O Desalento versus Esperança na 90ª edição do Oscar
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O Desalento versus Esperança na 90ª edição do Oscar

Na noite de 04 de março de 2018, tivemos em Los Angeles, EUA o mais politizado das premiações do Oscar, muito por conta dos casos de abusos que vieram à tona, após denúncias surgidas contra Harvey Weinstein. Além disso, críticas às políticas imigratórias do governo Trump e a falta de representatividade em Hollywood foram pautas de diversos discursos durante toda a premiação.

 

Não obstante, muitos dos filmes indicados também detinham uma forte politização em suas temáticas, se tornando bandeiras (não confunda com panfletos) da representatividade proposta. Ao passo que os discursos, tanto os do insosso apresentador Jimmy Kimmel, quanto dos ganhadores e seus respectivos prêmios, iam ganhando forma e corpo com textos potentes como o Guillermo del Toro falando sobre politicas imigratórias, ou mesmo de Frances McDormand falando sobre mulheres no cinema, os prêmios dados aos filmes pareciam seguir na contramão.

 

Um exemplo muito claro aconteceu na entrega do prêmio de melhor documentário. Na disputa tinham dois grandes favoritos que eram “Visages Villages” de Agnés Varda e “Últimos Homens de Aleppo” de Firas Fayyad. Temos aqui dois trabalhos completamente diferentes, sendo o primeiro um documentário cândido e sensível sobre memórias e gerações, e o segundo um grito pujante de socorro diante de uma guerra que dizima milhares de vidas de homens, mulheres e crianças na Síria. A disputa parecia ficar entre a doçura esperançosa de Varda e o crueza politizada e violenta de Fayyad, e para a surpresa geral, o prêmio ficou com o “original netflix” “Ícaro” de Bryan Fogel, que nos espectros supracitados, ficaria no meio do caminho.

 

O que aconteceu no ano passado com o prêmio dado ao filme iraniano “O Apartamento” de Asghar Farhadi, numa clara manifestação política, aqui não se repete em melhor documentário. Em contrapartida, na categoria de melhor filme em língua estrangeira, “Uma Mulher Fantástica” de Sebastián Lelio (Chile) leva o prêmio com uma obra sobre resiliência transgênero. O filme por si só é excelente, mas não dá para deixar de lado importância da obra em quebrar alguns paradigmas sociais. Apesar de não ser um filme amargo e duro, é filme tem momentos bem pesados e de desesperança para com o tratamento dados aos transgêneros. Vitória do politizado.

 

Entretanto, ainda que o discurso sobre representatividade feminina tenha sido um dos pontos mais abordados durante o evento, poucas mulheres acabaram sendo premiadas, o que fez com que um pequeno número de mulheres discursassem no palco. Mas quando houve essa oportunidade, o resultado foi catártico. Frances McDormand deu um show com seu potente discurso sobre a hipocrisia de alguns homens que “pregam” representatividade, mas na hora de contratar sua equipe, sempre o faz com esmagadora maioria de homens, héteros e brancos.

 

“Lady  Bird” uma das queridinhas do público, saiu de mão abanando, mesmo tendo um momento histórico ao ter (pasmem) apenas a quinta mulher* indicada ao prêmio de melhor direção (não diga ‘melhor diretor’ NUNCA MAIS) com Greta Gerwig. Mas imaginar que ela venceria a categoria é um exercício até ingrato dada a disputa ter ficado entre Guillermo del Toro e Paul Thomas Anderson (ambos homens e brancos). Jordan Peele correu por fora com o seu “Corra!” junto com “Lady Bird”.

 

Contudo, “Corra!” não ficou sem prêmio ao receber o Oscar de melhor roteiro original. Um prêmio muito merecido e ao mesmo tempo histórico pelo filme tratar de racismo de um maneira tão criativa sem deixar de ser reflexiva. Não trate este filme com uma mera comédia como o Globo de Ouro fez. “Corra!” é uma porrada no estômago que precisa sim incomodar e gerar debate. Vitória do desalento.

 

Mas a disputa mais acirrada estava mesmo na categoria de melhor filme, que tinha na disputa dois candidatos fortíssimos, com temáticas completamente opostas! “A Forma da Água” representa em cada frame a esperança, ao passo que seu concorrente direto “Três Anúncios Para Um Crime” é uma obra niilista, completamente ácida e provocadora. A esperança versus desalento fica muito claro! E a pergunta que pairava sobre minha cabeça segundos antes de se abrirem o envelope é: “a escolha do filme, precisa seguir a tendência dos discursos?”. No momento em que Faye Dunaway e Warren Beatty anunciaram “A Forma da Água”, percebi a importância de um filme esperançoso vencer o desalento. Afinal, se não tivermos esperança, o que nos resta? Ao mesmo tempo que vivemos tempos sombrios, ainda temos motivos para esperança, e por que não nos apegarmos a ela?

 

“A Forma da Água” é um respiro diante de tanto cinismo nesse mundo hipócrita. E mesmo o filme sendo uma obra sensível, questões de representatividade não esquecidas como mostra esse feliz tweet que arrancou um largo sorriso de meu rosto assim que o li. Vida longa ao “A Forma da Água”!

 

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*Greta Gerwig foi a quinta mulher a receber uma indicação por melhor direção, juntando-se a Lina Wertmüller, Jane Campion, Sofia Coppola e Kathryn Bigelow. 

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