7ª Mostra "Lugar de Mulher é no Cinema"
Cinema Nacional

7ª Mostra “Lugar de Mulher é no Cinema” – Mostra Matinê e Raízes

Devido ao volume de curtas-metragens exibidos e a excelente curadoria com histórias muito interessantes, essa cobertura será dividida em partes para que o texto fique mais fluido e possa haver melhor elaboração das ideias e desenvolvimento das críticas dos filmes assistidos.

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Acontece entre os dias 24 e 28 de julho, a sétima edição da Mostra “Lugar de Mulher é no Cinema” no MAM (Museu de Arte Moderna da Bahia) com foco principal na exibição de curtas-metragens dirigidos por mulheres e pessoas não binárias. Além da exibição dos filmes que acontecem no período da tarde e noite, no período matutino haverá atividades formativas no Espaço Subúrbio 360, tudo de forma gratuita. Mais detalhes como horários e dias das exibições e formações, podem ser conferidas no site da mostra ou nos perfis nas redes sociais em @mostramulhernocinema.

Durante a cabine de imprensa online que aconteceu antecipadamente, foram exibidos alguns filmes da mostra competitiva, alguns levam destaque pela qualidade e destreza das realizadoras e outros com ideias e talentos a serem lapidados um pouco mais. Fato é que é possível perceber um grande volume de produções audiovisuais sendo desenvolvidas por mulheres e pessoas não-binárias em todo o Brasil, reforçando a necessidade e apoio a iniciativas positivas de construção de espaço no audiovisual brasileiro.

FILME: DONA BIU (2024) – Rio de Janeiro – RJ

Direção: Gabriela Taulois / Roteiro: Gabriela Taulois  e Cacá Mello

Dona Biu, curta-metragem de 5 minutos é um espetáculo de beleza e sensibilidade. Animado em 2D com traços muito característicos de ilustração rústica e cheio de cores, Gabriela Taulois e Cacá Mello desenvolveram uma história muito simples e extremamente familiar, com peso histórico brasileiro que consegue comover, ao mesmo tempo que reúne em pouquíssima minutagem uma parte considerável da cultura interiorana na sua mais bela qualidade e complexidade.

Dona Biu usa a narração em off para contar da rotina da benzedeira de cabelos brancos e roupa sempre branca a partir das memórias da sua narradora. É inteligente o uso da narração de uma pessoa adulta relatando as memórias de infância, pois cria-se um registro as vezes preciso, as vezes fantasiado, algo típico das nossas recordações. Graças a força da narradora ao afirmar suas lembranças e ao design de som muito aplicado ao som ambiente de um amanhecer, somos capturados e convidados, quase sem resistência, a imergir na história contada.

Muito do sucesso imersivo de Dona Biu, além da imensa identificação com a história, já que automaticamente lembrei da benzedeira que íamos quando criança perto da casa da minha avó, a Dona Durica, é a qualidade da animação e a captação de som da narração, que se mistura com os efeitos sonoros do campo. É justo dizer, ao menos me parece, que o curta de Taulois e Mello, reuniu em tão pouco tempo, uma das melhores e mais complexas narrativas do cinema que são as memórias. Costuma ser um tanto desastroso trabalhar com memórias no audiovisual, mas em Dona Biu, é graças a memória que essa história existe.

É louvável o que Dona Biu tem em apenas 5 minutos: imersão, emoção, alegria e peculiaridades de uma parte da cultura interiorana brasileira que não se encontra tanto em livros, já que a principal marca de sua existência se dá pela oralidade do conhecimento. O sincretismo religioso, a pluralidade da fé e de suas manifestações, compõe um Brasil que é mais complexo do que podemos concluir através dos filtros da TV. Ver representado de forma cinematográfica e  não apenas como registro oral, honra a memória das centenas de benzedeiras Brasil afora, seja a Dona Durica de quem lembrei, seja Dona Biu e tantas outras.

FILME: MARÉ BRABA (2023) – Fortaleza – CE/ Porto Seguro – BA

Direção e Roteiro: Pâmela Peregrino 

Maré Braba, curta-metragem de 7 minutos, é uma animação em stop motion muito bem trabalhada e, especialmente detalhada, com uma mensagem muito clara e ativista. Escolhendo desenvolver sua narrativa a partir de uma comunidade tradicional à beira mar, Pâmela Peregrino, reserva sua crítica social à destruição da natureza em função da luta por energia renovável, a nova commoditie docapitalismo tardio que, infelizmente, pouco se fala sobre os prejuízos a populações tradicionais na instalação das usinas eólicas e solares, além é claro do desarranjo ambiental. Muita gente empolgada com a renovação da energia, mas pouca crítica sobre os prejuízos.

Um ponto que nos desloca do envolvimento, é que ao mostrar os impactos da destruição de ambientes naturais, inclusive o oceano com instalações de usinas eólicas nos mares, não consegue fugir do maniqueísmo batido em que o norte global, para sustentar seus carros elétricos, influenciam e financiam a destruição de ambientes naturais na periferia do mundo, que é o caso do Brasil. Isso por si só não é um problema, ainda mais para um curta-metragem  de 7 minutos, mas parece simplificar demais uma questão que ultrapassa a lógica imperialista dos países do norte global.

É fato, porém, que Maré Braba se garante e muito na sua técnica stop motion com bonecas de pano, e todo o design do ambiente (mar, areia, cercas, aerogerador etc.) também em pano, com as costuras à mostra e uma riqueza de detalhes belíssima. Maré Braba é um primor na estética, a ponto de me deixar hipnotizado com o cuidado e carinho com que todo o material foi ilustrado e manipulado. A técnica, ou seja, a forma, é bem mais interessante e profunda que o conteúdo debatido. E isso não é uma crítica ao trabalho ativista desenvolvido, na verdade me parece extremamente necessário colocar em discussão os males dessa desenfreada saída esperançosa nas energias renováveis sem aparentes contrapontos na sociedade em geral.

Maré Braba é lindo, cuidadoso e serve de alerta ao mesmo tempo que consegue trazer uma pitada de esperança ao buscar uma saída no que é básico, simples e necessário. O deslocamento e a tragédia serem provocados por grandes corporações do norte global, ilustrado com pessoas sentadas no “topo do mundo”, parece tirar de nós, moradores e sobreviventes da parte baixa do mundo, a agência frente a destruição do próprio planeta. Somos vítimas do imperialismo, a história está aí para mostrar, mas parece um pouco ingênuo acreditar que nós, hoje, também não temos a capacidade de nos autodestruir com muita facilidade sem precisar de interferência externa.

FILME: COMO CHORAR SEM DERRETER (2024) – Rio de Janeiro – RJ

Direção e Roteiro: Giulia Butler

O ponto de grande destaque de “Como Chorar sem Derreter”, curta metragem de 15 minutos é a escalação da magnifica Betty Faria. Acompanhamos Elizabeth, uma mulher em sua velhice que não consegue chorar, suas lágrimas viraram bolinhas de gude. Num reencontro inesperado com sua criança interior e uma investigação com muito afeto e ajuda, uma máquina de lágrimas parece ser a solução para que nossa protagonista volte a sentir suas emoções genuinamente.

Optando por uma atmosfera um tanto onírica, Giulia até consegue fazer bons planos  com sua captação minuciosa e com planos detalhes muito interessantes, mas ao explorar os simbolismos do “congelamento das emoções”, tudo parece um pouco pobre, pouco articulado. O que ajuda a dar credibilidade para toda essa empreitada, que é corajosa, é o carisma, magnetismo e credibilidade que Betty Faria traz ao papel. As ideias, inclusive, são muito boas, o que ajuda a manifestar a empatia necessária para dar continuidade ao ritmo da história que é muito regular. Há algumas rimas visuais muito interessantes que fazem acordes propositivos com os planos detalhes, como as fechaduras.

“Como Chorar sem Derreter” é talvez o que poderíamos chamar de burnout de ator, uma pessoa que incarna dezenas de personagens e que as emoções acabam se misturando entre o real e o ficcional. Os questionamentos das máscaras, da confusão de sentidos e o retorno a infância para recuperar aquilo que há de mais genuíno e subjetivo na constituição humana, rende cenas muito bonitas e com um final muito substancial que até pode emocionar.

Ao mesmo tempo, é perceptível a falta de articulação das ideias e desenvolvimento do drama interior, demonstrando a carência narrativa do roteiro. Porém, apesar de pequenos deslizes, é fácil perceber que Giulia  Butler tem potencial a ser desenvolvido como cineasta, além da verdade de se arriscar com coragem para entregar um filme tão sensível como esse.

FILME: DANÇA DO ADEUS  (2023) – Salvador – BA

Direção: Agnes Aguirre / Roteiro: Raíssa Almeida, Leyzianne Borges e Agnes Aguirre

Acompanhamos por breves 10 minutos, um processo de luto profundo de Teresa, que após perder a avó e a mãe, se vê com poucas perspectivas e saídas. O filme de Agnes Aguirre é relativamente eficiente em montar a ambientação melancólica que paira no ar. Caixas amontoadas, sujeira e desorganização na casa, e um olhar cansado na nossa protagonista dão o tom do curta metragem.

Existe uma certa simplicidade por trás de “Dança do Adeus” que é bem-vinda, mas provoca, paralelamente, um incômodo que não se desfaz nem mesmo com seu final esperançoso. Parece faltar um pouco mais de traquejo técnico aos realizadores para criar um pouco mais de sentido na trama que se desenrola exclusivamente dentro da casa que Teresa mora. Há uma chuva constante que goteja, (um recurso simbólico muito utilizado para reforçar a tristeza, sendo a água a representação constante do choro que não cessa) porém, na mixagem, o desenho de som da chuva sofre com uma repetição constante que acaba nos tirando do filme, parece ter faltado, nesse recurso específico, um pouco de revisão.

Porém, isso não é de todo mal, já que há um cuidado com os posicionamentos de câmera que são eficientes para um curta, em especial quando Teresa se coloca para dormir e tem um sonho com Bailarina numa apresentação muito singela, com luzes douradas representando um retorno à vida do enlutado. Isso aparece após as reviradas nas caixas, em que a protagonista encontra desenhos e uma carta – que não conseguimos ler pois o tempo que a câmera fica é muito curto – que parecem criar forças para o retorno. Existe um silêncio e isolamento constante, o que acaba fazendo com que o som da chuva fique ainda mais destacado, mas em linhas gerais, a execução acaba sendo positiva.

“Dança do Adeus” é um filme que explora o luto de maneira muito formal e utiliza recursos clássicos para contar sua história. A escolha do constante silêncio, como tende a ser o processo de luto na vida real é bem corajosa, já que se ampara na máxima que diz que “mostrar é melhor que falar”. Os deslizes técnicos acabam jogando um pouco contra, já que o pouco som que ouvimos não ajuda na imersão e sim ao contrário. Existe talento e sinceridade no curta de Aguirre e isso é bonito de ver, um pouco mais de experiência que veem com o tempo, pode ajudar a lapidar a inspiração e vontade da diretora.

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