Eu Cinéfilo #62: Sobre heróis, ciclos e cinema - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
Cinema Mundial

Eu Cinéfilo #62: Sobre heróis, ciclos e cinema

Nos últimos 20 anos vimos a ascensão e a tomada de mercado dos cinemas de heróis. Além da criação de um gênero cinematográfico, o de heróis, assistimos ao fortalecimento das franquias, copiadas e buscadas por todos os grandes estúdios hollywoodianos, a criação de multiversos longos e com dezenas de filmes conectados de alguma maneira, tendo suas culminâncias em filmes-evento (“Vingadores”, “Liga da Justiça”…).

O modelo se tornou o número um em bilheterias e ocupação de salas até 2019, quando atingiu o seu ápice, pelo seu mais competente criador, a Marvel, com “Vingadores – Ultimato”, em um evento que só pode ser comparado com o atual filme da ”Barbie”.

vingadores Ultimato Metalinguagem

Porém, nos últimos quatro anos, o cinema de heróis tem sofrido e a indústria, que jogou todas as suas fichas e possibilidades de sucesso no gênero, se vê meio perdida acerca dos novos rumos. A expansão pós 2019 buscou o streaming como apoio e apostou no potencial de crescimento do segmento, em decorrência da pandemia principalmente. Séries foram produzidas em uma velocidade absurda, títulos e até calendários de estreias voltados para o segmento, com o intuito de fortalecer o seu produto principal, o cinema, e alavancar as bilheterias, só que o resultado não tem vindo desde então. Afinal, o que tem acontecido com o cinema de heróis?

A resposta não é simples e nem o motivo é apenas um, mas é possível notar que o gênero já chegou ao seu ápice e dificilmente voltará a fazer o famoso bilhão, estreia pós estreia. O universo cinematográfico deste segmento atingiu um tamanho quase impossível de acompanhar ou de renovar o público e não me refiro a nós, cinéfilos e nerds que sabemos de tudo o quanto é referência e origem de personagens, mas o público em geral, que é quem de fato ajuda a alavancar as bilheterias das obras, não é muito atrativo ir ver um filme tendo que ter visto uma centena de filmes e séries antes e não sou quem digo isso, são pesquisas e números que tem mostrado.

Olhando em um futuro próximo, o ciclo do gênero tem mostrado que seguirá como um pilar, mas logo não será visto como o único grande investimento a ser feito pelos estúdios, em especial em 2023, onde, ao que tudo indica, deverá ter apenas Guardiões da galáxia como obra de sucesso considerável. Os fracassos das séries da Marvel, e nos cinemas de “Flash”, “Adão Negro”, “Homem-Formiga 3” e “Morbius” sinalizam com muito mais preocupação de que existe um cansaço do gênero com o público, do que como sucessos pontuais de “Thor: Amor e Trovão”, “The Batman” e “Doutor Estranho No Multiverso da Loucura”, que, apesar de terem dado um bom retorno, não ficaram à altura do estouro que os estúdios esperavam.

O argumento mais utilizado oficialmente é o de que a pandemia mudou os costumes do público, de certa forma sim, mas não a ponto de não permitir que filmes atinjam estrondosos sucessos e nem que vá virar tudo uma coleção de fracassos. Não à toa que tivemos verdadeiros estouros com “Top Gun Maverick”, “Super Mario Bros”, “Minions” e tudo encaminha para que Barbie seja o fenômeno que estoura bolhas.
Uma das respostas para essa mudança está na própria história do cinema, onde é muito comum que ciclos de grandes e lucrativos modelos de filmes se fechem e fiquem mais nichados com o tempo, como ocorreu com os faroestes, os filmes de guerra, as super produções bíblicas ou os filmes de ação dos anos 90.

Outra resposta talvez esteja na necessidade do gênero se reinventar (vide “Homem-Aranha Através do Aranhaverso”), colocar novos nomes e ideias no segmento, não só trocar os heróis nas telas, mas colocar pessoas novas para reoxigenar o gênero (quem sabe?).

O certo é que tudo aponta para que não vejamos mais os filmes de heróis levando produções após produções ao público que venha a render mais de um bilhão de bilheteria por obra, a tendência, pelo menos aos olhos deste que vos escreve, é que o gênero dê uma diminuída em seus números e que a indústria, com sua fome de lucro, busque uma nova galinha dos ovos de ouro para produzir em série.

Até lá, ainda teremos algumas tentativas de emplacar novos e velhos heróis, enquanto o público demonstra o que realmente tende a querer. No gosto deste cinéfilo aqui, seria legal se a indústria passasse a produzir diversos filmes de orçamentos um pouco menores e que buscassem bilheterias menos megalomaníacas e que, ao invés de se investir 300 milhões em um único filme para arrecadar 1 bi, se possa investir, com este mesmo valor, em 3 ou 4 produções, capazes de dar um retorno dentro do esperado, mais ou menos como a A24 faz com suas produções modestas, mas que quase sempre se pagam muito bem. Nos resta aguardar e seguir acompanhando a roda do tempo girar.

Texto escrito por:

Wesley Fernandes dos Santos

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