja, irá depender do que a obra quer passar e de como aquela(s) cena(s) se comunica com o que foi construído ao longo da narrativa.

Sirat é um filme que usa o choque como recurso para discutir diferentes temas, do geopolítico ao filosófico, espiritual e metafísico. No longa, Luiz está à procura da filha que desapareceu em uma rave no deserto. Ele leva consigo o filho e o cachorro da família para a busca, mas não encontra na primeira festa em que vão, então acaba ficando com um grupo que conhece no lugar para procurá-la em uma outra rave que irá acontecer dentro de alguns dias, do outro lado do deserto.

Do ponto de vista geopolítico, pode-se argumentar que o filme de Oliver Laxe propõe uma reflexão sobre o conflito no Saara ocidental que se arrasta por anos desde a colonização espanhola na região. É possível argumentar que o longa aborda essa perspectiva por meio de uma “invasão” estranha àquela região, aqui representada por personagens europeus alheios aos conflitos locais, que serão punidos por uma série de tragédias a partir do momento em que decidem prosseguir com a viagem em uma terra que não os pertence.

Sob a perspectiva espiritual, filosófico e metafísico, a palavra sirat significa, para a teologia islâmica, a ponte essencial para o paraíso, descrita como mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma espada, a qual simboliza julgamento e fé. Se analisado sob essa perspectiva, o longa adquire camadas interessantes que o aproximam de uma visão dantesca, onde o road movie está mais para uma viagem direto ao centro do inferno que em direção ao paraíso. Aqui o protagonista almeja não exatamente encontrar a filha em terra, mas talvez encontrá-la em outro plano. Ou, talvez, para encontrar a si mesmo, como um bom filme de estrada faria.

Em todos os prismas possíveis, estes coexistindo ou não, o longa não articula nada além de um marasmo, um vazio pautado em um paradoxo mal trabalhado que tenta articular o niilismo absoluto e, talvez, considere um vislumbre de otimismo diante da outra jornada que no final se inicia. As mortes são meras tragédias consecutivas que falham em sensibilizar o espectador, ainda que recorram ao choque como um recurso para atingir isto. Os personagens não são interessantes, tampouco carismáticos o suficiente para que possamos desenvolver qualquer vínculo com suas tragédias. À exceção do núcleo central dos três personagens principais, todo o resto não tem o mesmo grau de relevância e, provavelmente, porque o filme caminha por tantos caminhos diferentes (literalmente) que não há tanto tempo de tela para essas outras figuras.

A forma em que essas tragédias se dão, inclusive, estão mais para uma demonstração de sadismo da direção, em ver aqueles corpos sendo expurgados pelo prazer de sentir a explosão do som do que em função da suposta crítica geopolítica, ou de um sentido metafísico/espiritual islâmico. Se assim considerarmos me parece um filme ainda pior, uma vez que assim reproduz a exata mesma coisa a qual critica, pois é um filme tão alienado quanto à tragédia geopolítica que o cerca quanto os personagens que supostamente critica. Se a escolha geográfica for puramente estética, piora ainda mais a correlação geopolítica que pode ser feita a partir do filme pois se torna de mau gosto, simplesmente.

Contudo, como nem tudo na vida são espinhos, Sirat também tem seus momentos. É um exercício interessante em termos de som e tem ótimas sequências, das quais destaco os desfiladeiros de causar vertigem em qualquer pessoa e os carros que são filmados como fantasmas que vagando naquele deserto do nada para lugar nenhum. Os momentos empolgantes de Sirat existem, a plateia de Cannes não estava totalmente errada, mas somando-os não chegam à metade da sua duração e tampouco têm o tem condão de transformá-lo em um bom filme — ou em uma experiência minimamente agradável.

Ainda, a maioria desses momentos só são significativos pela importância que o filme dá ao som, por isso o subtítulo no Brasil, “sinta a explosão”, é coerente — sentimos a explosão, é impossível não senti-la. O problema é que não há nada além. Ao tentar abraçar tantos temas, acabo achando que Sirat se perde em nos proteger de uma só tragédia que é, ao fim e ao cabo, é ele mesmo.

Nota: 2 /5

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